Carnaval em Ilhéus, um olhar antenado

Por Julio Gomes.

Nesta Ilhéus sem programação oficial de Carnaval, a folia do Rei Momo resiste! Bloco das Muquiranas e do Zé Pereira no Pontal, entre outros. Blocos no bairro Teotônio Vilela. Grito de Carnaval na praça da Urbis e Bloco no Eixo Principal do Bairro Hernani Sá. O povo da cidade brinca com pode, porque isso vem de dentro de nós, de nossa cultura, de nossa identidade mais intrínseca e subjetiva: não há Bahia sem Carnaval!

Há anos acompanho, como partícipe e, às vezes, como protagonista, a evolução do Carnaval em nossa cidade. Lembro, em Ilhéus, das Escolas de Samba, dos primeiros Blocos Afros, do inesquecível Trio Elétrico Iemanjá, presença obrigatória em todas as festas, seja no Carnaval, disputando espaço com trios vindos da Capital, seja nos comícios (a legislação da época permitia o uso de atrações artísticas) e em todas, todas as festas públicas ilheenses.

Já tivemos aqui, tempos atrás, grandes carnavais com atrações de peso vindas de Salvador, pagas pelo Poder Público; ou nos momentos em que blocos mais chiques, como o Sfrega, marcaram época. Recordo e analiso tudo isso, com olhos de um cidadão-folião de 53 anos de idade, o que se passou e se passa em nossa cidade.

Não com crítica ácida, nem com objetivos eleitoreiros, mas com amor e desejo de ver Ilhéus crescer, afirmo sem medo que é simplesmente inadmissível que Ilhéus não tenha uma programação oficial de Carnaval, que não possua uma agenda carnavalesca ampla, eficaz, organizada pelo Poder Público e divulgada com anos de antecedência para fortalecer nossa economia, nosso turismo e nossa identidade cultural diante do Brasil.

Claro que não cabe mais gastar milhões de dinheiro público para contratar grandes artistas, quando tudo que é público no Município de Ilhéus padece e mingua, quando se alega não poder pagar nem mesmo os salários dos servidores municipais. Não é isso que o povo e a sociedade querem.

Mas gestões municipais anteriores, inclusive a do ex-prefeito Jabes Ribeiro – com quem não tenho nenhuma afinidade, nem simpatia política – provaram que é possível fazer um bom carnaval gastando pouco, como se fazia com o chamado Carnaval Cultural, com atrações e trios regionais, e com palcos diversos, para atender a gostos diversos.

Itabuna, Vitória da Conquista e outras cidades da Bahia talvez possam ficar sem fazer Carnaval. Mas Salvador, Porto Seguro, Ilhéus e Itacaré, Municípios com forte vocação turística e cultura marcantes, simplesmente não podem se dar a esse luxo. Não fazer carnaval nestes municípios é um verdadeiro crime, contra a economia, contra a Cultura, contra o povo!

Fazendo um contraponto, vale ressaltar, aqui, alguns acertos recentes da atual administração, tais como encerar as festas públicas sempre mais cedo, pois não adianta termos uma festa seguida de velórios em diversas famílias. A violência generalizada que vivemos hoje impõe limites que devem ser observados. Outro acerto foi, neste ano, nada cobrar, nem impedir que ambulantes armassem barracas na Avenida Soares Lopes para ganhar algum trocado. Se o Município quase nada oferece, também nada deve cobrar.

Há, também, equívocos a serem corrigidos de imediato, tais como ausência ou presença insuficiente da Setram (agentes de trânsito) quando da passagem de diversos blocos pelos bairros; e o impedimento, por parte da Polícia Militar e por ordem do Poder Público Municipal, de que o mini trio que no domingo acompanhava o mix de blocos afros entrasse na Avenida Soares Lopes logo após 22:00 horas, coibindo e cerceando abusivamente uma manifestação cultural legítima de nosso povo, ligada às nossas raízes africanas.

Mas o erro mais grave de todos, que vem sendo cometido gestão após gestão, é omitir-se de realizar o carnaval na terra de Gabriela e de Jorge Amado, é não ter uma política pública voltada para isso. É um erro estratégico, fatal, em um município com vocação turística, que deveria, no primeiro ano de governo de cada prefeito, divulgar a programação de carnaval dos próximos quatro anos para todos os órgãos públicos e privados voltados para o turismo, no Brasil inteiro.

Por fim, não pense que esta mensagem seja para o atual Governo Municipal, que só terá mais um carnaval à sua frente. Afirmo isso principalmente para quem vier a governar Ilhéus nos próximos anos, seja lá quem for, de que partido for. Chega de jogar oportunidades na lata de lixo.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Que Deus é esse?

Por Mohammad Jamal.

A maioria dos meus amigos sabem-me muçulmano, porém, diante do fato presenciado, não quis envolver minha personalidade religiosa de islamita saudando-o com As-Salamu Alaikum (Que a Paz esteja sobre vós), tendo optado por saudá-lo com respeitoso Namastê (O deus que habita em mim saúda o deus que habite em você). Namastê é uma saudação em sânscrito que significa “O Deus que habita dentro de mim saúda o Deus que está em você” ou ” A minha essência saúda a sua essência”, ou “Curvo-me perante a ti”. Namastê é uma forma de cumprimento de um ser humano para com o outro e expressa um grande sentimento de respeito. Nos lembra que todos nós compartilhamos da mesma essência, da mesma energia, do mesmo Universo. E foi assim, num clima de indiferença, rejeição e brutalidade que esse “deus” inquilino de um ser humano me respondeu: E daí? É assim mesmo. Chocado com a cena presenciada, que opto pela sensatez de omitir, vi-me vulnerável e frágil ante a dimensão do fato, que me vi no dever de questionar aquele “deus” um São ou Senhor qualquer desprovido de amor ao próximo.

Que deus é esse? De onde ele veio e como conquistou a maioria da humanidade com métodos tão desamorosos, hostis e perversos? Onde e como estávamos, talvez sob o manto do desamparo em intenso sofrimento e dor, não nos apercebemos do seu proselitismo radical e fundamentalista.

Que deus é esse que cria, ampara, sacia e depois degreda a miséria e abandono à fome? Que deus quão poderoso e benévolo seria capaz de alimentar com um peixe, um pão e dar água fresca para saciar a sede das hordas de fugitivos do jugo dos faraós quando vagavam pelos desertos seguindo Moisés? O milagre da multiplicação do peixe e do pão e o ferimento ao bloco de arenito de onde jorrou água fresca abundantemente é algo divino?

Que deus é esse que, mesmo podendo impedir o sacrifício, cede seu enviado e portador dos seus ensinamentos à sanha odiosa dos romanos que o julgam criminoso e insurgente, preferindo indultar a um ladrão, tipo aqueles corruptos de hoje na política. E permitiu que Judas, por trinta moedas, o entregasse aos carrascos para humilha-lo, tortura-lo, sevicia-lo e matá-lo da forma mais vil e dolorosa na crucificação? Para salvar a humanidade do pecado? Essa “humanidade” que aí está? Fala sério vai. Eu não daria a vida de uma ratazana para salvar essa humanidade tão desumana e cruel que aí está.

Que Deus é esse, se tão forte e poderoso foi capaz de cinzelar com o fogo das suas palavras as duras tábuas de granito onde inscreveu o decálogo dos mandamentos que a humanidade deveria seguir com fé e fidelidade absolutas, mas que permitiu que a igreja e seus acólitos seguidores condenassem, torturassem e matassem na fogueira purificadora da Santa Inquisição, aqueles supostos transgressores de um só mandamento, tidos por feiticeiros e curandeiros, possuidores de algum bem de valor, só porque tentaram aliviar a dor de alguém com algum chá ou cicatrizar uma ferida com uma pasta de ervas, tipo o SUS de hoje com os indigentes que buscam socorro. Tenha dó Deus, eles queriam os espólios dos mártires, mesmo que de pouca valia. De grão em grão a galinha enche o papo! E encheram mesmo, enriqueceram.

Que humanidade é essa que o nosso bom deus permitiu prosperar e multiplicar-se aos bilhões entre guerras fratricidas pelo poder e ganância pela riqueza, onde o ser humano em sua insignificância, perece aos pendores do ter sob o jugo dos poderosos? Onde o matar é apenas um verbo transitivo direto conjugado nas cinco pessoas em todos os seus tempos verbais até por crianças, adolescentes, homens e mulheres com extrema naturalidade predicativa? Fala sério vai. A maldade é algo inato e congênito do ser humano, mas a fé num ser supremo e a teologia que prega a suposta salvação na vida eterna, um aceno com um bilhete de viagem para um mundo de paz, harmonia e “humanidade” passa a ser o sonho dominante na improbabilidade da esperança daqueles que padecem aqui pelos “pecados” ou subversão do Decálogo divino ao qual jamais transgrediu uma única vez. Seria o pecado venial, aquele da conjunção carnal consensual que deu vida àquela criancinha recém-nascida, já pecadora, por isso indigente e cidadã nas classes miseráveis?

