O otimismo extravagante de Fábio Vilas-Boas e as subnotificações em massa da Covid-19 na Bahia

Fábio Vilas-Boas. Foto: Reprodução do Facebook.

Editorial do Blog do Gusmão.

Numa entrevista coletiva do governador Rui Costa transmitida na quinta-feira, 02, no Youtube, o secretário de saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, afirmou que a taxa de crescimento da doença no território baiano está abaixo de outros estados e de países da Europa.

Vilas-Boas “acha” que esse resultado vem do esforço dos governos estadual e municipais somado ao sacrifício da sociedade baiana. O secretário fez uma ressalta ao dizer que o número de casos vai aumentar quando a doença atingir bairros populosos das cidades maiores.

No mesmo dia, o médico Dráuzio Varella, acompanhado de outros especialistas, afirmou no programa UOL Debate que “nós não temos a ideia de quantas pessoas infectadas existem. Os números apresentados não são confiáveis. Não há testes suficientes. As previsões dadas não possuem precisão científica. Estamos tratando de uma doença que pode apresentar desde sintomas muito leves até os quadros mais graves. Neste momento, enquanto não testarmos grandes amostras populacionais estaremos no escuro”, afirmou Dráuzio Varella.

O otimismo de Vilas-Boas soa extravagante quando é colocado diante do esclarecimento científico. Por falta de kits para o exame PCR, que identifica o vírus no organismo, a secretaria estadual de saúde está promovendo subnotificações em massa. Um fato atenuante para a SESAB é que o mesmo erro acontece em todo o Brasil, por ausência de planejamento e indisponibilidade de insumos.

No Sul da Bahia, a SESAB está errante. Passou quase oito dias divulgando que o Hospital de Base de Itabuna só receberia pacientes com a Covid-19. Ao perceber o óbvio, a procura desmedida pelo Hospital Costa do Cacau a partir da recusa do “Base” em receber todo o tipo de caso, a SESAB mudou drasticamente de plano. Segundo Vilas-Boas, agora o governo vai implantar leitos de UTI no que sobrou do velho Hospital São Lucas.

No Sul da Bahia, Vilas-Boas já demonstrou em outra ocasião que planejamento não é o seu forte. Em março de 2018, fechou repentinamente o Hospital Regional de Ilhéus, decisão que deixou milhares de crianças sem atendimento pediátrico. Ao perceber o erro, colocou a culpa na precária rede de atenção básica do município e pediu a cabeça da então secretária de saúde Elizângela Oliveira.

O debate sobre a pandemia ocupa amplo espaço nos meios de comunicação e possibilita posições científicas consensuais. Uma delas é que o número de casos notificados da Covid-19 no Brasil é “a ponta do iceberg”. Soa demagógico ouvir o secretário Vilas-Boas fazer quase um autoelogio e evidenciar um esforço sem finalidade e perspectiva de êxito.

A peste está no ar em ritmo crescente. Que as covas sejam abertas, pois a realidade das subnotificações de casos, escassez de equipamentos de proteção e número insuficiente de respiradores esmaga tristemente o otimismo do secretário Vilas-Boas.

Ouça este editoral na voz de Emilio Gusmão.

O Marão “bonzinho” com os rodoviários é o mesmo que afastou 268 servidores

O bonzinho e o mau.

Editorial do Blog do Gusmão.

O prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, compartilhou nas redes sociais, na segunda-feira, 30, uma publicação em que se mostra sensibilizado com as demissões de trabalhadores do transporte coletivo de Ilhéus. Segundo a empresa Viametro, os desligamentos ocorreram por conta da suspensão do serviço como forma de conter a transmissão do coronavírus.

O prefeito afirma ter conseguido um acordo para os trabalhadores que passa pela redução dos salários, férias coletivas, verbas indenizatórias entres outras medidas menos drásticas.

A ação com certeza vai beneficiar famílias, mas, voltemos a janeiro de 2019 quando o prefeito demitiu 268 servidores municipais, dentre eles, mais de 100 trabalhadores da educação. De lá para cá disputas judiciais, falsas promessas de retorno aos postos de trabalho, diálogos entre sindicatos e prefeitura aconteceram, mas nada foi resolvido.

A interferência do prefeito para resolver tão rapidamente a questão dos funcionários da empresa de ônibus é válida, porém, destoa da humilhação que o mesmo gestor impôs aos servidores afastados que lutam para retornar ao trabalho.

A suposta bondade do prefeito Mário Alexandre com os rodoviários é uma manifestação hipócrita (em ano eleitoral) de um político inegavelmente impiedoso com 268 servidores sem condições de empregabilidade.

É difícil suportar o sorriso fácil do prefeito Mário Alexandre neste momento de pandemia

Mário Alexandre, prefeito de Ilhéus.

A secretária municipal de educação, Eliane Oliveira, afirmou ao BG que “não há nenhuma situação sobre ameaça de coronavírus em Ilhéus”.

A afirmação desinformada e estapafúrdia está num áudio, onde a secretária tenta explicar porque os professores contratados não receberam os salários de fevereiro.