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Lula, preso, trabalha na cadeia

Por Julio Gomes.

No dia 07/04/2018 – há quase um ano atrás – ocorreu a prisão do ex-Presidente Lula, por ordem do então Juiz Sergio Moro. Logo em seguida, como efeito desta mesma Sentença, Lula foi impedido de conceder entrevistas e de concorrer à Presidência da República, além de sofrer graves restrições ao recebimento das visitas a que teria direito. Lula permanece preso, cumprindo sentença em regime fechado, na distante e fria Curitiba, longe de sua família que mora em São Paulo, mesmo tendo 73 anos de idade.

Seu Algoz, por sua vez, largou a magistratura e como “prêmio” se tornou Ministro da Justiça do governo que, sem dívida alguma, contribuiu de forma fundamental para eleger, tomando posse em 01/01/2019 no seu novo cargo, junto com o novo Presidente, tendo sido o primeiro ministro a ser empossado pelo novo Governo.

Lula se encontra hoje preso em Curitiba, onde a Juíza então responsável pela execução penal continuou a impor restrições inaceitáveis e ilegais ao ex-Presidente, tais como, recentemente, a negativa de sair da prisão para acompanhar o enterro de seu irmão Genival Inácio da Silva, falecido em 29/01/2019, contrariando expressamente o que dispõe a Lei de Execução Penal em seu artigo 120, que estabelece que os condenados que cumprem pena em regime fechado poderão obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer o falecimento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão. Milhares de presos em todo o Brasil tiveram o deferimento deste direito, que a Lula foi simplesmente negado.

Entretanto, há um aspecto que precisa urgentemente ser ressaltado: Lula, na prisão, trabalha! E seu trabalho consiste, exatamente, em manter-se preso com dignidade, recebendo as visitas que são permitidas, e sustentando, com sua presença viva, ainda que no cárcere, os ideais pelos quais lutou durante toda a sua vida.

Talvez o governo Brasileiro aceitasse um pedido de extradição de Lula para outro país, coisa que ele jamais encaminhou. Talvez concordasse – dada a natureza política de sua condenação, que se fundamentada unicamente em denúncias de delatores ameaçados de prisão – que em um “acordo” o ex-Presidente ficasse fora da cadeia, caso se retirasse da vida pública. Mas Lula é inteligente e tem vivência suficiente para entender que deverá sair da cadeia, unicamente, pela mesma porta da frente em que entrou, e que enquanto isto não ocorre sua melhor forma de atuação política e social é permanecer encarcerado.

Lula, preso, simboliza a prisão injusta e a exclusão dos mais pobres deste país. Simboliza que é possível erradicar a fome e a miséria, mas que quem está no poder não permite isto. Significa que é possível que pobres frequentem a universidade e se formem, que sejam consumidores de fato, que viagem de avião, que comam três vezes ao dia, que tenham salário e aposentadoria dignos. Em uma palavra: que o Estado, por meio de um governo que abrace tais objetivos, possa torná-los cidadãos de fato, e que se isso não ocorre é porque há interesses que se opõem radicalmente a isto.

Lula, preso, é motivo de mobilização social e mantém seus ideais vivos, como o fez Nelson Mandela na África do Sul há poucas décadas atrás. E Lula, tal como Mandela, não pode ser solto, porque senão o povo o tornará Presidente de novo. Quem o prendeu sabe disso, e por isso, unicamente, o mantém preso, pouco importando quais sejam as acusações, a defesa, as testemunhas e as provas. O que importa, para quem não tolera a ideia de que pobre viva dignamente, é manter Lula preso até o fim. Nada mais importa.

Lula sabe de tudo isso. Experiente, maduro, sabe que seus ideais valem mais do que sua própria vida e, preso, exerce o simbolismo necessário para que toda a luta pelos excluídos permaneça viva.

E o trabalho de Lula dará frutos porque, para desespero de quem o odeia, Lula receberá, muito provavelmente ainda na cadeia, o Prêmio Nobel da Paz, sendo o único brasileiro a conquistar tal feito, porque ousou, até o fim, lutar por quem mais precisava: pelos pobres e excluídos do Brasil.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Molambo na parada!

Por Julio Gomes.

Chamaram a atenção de todo o Brasil as fotos publicadas, em 15/02/2019, pela Assessoria de Imprensa do atual Governo Federal em que o Presidente Jair Bolsonaro aparece com diversos membros do Primeiro Escalão, inclusive ministros de Estado, em um encontro oficial e, depois, na mesa de reuniões, trajando chinelos, uma camisa do Palmeiras, uma calça e um paletó do tipo “o mais amassados e mal arrumados possíveis” e, pendendo sobre a calça, algo meio indefinível, mas que pode ser um grande chaveiro vermelho, compondo uma imagem que contrastava fortemente com o traje formal dos demais membros do Governo ali presentes e com o ambiente do Palácio da Alvorada.

Sabemos que Bolsonaro esteve internado e recebeu alta médica poucos dias antes da foto, assim como que o palácio da Alvorada, mesmo sendo também um local de trabalho, é a residência oficial do Presidente, o que sem dúvida dá um desconto a favor de Bolsonaro.

Mas ficam algumas perguntas: Por que publicar uma foto, divulgada pela própria Presidência da República, em condições tão desfavoráveis à imagem do Presidente e, portanto, do Brasil? Qual a intenção por trás disso, se a foto veio da própria Assessoria presidencial?

Quando se serve ao Exército Brasileiro, o que fiz em 1984 / 1985, mesmo na simples condição de soldado, se aprende que todos os militares devem se colocar em forma, na parada diária que inicia o expediente, com apresentação impecável, para que o Oficial de Dia faça a inspeção da tropa, corrigindo coturno, barba, cabelo, unhas, asseio, roupas, armamento e tudo o mais que se faça necessário.

Caso o militar não possa calçar um pé do coturno, que se apresente com um chinelo em um pé e um coturno em outro. Se não puder vestir a farda do dia, que entre em forma com o uniforme de educação física. Por fim, caso não esteja mesmo em condições de apresentar-se, deverá simplesmente ser dispensado de entrar em forma e de participar da parada. E isto, na unidade em que servi, era observado tanto pelo Coronel Comandante do Batalhão quanto pelo mais humilde soldado.

Lembro-me da revista, por parte dos oficiais, determinando aos praças, em alto e bom som, para saírem imediatamente da formação aos gritos de “Fora de forma!”, quando se deparavam com militares com cabelo grande, coturno mal engraxado, unhas ou barba mal aparadas ou cinto fora do padrão; e determinando três dias de detenção (sexta, sábado e domingo), internos no Batalhão, para que aprendessem a lição. Também lembro do zelo da imensa maioria dos praças graduados e dos oficiais em ser exemplo de conduta para a tropa.

Lembro, por fim, da reprovação pública dos oficiais a gritarem no meio do pátio do quartel: “Molambo na parada!”, para os mal apresentados, que se retiravam cabisbaixos, cheios de vergonha ante a pequena, mas vexatória transgressão disciplinar praticada.

Quando vi a foto e Bolsonaro com sua equipe, foi disso que lembrei. Será que da vida militar não lhe ficou nem mesmo este senso de disciplina e de zelo com a apresentação própria e, portanto, da instituição que representa? Será que até nisso, que seria sem dúvida uma qualidade, o atual Presidente tem dificuldade para manter a compostura e a conduta adequadas? Será que mesmo nisso tem de ser um desastre? Um vexame diante do mundo?

As fotos em questão me ajudaram a entender porque o General e ex Presidente Ernesto Geisel, em entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D´Araujo e Celso Castro em 1993, posteriormente publicada em livro editado pela FGV – Fundação Getúlio Vargas, avaliou o então deputado Bolsonaro, ipisis literis, como “mau militar”.

Molambo na parada, molambo na Presidência. Na forma e, o que é pior, no conteúdo. A foto e a profética avaliação de Geisel são fatos que falam mais alto do que mil textos.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

Indicação de leitura

Por Natália Lima.   

Fevereiro, sexta-feira e me pego fechando a minha tarde fervorosa de verão concluindo a leitura de Os Segredos do Pai-Nosso, de Augusto Cury. Sinto a necessidade de compartilhar com o máximo de pessoas a minha experiência diante de tamanha brandura que é este livro. Com milhões de exemplares vendidos somente no Brasil e que, ao final, para a minha felicidade, descobri que possui continuação. Peço que antes de julgar pelo título e achar que se trata de um assunto de cunho moral e religioso, você se questione como o Autor da existência criou tudo o que conhecemos. Se você é daqueles que acreditam na hipótese “Deus não existe”, apenas pense: como tudo pode ter surgido de um nada existencial? É impossível. Por mais que você não acredite na figura de Deus, biblicamente falando, é impossível algo despertar do seu mais profundo vácuo existencial e criar toda a realidade que nos cerca. Nenhuma ideia ateísta ou evolucionista e muito menos alguma teoria da formação do Universo podem banir a ideia de uma força superior a tudo que conhecemos. Por isto, caro leitor, peço que aproveite esse breve artigo para expandir a mente e libertar-se do cárcere que são as crenças limitantes. Cury me ensinou muitas coisas ao decorrer dessa leitura e, dentre elas, aguçar a curiosidade para toda história que me for contada.

O livro é uma profunda reflexão da oração do Pai-Nosso. Singela e complexa, calma e incendiária, inofensiva e desafiadora. Estas são as palavras usadas por Augusto Cury para se referir a essa belíssima oração dita por Jesus para emancipar as mentes e os corações humanos. Pós-graduado em Psicologia Social, o autor mostra todos os aspectos da oração mais conhecida no mundo do ponto de vista da psicologia, da filosofia e da sociologia passando por áreas como a espiritualidade, saúde psíquica, educação e desenvolvimento da inteligência. Analisa verso por verso e revela códigos usados por Jesus para falar do Pai-Nosso. Segundo Cury, Jesus quis dizer minuciosamente com tudo isso que se o ser humano não agir, Deus não age. Ou age pouco. A liberdade de Deus encontra limites na liberdade humana. E, ah, antes que eu me esqueça, o Autor da existência é igual a todos nós. Pensa, chora, sente, clama por amor e atenção. Ficou curioso? Realmente, vale muito a pena se entregar à cada página desse livro.

Discutindo o ateísmo e debruçando sobre as várias correntes de pensamento de Nietzsche, Diderot, Voltaire e Freud, fica difícil não querer ler tudo e descobrir o final dessa análise profunda da alma de Deus para nos ajudar a buscar explicações para a nossa existência. Acredito que todo mundo já cogitou ou questionou, em diferentes níveis, algo que transcende nossas limitações. E eu faço jus às palavras de Augusto Cury em Os Segredos do Pai-Nosso para finalizar a minha indicação de leitura, reafirmando suas palavras quando diz que “a oração é a mais democrática forma de comunicação humana”.

Natália Coutinho Rocha Lima é estudante de jornalismo da Unime.

Feios, sujos e malvados.

Por Mohammad Jamal.

Um olhar sobre a truculenta violência exibida por supostos concessionários do poder entronizados na Corte do governo em data da coroação do Rei. Te encho de porrada; te quebro no pau (vergão); te mando ao pelourinho, seu isso, seu aquilo… (Que acho assaz prudente omitir as nomenclaturas). Você não sabe com quem está falando! Coitado, esqueceu a própria personalidade e aquela enorme placa onde se inscreve “SOU PODEROSO”!

As perdas momentâneas do autocontrole, do equilíbrio emocional, da razão ou, o tal do “ir pra cima”, tinham em recente passado, raras e pontuais ocorrências episódicas. Com o evoluir do tempo, passou à condição de usual e corriqueira, sobretudo, quando nos referimos às emolduradas classes sociais mais altas e, àquelas ligadas ao poder político direta ou indiretamente, cujas personagens são mais susceptíveis e vulneráveis a esses convulsivos chiliques midiáticos; claro, sem se dar conta da própria vulnerabilidade na fugaz labilidade do ambiente político, seus gradientes hierárquicos, seus humores. – na Rússia Czarista, a esposa ou mãe do general era investida ao posto de “Generala”! Encontre em O Idiota,( Dostoiévski) a Nastássia Filíppovna, nas obras de Sergueievitch Pushkin, Nicolai Gogol, etc – Não raro, essas refregas de furor na sua quase totalidade, não passem de simbólicos cânticos de guerra territorialista, como o dos pássaros que delimitam suas áreas de alimentação ou dos sapos-boi que bufam contra invasores que se insinuam para suas sapas no seu charco. Nada que se conclua em olho roxo; dentes amolecidos, galos e pintos à cabeça (pintos galinhos) ou coisa que exija uma visitinha ao médico particular ou o disfarçar-se atrás de um óculo escuro de alguma grife famosa tipo Oakley; Fendi ou Prada, dentre outras preciosidades mais caras do mundo Top. Chilique é coisa de gente chique; grã-fina e importante. Não é pra nós não. Aqui em baixo, no proletariado, agente sai é no pau, na porrada mesmo; depois vai pra fila do SUS, sem frescuras ou pudores tomar uns pontos; curar as lesões corporais, sem B. Os. Raras diferenças ficam pra depois.

Povo quando azeda, é porque sofre de Síndrome congênita da Brutalidade Social Periférica. Famosos quando se exaltam é Síndrome traumática pós-estresse ou, o tédio existencial, longe de Aspen, Veneza, Paris… Quando os sintomas são mais brandos dizemos que a pessoa tem episódios de descontrole emocional, mas quando são tão intensos a ponto de causar graves prejuízos pessoais pode caracterizar um transtorno bipolar, comuns em Secretários e outros serviçais. Tem também a distimia, que refere ao “mau humor” continuo, considerado como um tipo de depressão. Quando não faz parte da personalidade desta pessoa, tendo sido iniciado, quando em políticos, a partir de algum momento específico e nunca mais retrocedeu depois de mandatos consecutivos ou intercalados. São as pessoas que tem a irritabilidade como uma característica marcante e constante, quando no poder. São ameaçadores, desconfiados, combativos e destrutivos. Talvez por decorrência da má interpretação das intercorrências da própria existencialidade… A vida é tão fugaz. No derradeiro momento da morte, todos exalam o mesmo fedor, sendo que alguns até necessitam socorro, porque no final cagam e urinam a cama, a despeito do dinheiro, da classe social; o do poder… Sem privilégios com o Ceifador.

As pessoas emocionavelmente inflamáveis e explosíveis são aquelas que têm a irritabilidade como uma característica marcante e permanente. São ameaçadores, desconfiados, arrogantes, combativos, irascíveis e destrutivos. Se você tem a agressividade exagerada e, por qualquer motivo perde a razão, grita, xinga as pessoas; faz gestos obscenos; pode se tornar indesejada no ambiente social e profissional. Afinal, ninguém gosta de conviver com alguém que, intolerantemente, possa explodir a qualquer momento. A raiva convertida em agressividade intensa é também um comburente perigoso, pois, o colérico raivoso não pode prever de que maneira a pessoa que é alvo de sua cólera vai reagir. Não raro, vemos em noticiários que brigas banais no trânsito, por exemplo, terminem em morte. Portanto é bom tomar cuidado com ataques súbitos de furor verbalizado tanto quanto àquele em que o furioso empunha em riste o dedo anular com definida conotação performática de invasor reto proctológica! O dedo fálico do urologista atemoriza até os mais despudorados valentes.

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Brumadinho, uma Guernica mineral

Mariana e Brumadinho não estão sós. Nem são apenas quatro, como os cavaleiros do Apocalipse. São quatrocentas. Ou mais. Uma delas, dependurada sobre a joia artística que é Congonhas, em Minas Gerais, ameaça com 100 milhões de metros cúbicos de rejeitos, de lama fatal, um extraordinário patrimônio artístico-cultural e a vida inestimável de milhares de pessoas. Ali, a Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos coroa o mais espetacular complexo arquitetônico e estatuário do Brasil. Não é exagero. O conjunto paisagístico e artístico representado pelo santuário não tem paralelo no país.

Sérgio Abranches.

Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press.

Por Sérgio Abranches, publicado no site EM.com.br .

Brumadinho é um espanto. Uma Guernica mineral. Um desalento. Porque não é um só. Antes veio Mariana. Matou um rio, 19 humanos, fraturou a cultura ribeirinha do povo krenak das margens do Rio Doce, destruiu o modo de vida dos pescadores. Soterrou patrimônio natural, cultural, modos de vida e de sobrevivência. Antes ainda que as feridas profundas de Mariana se fechassem e sem reparação à altura das perdas e danos, veio o desastre da Mina Córrego do Feijão. Que vergonha e que indignação!

Mariana e Brumadinho não estão sós. Nem são apenas quatro, como os cavaleiros do Apocalipse. São quatrocentas. Ou mais. Uma delas, dependurada sobre a joia artística que é Congonhas, em Minas Gerais, ameaça com 100 milhões de metros cúbicos de rejeitos, de lama fatal, um extraordinário patrimônio artístico-cultural e a vida inestimável de milhares de pessoas. Ali, a Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos coroa o mais espetacular complexo arquitetônico e estatuário do Brasil. Não é exagero. O conjunto paisagístico e artístico representado pelo santuário não tem paralelo no país.