Eliane Oliveira foi contraditória. Se não existe ameaça, por qual razão as aulas na rede municipal foram suspensas e as crianças foram orientadas a ficar em casa e ter os devidos cuidados com a higiene?

A declaração alheia à realidade de Eliane Oliveira não é um ato isolado e jamais poderia ter sido dita pela secretária de educação. Ela como educadora não pode ignorar a ciência.

O ministro da saúde, Luis Henrique Mandetta, já disse que se trata de uma pandemia. A contaminação é comunitária em todo o território nacional. No final de abril, segundo o próprio ministro, o SUS vai entrar em colapso.

O governo Mário Alexandre tem agido de maneira irresponsável, lenta e até com mentiras para lidar com a crise.

O prefeito mandou publicar decretos atrasados e fracos. Ao invés de determinar, Marão recomenda e tergiversa. Em Itabuna, o prefeito Fernando Gomes determinou o fechamento temporário do comércio. Em Ilhéus, o prefeito recomenda que funcionem das 09 às 15 horas.

Enquanto isso, nas redes sociais, os vídeos do prefeito não passam qualquer sensação de seriedade com a causa pública.

O gabinete de crise criado por Marão é liderado por Bento Lima, um secretário fraco e desequilibrado que sequer mora na cidade (reside em Itabuna).

Bento Lima não está em condições de presidir qualquer situação relacionada a Ilhéus. Recentemente, ele foi indiciado pela Polícia Federal por assinar, como testemunha, um contrato supostamente falso de compra e venda de um veículo que foi utilizado por um prefeito de uma cidade vizinha. Bento é alvo de outras investigações e se o governo Marão fosse sério, ele já teria sido afastado até que a justiça decida pela sua inocência.

Em Itacaré, o prefeito Antonio de Anizio afirmou: “o vírus está na cidade”. Em Ilhéus, o prefeito sumiu da cidade num momento tenso sem qualquer justificativa plausível. Ao retornar, afirmou que Ilhéus não tem nenhum caso de coronavírus. Até quando Marão?

Até quando o senhor pensa que vai conseguir enganar as pessoas com seu riso político fácil e irresponsável?

Seja responsável prefeito. Se lhe falta espírito público, lembre-se que o senhor tem pais idosos dentro do grupo de risco.

Ouça este editorial gravado pelo editor do BG, Emílio Gusmão.

ALGUÉM PRECISA ASSINAR UM DECRETO POR MARÃO

Editorial do Blog do Gusmão.

Uma pergunta inquieta Ilhéus, e o espanto dá seu tom: “Rapaz, cadê Marão?”.

A resposta é um mistério.

Quando a prefeitura anunciou entrevista coletiva sobre a pandemia, esperava-se que o prefeito estivesse presente. Expectativa frustrada.

A ausência notável indica que o combate ao coronavírus não é a prioridade de Marão, pelo menos até o momento em que ele decretou as medidas tímidas da última terça-feira (17).

O decreto parece obra de improviso, como uma resposta apressada à cobrança das ruas e das redes.

O prefeito sequer julgou necessário suspender todos os eventos com aglomerações. Determinou que cada caso desse tipo fosse submetido à autoridade ambiental. Esse tipo de conduta sugere falta de conhecimento sobre a gravidade dos cenários possíveis.

Marão também não determinou nenhum tipo de cuidado com os ônibus do transporte coletivo. Em muitas cidades, prefeituras exigiram que os veículos recebessem higienização especial.

A timidez do decreto deixa a critério de academias e clubes a manutenção das suas atividades.

Não diz nada sobre estabelecimentos como bares e outros espaços onde pessoas tendem a se aglomerar. Muitos proprietários se anteciparam ao prefeito. Quem não?

Infectologistas, biólogos e matemáticos chegaram a um consenso. No Brasil, o isolamento é a melhor forma de combate ao vírus. Aqui não temos a cobertura de testes de países como a Coreia do Sul.

Prefeituras começam a aderir ao consenso. Algumas já chegaram a reduzir os horários do transporte coletivo. O serviço é mantido apenas na medida em que faz jus à sua condição essencial. A ideia é reduzir os deslocamentos nas cidades, e, assim reduzir a velocidade com que o vírus se espalha.

A redução do ritmo de contágio é importante para que os hospitais tenham leitos livres para as pessoas que precisem de tratamento intensivo.

Enquanto isso, muitas perguntas sobre como Ilhéus vai enfrentar a pandemia. Mas, um delas é causa mais espanto: “Rapaz, cadê Marão?”.

O município deve adotar medidas coerentes impostas pelo caráter excepcional desta crise.

Alguém precisa assinar um novo decreto pelo prefeito, conduzindo sua mão sobre o papel timbrado, como fazem as professoras de alfabetização mais atenciosas.

O discurso do governador Rui Costa sobre o meio ambiente não é verdadeiro

Editorial do Blog do Gusmão.

O governador Rui Costa. Imagem extraída de vídeo do Facebook.