Abaixo da basílica, sob o olhar dos 12 profetas esculpidos pelo gênio Aleijadinho, coreograficamente distribuídos pelo adro, derrama-se a via-sacra, também do artista, em capelas nas quais as cenas talhadas em madeira em tamanho natural encantam e enternecem. Além da beleza das esculturas, os profetas do adro da igreja e as cenas da Paixão de Cristo nas capelas revelam uma cenografia deliberada e expressiva. É o principal legado escultórico de Aleijadinho, tombado e abandonado. A filha de um maestro amigo meu, ao vê-las aos 8 anos de idade, exclamou: “Estão vivas, papai!”. E estão, mas por quanto tempo?

Esse santuário artístico, que contou com os gênios de Aleijadinho e outros grandes artistas do Brasil colonial, como o insuperável Mestre Ataíde, Francisco de Lima Cerqueira e João Nepomuceno Correia e Castro, está emoldurado por um cenário natural espetacular e cercado por sobrados que não se fazem mais. Sobre esse precioso bem coletivo está uma barragem como essas que se romperam, porém ainda maior. A Casa de Pedra contém 100 milhões de metros cúbicos de rejeitos, de lama tóxica, prontos para soterrar o legado de Aleijadinho, eliminando-o do mundo e da memória. Em Mariana, foram 50 milhões; em Brumadinho, 12 milhões.

Brumadinho pode ter matado mais de duas centenas de seres humanos. Liquidou negócios e criações. Está matando o Rio Paraopeba. O Paraopeba é um rio sertanejo como eu e, enlameado, caminha para minhas paragens curvelanas. Pode enlamear parte do grande sertão e das veredas de Guimarães Rosa, tirando-lhes até o sentido metafísico. O Doce, rio serrano, tem uma de suas nascentes ao lado, Barbacena, cidade de meu pai, de meu irmão e de minha infância. Conheço as vítimas, cresci com elas. E como dói.

Em São Joaquim das Bicas, os pataxós da aldeia Hã-hã-hãe foram evacuados. Estão ameaçados por Brumadinho do mesmo destino dos krenak do Rio Doce. Hoje, nas margens do rio morto, os velhos krenak contam para os jovens sobre os animais e a vida ribeirinha perdidos na lama, para que mantenham suas referências, agora meras abstrações. O canal Futura tem uma série de documentários pungentes sobre o drama dos krenak do Doce morto.

Essas tragédias não foram incidentais. Elas tiveram causas e autores humanos. O autor principal chama-se Vale. Uma empresa que se apresenta como verde, mas esse verde é camuflagem de predador. Como disse Drummond, o vale é doce, a Vale, amarga. O autor coadjuvante chama-se Estado. Ambos, empresa e Estado, têm uma característica genética comum: suas ações dependem das escolhas de seus gestores, a diretoria, num caso, o governo, no outro. Escreveram essa tragédia a várias mãos, a empresa, suas subsidiárias, as consultoras, os governos estadual e federal, com más decisões, colocando a taxa de lucro acima do valor das vidas humanas e do patrimônio cultural, ambiental e paisagístico.

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Cartas do inconsciente

Por Mohammad Jamal.

Carta apócrifa. Agora, após ler a sua carta, e de  não queima-la, como me recomendaste, e de devolve-la íntegra a fim de demonstrar que não foi utilizada para nenhum outro fim, senão a confrontação do seu conteúdo e caráter; acredito que este seja o momento azo para radiografar-me como réu ante o meu autojulgamento e, de expor o meu diagnóstico e libelo sentencial.

Banco de dados. Sou um incorrigível colecionador de memórias e as utilizo para sobreviver ao passado e adaptar-me ao negro presente que vivencio. Nada escapa à sensibilidade perceptiva da minha memória, que a tudo registra, que a tudo recupera e tudo conta, anota e guarda. Agora mesmo, após acabar de ler esta carta apócrifa eu contei a minha idade. Contei meus anos e descobri que com os meus setenta e dois, terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Alhamd lilah, Graças a Deus.

Aos 72 anos, sinto-me como aquela menina que ganhou uma cesta de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicentemente, mas percebendo que faltam poucas para o fim, rói agora até os caroços. Eu certamente teria reservado as mais maduras, doces e suculentas para o final e as degustaria lentamente. Eu compreendo que a cor tem muito mais importância quando nos retiram a luz.

Agora tenho pressa. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Nem aquelas passando à limpo familiares. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, seus bens, seus talentos. Eu não tenho nada. Eu não quero nada de ninguém a não ser a mais sincera espontaneidade. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, utópicos. Não participarei de conversas em que se estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de fim-de-semana com a proposta de se atingir a essência da mais profunda espiritualidade. A minha alma já está ao alcance da minha mão! Já não tenho tempo para reuniões intermináveis, meramente circunstanciais para discutir estatutos, normas, procedimentos, regimentos internos e vida alheia. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica pesar sobre os ombros, são imaturas, vaidosas, pedantes e inseguras porem, perfeitas ante seu próprio julgamento.

Sem lenço e documento. Não uso mais o relógio. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo” onde tentamos sem sucesso auto explicar-nos, nos fazer entender ante o tamanho desinteresse claramente demonstrado pelo nosso interlocutor mouco.

Dezena do porco. Aos setenta e dois, aprendi que a solidão e aridez do deserto são muito mais reconfortantes que o aconchego dos oásis onde se aglomeram egoísta insensíveis que brandem suas espadas afiadas; que cospem e atiram excrementos a esmo. Jurei para mim mesmo, que não serei mais uma vítima do ódio amigo nem do revide da maldade semiperdida que resulta de batalhas travadas em egos estranhos, totalmente desconhecidos. O estigma da autoafirmação, da individualidade e do ufanismo, da auto realização que a tudo esmaga e destrói conscientemente, por conta do brilho que se supõe irradiar. Divindades materialistas.

Kaol no latão. Aos setenta e dois, aplico o brilha-cobre na minha frágil armadura emocional. Preservo-me. Parece-me coerente a busca pelo amparo da alma contra novas cicatrizes que nos impõem o superficialismo e a incompreensão humana. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pela predominância majestosa e posição que supõem ocupar no espaço restrito da vida ou da administração da empresa familiar, cargo que supõem vitalício, embora saibam-no efêmero. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…o fim está próximo. O que é a vida senão uma luta incessante pelo adiamento da morte? A vida é o tempo, inútil ou não, estamos a cada dia mais próximos da beira daquele precipício ao fundo do qual nos espera uma desconhecida, ansiosa, de braços abertos, a amante fiel, a morte na dimensão quântica do imensurável. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver o tempo que me resta ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir de seus tropeços, que não se encante e nem ufane com triunfos ocasionais, que não se considere eleita antes da hora, não fuja dela e tampouco negue sua mortalidade, que defenda a dignidade dos marginalizados, que tenha a humildade de dizer, errei, a grandeza de dizer, desculpe-me, a coragem de demonstrar amor em palavras e ações sublimes e que deseje tão somente andar ao lado de Deus. Verdadeiramente!

Fantasma, não. Quero agora, aos setenta e dois anos, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, não de miragens, fogos fátuos. Desfrutar de um amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena e disso, não me foge a certeza.  Uma certeza que povoa minha realidade de sonhos e me orienta para o final da trilha que já começo a vislumbrar na curva do horizonte. Não me atrevo a aconselhar ninguém, quem sou eu para isso? Não tenho estatura para alcançar a verdade absoluta do existir. Entretanto, me ocorre lembrar que reler aquilo que costumamos escrever para alguém ou para si próprio, é um exercício salutar de auto avaliação. As palavras como o mar, mudam de cor segundo a configuração do firmamento que refletem. O pensar é tão abstrato quanto a dor. É por isso que o pensar às vezes dói, dói num lugar onde não sabemos situar a dor. Possivelmente na alma que desconhecemos.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

As alterações no trânsito do Malhado

Por Julio Gomes.

Nestes últimos meses Ilhéus passou a conviver com grandes alterações no tráfego de veículos, e até de pedestres, nas avenidas ACM (Antônio Carlos Magalhães) e na antiga Av. Litorânea Norte, atual Av. Luís Eduardo Magalhães, e em vias circunvizinhas a estas.

As alterações incluíram a tão desejada e polêmica colocação de ciclofaixas (isso mesmo, ciclofaixas), pois embora o povo as chame de ciclovias, estas últimas existem quando há uma via somente para ciclistas, com separação física para não haver acesso de nenhum outro veículo. Quando se pinta uma faixa exclusiva para ciclistas no leito da rua principal, a denominação correta é ciclofaixa.

Também foram implantados novos abrigos em alguns pontos de ônibus, mudaram radicalmente os locais para estacionamento de veículos na Av. ACM e na Av. Luís Eduardo Magalhães e o tráfego passou a ser em mão única, tanto para ir do Centro para a Zona Norte (Pela Av. Luís Eduardo), como para retornar de lá para o Centro da cidade (pela Av. ACM), além de outras alterações acessórias a estas.

As alterações são significativas, ousadas, e apontam para o futuro, com relação sobretudo à inteligente transformação das principais avenidas do Malhado em mão única, e à implantação das ciclofaixas.

Porém, neste momento de mudanças no tráfego e na forma de estacionar, faz-se urgente uma ampla campanha de informação e reeducação de condutores de veículos e de pedestres para o novo uso destas vias, pois eu mesmo confesso que, por duas vezes, simplesmente entrei na contramão e fui alertado por aviso de terceiros, o que poderia ter causado um grave acidente.

A presença dos agentes de trânsito no local é imprescindível, mas não é o suficiente: é necessária a realização de uma ampla campanha midiática pelo rádio, mediante entrega de panfletos educativos e, tendo em vista que em Ilhéus também circulam pessoas vindas de outros municípios, pela televisão, para que compreendamos, por exemplo que os carros na Av. ACM agora estacionam na rua, ao lado da ciclofaixa; que algumas conversões que fazíamos agora são proibidas; quais vias se tornaram mão e contramão, entre outros aspectos.

Estas informações devem ser massificadas junto à população, para aprendermos a utilizar corretamente as vias repaginadas, com novas possibilidades de uso urbano e nova normatização a ser observada.

Por fim, mesmo sendo apenas um cidadão sem conhecimento técnico, arrisco dizer que as mudanças, embora talvez ainda sujeitas a alguns ajustes, de modo geral são positivas, ajudam, inovam, abrem novas possibilidades de uso para ciclistas, pedestres e mais fluidez para quem trafega em veículo automotor.

Mas, por favor: nos orientem para que, por falta de informação, não venhamos a provocar graves acidentes.

Julio Cezar de Oliveira Gomes é graduado em História e em Direito pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

O Big Brother de Brasília

Por Mohammad Jamal.

Sobre discretas mudanças na política e a ambivalência comportamental de alguns daqueles que a praticam como ofício maior; valho-me relembrar um diálogo com expressão muito característica porem, condizente, lida numa das obras do grande filósofo do existencial, o escritor Nelson Rodrigues: “a Tereza, aquela que era prostituta. Lembra-se? Pois é, finalmente deixou a profissão. Agora é Garota de Programas!”. 

Cuidado! Tem um nabo enorme! Ah… Aqueles olhos azuis encravados naquele resto angelical coberto em pele de nenê, rosa avermelhada. Aqueles dentes alvos emoldurando sorrisos parcimoniosos. Uma voz profunda que oscilava métrica e tons entre o bravíssimo maestoso da veemência e o Allegro ma non troppo da coerência harmônica para a conformidade entre seus pares. O cabelo branco imaculados lembrava aquelas neves, perene dos picos do Himalaia, inspirava-nos respeito e admiração! O seu porte físico imponente e elegante lembrava-nos o Encouraçado Potemkin navegando os mares bravios do Atlântico Norte nos corredores do congresso nacional. Sorria, o resgate e a salvação estão a caminho! Mas para a tristeza de todos, pior ainda, dos seus pares, quem poderia imaginar? Esse homem carregava um enorme nabo fálico-ofensivo sob seu elegante vestuário Black tié.  Ele era O Homem do Nabo Oculto, e ninguém sabia!  

Convescote de comensais. Amigos parceiros, inimigos parceiros no crime, inimigos utilitários, ferramentas. Esta é a sequência da lógica instrumental que integra o senso aglutinador que harmoniza parcerias ambivalentes entre indivíduos falso divergentes, mas, no entanto, convergentes nas metas, na maioria das vezes grosseiras derivações da ética, tripudiada descaradamente. A moral é achacada e corrompida para favorecer a obtenção de bens financeiros e materiais por meios capitulados como criminosos. O embornal do suborno não tem fundo.

O previdente têm pregas seguradas contra sinistro! Nada pior que um “amigo” boquirroto, exageradamente confiante, daqueles sem modos ao meter a mão no alheio. Um novo-rico-espalhafatoso e, pra completar, medroso à cana. Como Narciso, ele treme ao ver à própria imagem refletida nas telas da tensão superficial dos líquidos em poças de esgotos; comentada nas reuniões do condomínio; na Feira de Carangola. Tem medo de algemas, treme e se borra todo só de ouvir falar Ministério Público; ainda bem não se falou em pau-de-arara e ele já vai rasgando o verbo, contando tudo, melando todo mundo, “ate quem nada tem a ver com as suas ruidosas defecadas”. O Tomás de Torquemada ainda que se encontre a léguas de distância da fortaleza carcerária em que está claustrofóbico, detido a pão e água. Más o frouxo e medroso-infrator a essa altura já redigiu voluntariamente seu libelo confessional sem esquecer mínimos detalhes; contou ate sobre aquelas moedas que surrupiou da Caixinha da Abadia, exagerando em minudências desimportantes!

_ Ah! Assim não dá pra segurar nem a sombra de um tênue corporativismo autopreservativo entre lideranças!

Para salvarem os próprios pescoços e seus nome dos respingados perdigotos cuspidos a esmo pelo língua-solta; para livrar-se de algum fortuito envolvimento – involuntário, ou só por questões humanitárias – por coparticipação, conivência, omissão; unem-se as irmanadas pelo pecado venial, pré-perdoados; figuras que já passaram perto da fornalha acesa, mas morna da justiça, de que escaparam por pouquíssimo, talvez por um mínimo viés jurídico, um parcimonioso Agravo Restringente, através a salvadora e libertária Delação Premiada! Peidam e cagam no ventilador ate aquilo que nunca comeram. O mote é levar juntos consigo toda a patota mão-esperta para a prisão domiciliar nas suas mansões à beira do Lago Paranoá, na Vieira Souto, Ipanema, Jardins, melhor tê-los fora do tatame político.

Sabia que, para produzir uma escultura de Cristo no século 16, Michelangelo teria matado a facadas um rapaz que lhe servia de modelo? O crime teria sido cometido para que o artista pudesse dissecar o cadáver e estudar os músculos. Os biógrafos do artista dizem que ele tinha gênio difícil e era egocêntrico – características, no entanto, que não são suficientes para motivar um crime. Mas há quem acredite nisso. No fragor da guerra do salve-se quem puder, malham sem dó ou piedade, o atabalhoado réu trapalhão. Salvam-se só os desesperados ante a sombra velada do cadafalso, escudando-se à custa de uma enxurrada de imprecações infamantes contra réu, fermentadas pelo fervilhante desespero de ter reveladas a público, singelas aberrantes de inculpabilidades por dolo financeiro e por impudicícias carnais praticadas em hotéis reconhecidamente familiares, com participação de moças e rapazes sem pudores; derrapadas que devem permanecer implícitas, tacitamente subentendidas, longe da sua quase imaculada biografia dos senhores vestais. Daí os voluntários e midiáticos enxurreiros; um enorme chorume de denuncias veementes e inefáveis, “para ajudar à Justiça” e, punir exemplarmente ao pré-réu, boquirroto mártir que está no prelo, rabo recheado de dinheiro, sendo temperado para o micro-ondas.

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Pequenos problemas, grandes desprezos

E não é feito por questiunculas – coisinhas menores –, nas quais as propostas firmadas entre prefeito, vice-prefeito e as forças coligadas durante a campanha eleitoral se esfacelam nos primeiros meses de governo. Não falo de suposições, mas de fatos, portanto, reais, com o afastamento do vice-prefeito José Nazal do centro do poder, desprezando todo o conhecimento que tem sobre o município.

 

Por Walmir Rosário.

Na manhã deste domingo (27-01-19) recebi, via WhatsApp, do radialista Paulo Flores Vidal, uma gravação em vídeo mostrando as dificuldades de atracamento no porto turístico (píer) de Paraty, o que considerei um verdadeiro absurdo. As vigas que travam as tábuas do assoalho soltas, buracos no piso e até o vendedor de sucos e salgados se acidentou, perdendo alguns dos seus produtos.

Uma lástima, se considerarmos que Paraty é uma das cidades turísticas de grande fluxo de pessoas, grande parte procedente de São Paulo, principalmente neste fim de semana prolongado pelo Dia da Cidade, sexta-feira 25). É justamente daquele píer que saem as embarcações com turistas para conhecer as ilhas e praias das baias de Paraty e Angra dos Reis, gerando emprego e renda na cidade.

Desde a década de 1970 a cidade de Paraty foi escolhida pelo governo do Estado do Rio de Janeiro para se transformar numa centro eminentemente turístico, sem qualquer tipo de planejamento. Bastava para tanto sediar o maior bloco arquitetônico colonial que, por si só, já venderia pacotes turísticos, em detrimento da população, que ainda residia no centro da cidade.