No dia 11 de setembro, Rui Costa disse no programa Papo Correria que a Bahia respeita o meio ambiente: “tem um Brasil que pensa diferente. Um Brasil diverso, que respeita a democracia, valoriza o meio ambiente e aceita colaboração de outros países que quiserem fazer parcerias com a gente”, falou o governador.

Na tentativa de estabelecer uma oposição à visão destrutiva de Bolsonaro, que declara com sinceridade louca que não é favorável à conservação do meio ambiente, o discurso de Rui é apenas um exercício de retórica. Não tem nenhuma correspondência com a realidade, pois na Bahia a política ambiental do PT é muito parecida com a de Bolsonaro. Vale lembrar que as unidades de conservação estaduais estão abandonadas pelo governador e nunca foram objeto de interesse durante os governos do PT.

O Parque Estadual da Serra do Conduru possui uma questão fundiária que se arrasta desde seu surgimento na década de 90. Proprietários de áreas que foram anexadas ao parque sequer receberam indenização.

O governo do PT também criou o Parque Estadual da Ponta da Tulha, um remanescente importante de restinga arbórea, tipo de vegetação cada vez mais raro. Mas a unidade está completamente abandonada e só existe no papel. Não há vigilância, guardas-parques e equipe. Existe apenas um gestor nomeado que, sozinho, nada pode fazer.

Além disso, loteamentos irregulares estão destruindo o entorno do Parque Estadual da Ponta da Tulha, apoiados pelo deputado estadual Zé Neto, do PT. É comum passar pelo parque e ouvir o som estridente das motosserras.

Vale relembrar: o ex-governador Jaques Wagner também transformou o Conselho Estadual de Meio Ambiente num órgão meramente consultivo, sendo que antes era deliberativo. Com isso, o governo buscou dar celeridade em seus projetos desenvolvimentistas, sem qualquer escrúpulo com a conservação.

A Embasa continua sem cuidar dos mananciais que explora. Retira água, mas não possui programas de recuperação de nascentes e matas ciliares. A Embasa continua sendo dominada pela visão da construção civil, que interessada na gestão de recursos destinados às obras, acredita piamente que para solucionar os problemas de abastecimento de água basta apenas construir novas adutoras e sistemas de captação.

Os problemas ambientais que a Bahia vive são inúmeros, teríamos que escrever vários textos para relembrá-los. Mas o certo  é que a politica ambiental do PT na Bahia é igual à do presidente da República.

Há uma diferença apenas nos pronunciamentos, mas a prática é basicamente a mesma. Bolsonaro tem um discurso louco, descabido, porém sincero. O “capitão” é um inimigo à mostra que diz abertamente: “Não temos obrigação de conservar o meio ambiente”, enquanto o PT da Bahia não tem coragem de afirmar sua verdadeira intenção: “Nós não vamos conservar o meio ambiente, mas não queremos que você saiba disso”.

Esta é a única diferença.

Reunião de Marão com promotor Frank Ferrari não é atestado de idoneidade

Editorial do Blog do Gusmão.

Prefeito Mário Alexandre e o promotor Frank Ferrari. Imagem extraída do vídeo divulgado pela Secom/Ilhéus.

O prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, recebeu ontem em seu gabinete o promotor do MP-BA, Frank Ferrari. A presença do secretário de administração, Bento Lima, foi dada como certa, mas ele não apareceu na foto.

O principal assunto discutido foi o fortalecimento dos mecanismos de controle interno do município por meio da modernização.

O encontro aconteceu em menos de 48 horas após os fatos surpreendentes da Operação Xavier, cujo mentor é Frank Ferrari, que desencadeou a ordem de encarceramento preventivo de dois vereadores (Lukas Paiva e Tarcísio Paixão), um secretário do governo Marão (Valmir de Inema), funcionários da Câmara Municipal e empresários.

Nas redes sociais, pessoas ligadas ao governo interpretam que o encontro com o respeitado (e temido) promotor rendeu um atestado de idoneidade. Ledo engano.

O MP-BA costuma visitar prefeitos para aconselhá-los a melhorar suas práticas. No primeiro momento, o diálogo é o melhor caminho para evitar problemas maiores. Se o governo não aprimorar os mecanismos questionados, a justiça será acionada.

Frank Ferrari tem conhecimento de algumas licitações duvidosas do atual governo e sabe que procuradores do Ministério Público Federal estão de olho no contrato de transporte escolar.

Ferrari também sabe que a ex-deputada estadual Ângela Sousa (mãe do prefeito) foi indiciada na Operação Águia de Haia por suposto recebimento de propinas, oriundas de contratos firmados em outros municípios, retiradas de recursos da educação.  A Justiça Federal bloqueou bens da ex-parlamentar em maio de 2018 (confira a denúncia do MPF).

O governo Mário Alexandre até o momento não possui problemas com a justiça, mas flutua na atmosfera da suspeição. O tempo do MP-BA e do poder judiciário não é o da opinião pública, cuja maior parte torce por uma devassa na Prefeitura de Ilhéus.

O encontro de Frank Ferrari não pode ser encarado como um salvo-conduto diante da possibilidade de novas investigações. Convém ter paciência e aguardar o momento certo dos acontecimentos. O tempo dirá.