Grossas e pesadas correntes foram implantadas nas ruas do centro, impedindo o acesso aos veículos, sem dar tempo da implantação de qualquer infraestrutura que resguardasse os habitantes e turistas hospedados no centro histórico. A única voz a se levantar foi a do então presidente da Associação Comercial de Paraty, Benedito José da Cruz (Simão), que condenou, em entrevista no Jornal Nacional, a mudança de cima pra baixo que mudaria a cultura da cidade e prejudicaria seus moradores.

Dito e feito! Os prédios coloniais foram vendidos para os paulistanos e cariocas, e os nativos empurrados para os bairros mais afastados, a exemplo da Mangueira, Ilha das Cobras, Chácara, dentre outros. Hoje, os nativos que vivem da pesca e do turismo são obrigados a fazer das tripas coração para viver e criar os filhos com dignidade, pois não são alvo das prioridades dos constantes governos municipais.

Deveras, o poder enebria, embriaga e os governantes têm olhos abertos para os mais bem-dotados, financeiramente falando, já que são colaboradores em potencial das campanhas eleitorais. Enquanto isso, a população nativa fica à mercê da sorte, aguardando que pequenas migalhas possam ser destinadas ao melhoramento das ruas onde moram e dos equipamentos essenciais ao seu trabalho.

Diferente tratamento recebem os proprietários de imóveis de grande porte, verdadeiras mansões ocupadas nos finais de semana pelo que utilizam Paraty apenas para seu merecido descanso e curtição. Nesses locais todo o cuidado do município é pouco, haja vista a cobrança dos poderosos, ou dos amigos do poder econômico ou político, o que facilita a troca de favores.

Infelizmente, no Brasil, os locais que têm o turismo como principal matriz econômica costumam padecer desses males e todas as ações – ou grande parte delas – são voltadas ao chamado grande turismo, aquele que contempla os mais bem aquinhoados. Assim como Paraty, no Rio de Janeiro, em Ilhéus, no litoral baiano, não é muito diferente e as ações municipais não privilegiam a grande parcela da população.

É certo que Ilhéus, diferentemente de Paraty, não tem o turismo como atividade principal, mas por culpa exclusiva de uma falta de política que empreenda ações nesse sentido, para aproveitar todo o marketing feito pelo itabunense Jorge Amado em seus romances. O mundo inteiro “viaja” nos locais e personagens amadianos, tornando Ilhéus um dos maiores bens de consumo para os seus futuros passeios.

Bastaria uma pequena ajuda dos poderes públicos para tornar Ilhéus uma cidade agradável, facilitando o conhecimento de sua história, rica na arquitetura, na cacauicultura implantada na Mata Atlântica e nos costumes do seu povo. Mas esse encantamento tem limites pelo ar e pelo mar, até que o turista desembarque e passe a conhecer e conviver na antes sonhada cidade.

Ninguém sonha que na antes cidade dos “coronéis do cacau” a realidade atual seja diferente e tenha que ultrapassar as montanhas de sacos (abertos e fechados) de lixo, que incomodam as vistas e o nariz. Também não concebem que por essas plagas a exploração do turismo seja entendida, ao pé da letra, como a exploração ao turista, com todas as artimanhas, do transporte público aos restaurantes.

Mas, afinal, qual a motivação dos políticos instalados no poder para deixar que isso aconteça? Seria falta de pessoas competentes para gerir o município? Claro que não, pois as empresas privadas vão muito bem obrigado. De início, acreditam piamente que o orçamento municipal é uma simples peça de ficção, com erros propositais na elaboração e na execução.

Não conhecem o município como um todo e não fazem questão para reparar esse falha, apostando no desconhecimento da população sobre os seus direitos e o poder político que poderiam exercer na execução das políticas públicas. Em Ilhéus, por exemplo, que poderia conceber e executar uma proposta de desenvolvimento sustentável onde merece, e proporcionar meios para o incremento do comércio indústria e serviços, nada é feito.

E não é feito por questiunculas – coisinhas menores –, nas quais as propostas firmadas entre prefeito, vice-prefeito e as forças coligadas durante a campanha eleitoral se esfacelam nos primeiros meses de governo. Não falo de suposições, mas de fatos, portanto, reais, com o afastamento do vice-prefeito José Nazal do centro do poder, desprezando todo o conhecimento que tem sobre o município.

Ora, se as proposições dessas forças eram antagônicas não deveriam marchar juntas na campanha, elaborar um projeto de governo apenas de mentirinha para enganar a população nos comícios e programas eleitorais. Com isso, perde o município que não se desenvolve, perde a população que não gera riquezas e perde o cidadão, mais uma vez alijado do processo decisório.

Paraty e Ilhéus são apenas dois pequenos exemplos do Brasil.

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.

A alegoria do incidente em Ilhéus

Por Mohammad Jamal.

O Incidente em Ilhéus. O incidente aconteceu na Rua Araujo Pinho. Passeios estreitos, carros sobre as guias dos passeios, vendedoras de capinhas e películas para celulares, tudo apertado, vocês sabem… Foi ali, perdido nos meus pensamentos que o asteroide me atingiu. Senti aquela coisa enorme e pesada esparramar-se esmagadora sobre as minhas costas. Era uma mão, não um mamão – na literatura antiga escrevia-se “u’a mão” – Era u’a massa de carne adiposa, mal coberta com roupas em desconformidade, apertadas; arrastava os pés inchados nuns chinelos enormes e, tinha no que chamamos rosto, oblongo, duas coisas parecidas com grandes almofadas; eram as bochechas tingidas de sangue, orlando um nariz ameaçador atufado de rapé logo acima de uma abertura, que deveria ser a boca, ungida pela filosofia dos borrões em vermelho pastel dos batons baratos e pintores anônimos.

Tremi, confesso; quando o senti o peso daquela mão enorme, uma pata de elefante da mulher paquiderme quase soterrar-me sob seu peso. Voltei-me, ou fui voltado ante a força descomunal empregada pela mulher adipócita cuja circunferência passava de um metro de raio encimada por uma cabeça minúscula para um rosto enorme. Aterrorizado, silencioso, ouvi quieto a sua expressão pantagruélica em forma de crítica. _ “O senhor escreve demais. Seus textos são longos e cansativos”. Eu: a senhora está certíssima. E fugi apavorado pelo medo de ser esmagado como um piolho entre as unhas de Gargântua, personagens de François Rebelais em “Gargântua e Pantagruel”.             

Conformidade humanista. A sensibilidade literária enquanto doutrina e os pressupostos que a constitui assentam na idéia de que o homem, enquanto inatamente virtuoso e benevolente, deseja de modo sincero o bem estar de todos e, consequentemente, é capaz de sentir e compreender não só as suas próprias emoções, mas também aquelas sentidas e experienciadas por outrem. Os ideais patentes nesta doutrina do século XVIII assumem-se como características indispensáveis enquanto definição do caráter do indivíduo, e em sentido mais lato, de ética social, de moralidade pública do humanismo.

Na serra fria e brumosa. Lembro-me que lá em casa tínhamos uma ampulheta muito antiga, uma relíquia que eu admirava extasiado. Ela servia para marcar o tempo das aulas de piano e por quanto tempo eu havia me dedicado aos meus estudos formais. A velha ampulheta teria sido dada de presente por meu avô a meu pai, por isso, ela ocupava lugar de destaque sobre o piano, enquanto o executávamos e depois, sobre a estante, imponente frente aos inúmeros livros, como se uma guardião das memórias que a literatura havia aprisionado.

As areias do tempo. Eu passava tempo admirando a ampulheta, ela capturava minha imaginação de uma forma que nunca vou saber explicar. A abertura pela qual escorria a areia é tão pequena que, à primeira vista, parece que o nível da areia da parte superior nunca se altera. Aos meus olhos de criança, transparece que a areia escoa apenas no final e, até que isso aconteça, não vale à pena pensar e falar a respeito. Ate o ultimo instante, quando não há mais tempo, quando não resta mais tempo para pensar a respeito daquele tempo impregnado de poesias, doces lembranças.      (mais…)

Ilhéus da depressão

Por Mohammad Jamal.

Chá de pilhas, arrebites. Há coisa de duas décadas a ciência farmacêutica nos brindou com duas descobertas em forma de pílulas miraculosas. A uma se atribuía a completa extinção da disfunção erétil, o Citrato de Cidenafil; e com a outra, se decretava em definitivo o fim da depressão que atinge 20% da população mundial, com a Paroxerina, mais conhecida por Prozac. Dizia-se que a nova compreensão da neuroquímica tornara-se tão avançada que em breve seria possível desenvolver e ate variar nossas personalidades segundo as preferências de cada um. A partir daí, não haveria mais espaço neuropsíquico para as angústias e depressões humanas. Dizia-se à época, que pessoas submetidas a tratamento com a Paroxetina não tinham apenas superado a depressão, mas também haviam se renovado completamente e até aperfeiçoado suas personalidades.

Exercício ilegal da profissão? O tempo passou trazendo milhões de dólares em dividendos aos acionistas das multinacionais farmacêuticas e, não obstante às prescrições maciças dessa como de tantas outras substâncias de semelhantes indicações para milhões de pessoas, essas “maravilhas químicas” não conseguiram reduzir significativamente o total da miséria humana e sua perplexidade diante da vida, diga-se, dura vida para a maioria. Alguém que tenha lido mínima parcela da grandiosidade da obra de Shakespeare não se surpreenderia com essa decepção. Quando MacBeth pergunta ao médico:

“Cura-a disso. Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que oprime o coração?”. Ao que o médico responde lacônico: “Para isso deve o doente achar os meios.”. Seria ele um doutor do SUS?

Adereços e badulaques arquitetônicos. Quanto mais levada ao absurdo exagero, a decadência exala para alguns, seu charme contemplativo; um contemplar que é uma mistura de arcaísmo arqueológico que aceita e desafeiçoa o belo degradado ao abandono e, acolhe com naturalidade a morte prematura do contemporâneo. Algo parecido com a visão das múmias e seu exotismo mórbido como remanescente mudo, iconográfico de um passado de grandezas, contudo, sem haver suportado o peso do tempo e a desídia da imortalidade que mal conservou os seus restos sob as pirâmides do vaidoso egocentrismo, algo objeto que supunha eternizado.

É Lula Livre? Há romantismo nas ruínas sim, e de fato elas são românticas a ponto de abastados cidadãos as reconstruírem em cópias suntuosas nos jardins das suas opulentas mansões como agradáveis e melancólicos lembretes sobre a transitoriedade da existência terrena. A propósito. Aí vem a exemplo, Ilhéus, que já teve faraós e pirâmides de mármore; seu passado de riqueza e opulência aos moldes dos egípcios e dos europeus; consideradas as devidas proporcionalidades. Pena que naqueles tempos, ha décadas, não se projetavam prognósticos sobre a macroeconomia, o agronegócio, tampouco se imaginava que a árvore que paria dinheiro pudesse um dia morrer de eclampsia, neoplasia ou abatida por um simples e corriqueiro fungo lançado por um terrorista socialista que lhe atingiu mortalmente “as partes” falindo irremediavelmente a cornucópia da riqueza que brotava das cultivares quase sem tratos culturais, seus frutos dourados sob o calor úmido à sombra de outras árvores desimportantes, jaqueiras, tangerinas, pinhas…

As joias da coroa são de micheline e latão, mas joias!  Mas voltemos à triste Ilhéus, à dura realidade que envolve aqueles remanescentes sem eira nem beira e aqueloutros, com alguma beira duramente economizada ou com pouca eira, produto do trabalho. Podemos dizer que naqueles tempos fartos de outrora, imprevidentes ou não, perdulários, nababos, chiques degustadores das delícias e prazeres mundanos, de cujas roças de cacau manavam rios de dinheiro em duas safras e duas bongas, que dissipavam grana como nababos nos vales das delícias, mereçam alguma inculpabilidade. Quanto a isso, aos festins e ao luxo não cabem censuras ou críticas. Como diz Adelaide: “é meu, dou a quem quiser.”. Concordo plenamente. Quando adquiro uma camisa nova, já saio da loja vestindo-a! A vida é efêmera.

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Nossa visão turva sobre o Estado: podemos reagir aos fatos, no Brasil?

Por Elisabeth Zorgetz.  

De todo o recente processo político que passamos reagi, intimamente, das mais diferentes formas. Não me constrange dizer que chorei convulsivamente na noite de outubro. Ou tremi de raiva de pessoas à minha volta nas semanas seguinte. Que puderam me surpreender com a truculência institucional, passando sobre tudo e todos… Desde então estive calada, observante. Não seduzida pelo histerismo categórico de Damares. Não seduzida por qualquer tipo de provocação, mas vigilante. Como pesquisadora da dependência na América Latina, o panorama delineado para o campo da política econômica parece claro como água mineral, e ainda que tantos brasileiros possam ignorar o que realmente signifique, reconheço que não é indecifrável. Confesso minha maior preocupação, e por necessidade que nossos companheiros e camaradas o saibam: a intensa confusão sobre os nossos inimigos, os inimigos do povo. Nesse ponto, pretendo abordar apenas um dos elementos plenos de distorção, que é o Estado burguês, em seu caráter dependente. Por isso pergunto: temos estima pelo Estado capitalista? Reconhecemos o seu status? Reunimos força para disputá-lo, e depois? Devemos superá-lo? Sabemos realmente quem ele é? Não pretendo responder essas perguntas, mas elas servem onde estão, aqui.

Para começar, é importante admitir que numa hegemonia capitalista, a classe política não está separada da classe capitalista, tampouco está conectada à uma racionalidade política específica relacionada à lógica social do capital. Inversamente, os participantes do poder do Estado se comportam como os próprios capitalistas, quando não o são de fato.  São, por assim dizer, agentes da acumulação de capital e expropriação do valor do trabalho tal qual empresários ou negociadores do capital financeiro. Essa afirmação não tem intenção de ser ofensa, mas representa uma postura sóbria com a qual se pode encarar a atuação desses agentes a partir de diferentes nuances, ao passo que temos em largas bancadas interesses do capital privado, mas também de sindicatos, movimentos sociais, questões identitárias ou territoriais. As últimas, em boa medida, desempenham papéis diferenciados no terreno da reprodução do capitalismo, que admitem, necessariamente, a atenuação de efeitos deletérios à sua manutenção.

No caminhar da década de 1970, a crise do confortável modelo keynesiano para os países centrais expôs o que poderia ser entendido como alguns limites da performance do capitalismo de Estado, ocupado em manter uma acumulação crescente com a força das nações industriais. Mesmo através dessa abordagem, o Estado não pode ser um mero instrumento da classe empresarial. Foi através dele, imprescindivelmente e inclusive, que o neoliberalismo se instalou como ideologia (mais que momento econômico) para justificar uma ofensiva global aos trabalhadores.

Nesse ponto já não podemos desprezar a teoria. No tomo 3 do Capital, Marx comenta sobre a forma política específica correspondente à forma econômica específica da produção social capitalista, cuja expressão particular irá determinar a relação entre quem governa e é governado. Esse Estado é constituído por relações de produção historicamente específicas, cuja questão da soberania é ao mesmo tempo separada e partícipe do movimento econômico total. Longe de tomar a questão como uma determinação geral e unívoca, Marx compreendeu as infinitas variações, tendências e nuances da realidade objetiva, embora não tenhamos tantos textos adiante dada a circunstância de sua morte. As pistas que o velho Marx nos deixa sobre a conformação de um Estado no capitalismo periférico e dependente são cruciais para entendermos quem é o nosso Estado brasileiro, por exemplo.

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Para que servem as demissões do município de Ilhéus?

Servidores municipais durante protesto. Foto: Sinsepi.

Por Índio do Brasil (pseudônimo).

Uma bomba caiu sobre a vida e a casa de centenas de trabalhadores ilheenses neste início de 2019, mais exatamente no dia 07 de janeiro. Por meio de um Decreto, seguido de uma Portaria, o atual prefeito municipal suspendeu o contrato de trabalho de centenas de servidores públicos contratados entre 1983 e 1988, e demitiu mais outros 125 contratados que se encontravam lotados na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.

A alegação utilizada pelo prefeito para o ato de demissão e afastamento sumário de servidores foi que estaria dando cumprimento a uma sentença judicial, que teria determinado tal afastamento.

Entretanto, são necessárias algumas considerações sobre os fatos acima.

Em primeiro lugar, chama a atenção a forma rápida e eficaz com que o Município cumpriu a determinação judicial. Sabemos que municípios recorrem, procrastinam, entram com inúmeros recursos e, por vezes, simplesmente descumprem decisões judiciais. Porém, neste caso, o pronto acatamento da ordem judicial torna tudo muito suspeito. A impressão que fica é de que os gestores do Município adoraram se livrar dos servidores mais antigos.

Além disso, é de vital importância ressaltar que os servidores contratados entre 1983 e 1988 não ingressaram na prefeitura de forma irregular. É que antes da Constituição de 05 de outubro de 1988 não havia a exigência de que as pessoas se submetessem a concurso público para se tornarem servidores públicos. Estes servidores, é verdade, não têm direito a estabilidade, mas não são irregulares, e por anos a fio trabalharam segundo as exigências do Município, de forma regular e legal.

Há pessoas que comemoram, mesmo de forma dissimulada, a demissão destas centenas de chefes de família, talvez desejando se colocar, ou a alguém ligado a si, no lugar dos demitidos. Trágico engano! Se quem tinha mais de 30 anos de serviço no município de Ilhéus foi posto na rua, de que valerá sua convocação, mesmo que após aprovação em concurso? Quais serão suas garantias de permanência no emprego? A instabilidade e desventura de uns atrai a mesma situação para os que, eventualmente, venham a substituir aos trabalhadores que se foram.

Cabe ainda ressaltar o trágico efeito social destas demissões. Primeiro sobre as famílias de cada demitido, muitas dos quais já passando por privações. Posteriormente, sobre o comércio e a sociedade ilheense, que empobrecerá ainda mais, pois trabalhador gasta e compra no comércio de Ilhéus, mas dinheiro que fica nos cofres municipais nem sempre dá frutos na cidade, e as vezes desaparece de forma tão discreta como foi creditado no banco, sem proporcionar nenhum benefício social.

Uma medida capaz de amenizar o caos social provocado pelas demissões seria a reabertura do PDV, o Plano de Demissão Voluntária, para que os que se encontram com os contratos de trabalho suspensos – os admitidos entre 1983 e 1988 – possam aderir, nas mesmas condições anteriormente oferecidas aos servidores em 2018. Trata-se de medida unicamente administrativa, que não depende de chancela judicial, e que ajudaria muitíssimo a estes demitidos, dando-lhes um mínimo de dignidade ao deixarem o serviço público, já que a sus pensão do contrato não confere direito nem mesmo ao recebimento de verbas rescisórias e ao saque do FGTS. É o mínimo que o Município pode e deve fazer: Reabrir o PDV para adesão destes servidores.

Por fim, cumpre questionar como os atuais gestores gostariam de ser lembrados, se como aqueles que deram uma opção viável aos servidores mais antigos para o enceramento digno de sua carreira ou como os que os colocaram na rua sem direito a nada. O juiz que prolatou a sentença utilizada para justificar as demissões jamais será lembrado, nem precisará do voto popular para nada. Mas os gestores poderão ser vistos como algozes de famílias inteiras, pelo resto de suas vidas e, sinceramente, isto é tão indesejável e trágico como as próprias demissões efetivadas.

PDV já em favor dos afastados!

A triste sina de Zé Dirceu – da academia ao circo

“Ora, mas o que tem a ver a proibição de um lançamento de livro em Ilhéus, e justamente numa academia de letras, para levantar tamanha celeuma se ela é frequentada até por Jabes Ribeiro, que tem assento na cadeira 8”.

 

 

Por Walmir Rosário com exclusividade para o Blog do Gusmão.

Confesso que estou com receio (ou medo, mesmo) de ir a Ilhéus nessa sexta-feira 18 de janeiro de 2019. É que essa sexta-feira tem cara e corpo inteiro de 13, o número fatídico do PT. Neste dia será realizado, ou, pelo menos, está agendado, o lançamento do livro “Zé Dirceu – Memórias – Volume 1”, escrito na sua mais recente prisão, e que conta quase tudo de sua vida.

Não estranhe o meu medo, pois nesse dia está anunciada uma batalha sem precedentes na cidade, que torna as “guerras” nos jogos entre as seleções de Ilhéus e Itabuna, brincadeira de criança. Bem diferente de antes, quando os ilheenses (papa caranguejo) se postavam em cima do viaduto Pedro Catalão para apedrejar os itabunenses (papa jaca) que viajavam em cima da carroceria de caminhões para assistirem aos jogos. Alvos fáceis.

Por falta de estratégia, os petistas escolheram logo a Academia de Letras de Ilhéus para sediar o evento, quem sabe por ouvir dizer que o local onde se cultuam as letras, a Casa de Abel Pereira, portanto apropriada para eventos de tamanha monta. Mas a proposta não ficou barata e manifestantes (ou ativistas, como queiram os senhores) prometeram empastelar o lançamento, com todas as forças.

Quando eu disse falta de estratégia dos petistas, me referi apenas ao formato das ruas daquela área antiga da cidade, construídas em forma de “U”, para que os habitantes pudessem se defender dos invasores. Quem chega – o invasor – não tem a capacidade ou condição de ver muito à frente, daí a vantagem dos defensores, que deveriam estar armados até os dentes.

Ora, mas o que tem a ver a proibição de um lançamento de livro em Ilhéus, e justamente numa academia de letras, para levantar tamanha celeuma se ela é frequentada até por Jabes Ribeiro, que tem assento na cadeira 8. Calma, o xis do problema é que o buraco é mais embaixo e reside, no caso em questão, na velha luta entre invasores e invadidos. Melhor dizendo: Contra quem apoia o MST e os índios “paraguaios” nas invasões de fazendas.

Me disseram, até, que devido ao grande calor deste verão, assim que soube da notícia da guerra declarada pelos agricultores, o Zé Dirceu baixou hospital, atendido com todas as honras no Costa do Cacau, recém-inaugurado. Ainda bem que os médicos ainda não tinham entrado em greve, ocasionada pela simples falta de pagamento dos seus serviços prestados desde setembro do ano passado.

À boca pequena, circula na cidade, uma outra versão, dando conta que a ida de Zé Dirceu ao Hospital Costa do Cacau tinham motivos relevantes: primeiro, conhecer a obra decantada pelo governador Rui Costa, construída com recursos federais; segundo, que não acreditei de pronto, dá conta que seria apenas uma estratégia para o multifacetado Zé Dirceu posar de vítima, já que idoso e enfermo, quem sabe, conteria os ânimos exaltados.

Mas como se diz que quem tem amigos não dorme no relento, eis que surge o providencial apoio cultural dos artistas, ofertando-lhe [a Zé Dirceu] um espaço na Tenda do Teatro Popular de Ilhéus para o lançamento do rejeitado livro. De pronto, confesso que não conheço o texto do livro nem a resenha, mas acredito que Zé Dirceu corre perigo em lançá-lo em Ilhéus, pois corre o risco de ser convocado para ocupar uma das cadeiras vagas da academia, na qual, sentando, poderá ser decretada sua morte, pela idade.

Não é de hoje que tentam invadir Ilhéus. Desde 1595 – nos conta os historiadores – que o local foi alvo de ataque e invasão dos franceses, rechaçados prontamente pelos habitantes, coisa que permanece até os dias de hoje. Naquela remota época, apesar das belezas da baia do Pontal, dos morros e rios, os invasores não tinham nenhum interesse turístico, somente econômicos e políticos.

Até mesmo um pirata de faz de contas se aventurou a tomar Ilhéus para si e não conseguiu tal proeza. Foi um fiasco histórico. Nos tempos atuais o interesse por Ilhéus tem motivações diferentes: algumas turísticas, outras econômicas, as políticas são impublicáveis, e até por sobrevivência, como os que não se incomodaram com as belezas naturais e se homiziaram nos morros, sem qualquer tipo de exigência.

Pensava eu que essa questão estaria resolvida, com exceção apenas para os itabunenses, invasores semanais das praias e alguns com ânimo permanente e que se dão ao luxo de construir casas de veraneios, de acordo com as possibilidades dos bolsos. Outros vão em busca de trabalho no poder público, alguns de pronto rechaçados, enquanto outros são tolerados. Eu mesmo posso ser considerado um exemplo.

Antes, porém, o papa jaca tem quer ser – ao menos – conhecido, com frequência registrada onde não se bebe leite e come-se do melhor que conste nos cardápios de sustança, a exemplo da Central de Abastecimento do Malhado. Também é (e era) de bom alvitre frequência no saudoso Sancho Pança, na Barrakitika, no Vesúvio e até no Ponto Chic, para degustar um sorvete de Gileno antes ou depois da cachaçada.

Mesmo assim, as diferenças existirão sempre, pois papa caranguejo e papa jaca são os inimigos mais cordiais que já conheci. Quer ver…então bastar lembrar dos finais de semana no Chinaê, cheio de itabunenses. Os ilheenses queriam morrer de raiva por não conseguir sentar às mesas preferidas e comer os caranguejos maiores. Quem manda chegarem atrasados.

Voltado à vaca fria, explico que sou um homem pacífico, totalmente contrário a todos os tipos de violência (se é que as existem), até pela minha condição de ser um cidadão chegado na idade, sem forças para o combate. Portanto, nesta sexta-feira, dia 18, continuarei arranchado em Canavieiras, e desde já declaro nulas minhas pretensões de comer uns quibes no Vesúvio e fechar a noite na minha adorada Barrakitika, né Bruno.

Quanto ao Zé Dirceu, melhor sorte não cabe a mim desejar-lhe, visto não ter poder para tal, por ser um homem astucioso, sagaz e que sabe se adequar aos mais diversos ambientes. Mais do que todos, tem conhecimento de que é odiado e idolatrado. Em nome de uma falsa democracia pintou o diabo, com o intuito de desfigurar a palavra democracia, fazendo crer que a sua ditadura seria o melhor dos mundos. É da vida!

Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.