GLOBO VAI ADAPTAR MAIS UM LIVRO DE JORGE AMADO SOBRE O SUL DA BAHIA

Após duas adaptações de Gabriela, Cravo e Canela chegou a vez do romance Cacau. Fotos: Internet.

A Rede Globo vai adaptar mais uma obra de Jorge Amado cuja trama acontece no sul da Bahia. Trata-se do romance Cacau, de 1934, que pertence à fase engajada do escritor grapiúna com a ideologia comunista.

Dessa vez será uma série para a TV que será dirigida por Ricardo Linhares. Segundo informações do colunista Daniel Castro, do UOL, terá de oito a doze episódios. “É um Jorge Amado que nunca foi produzido, e que eu vou adaptar para uma minissérie”, conta Linhares à coluna Notícias da TV. “Não há uma previsão de estreia, pois ainda estou escrevendo a sinopse. Tive que interrompê-la quando participei de Deus Salve o Rei, e retomei após a novela. Devo entregar [à direção da Globo] no fim deste mês.

A obra de Jorge Amado recebeu doze adaptações para a televisão. As de maior sucesso e benéficas para Ilhéus foram duas adaptações de Gabriela, Cravo e Canela, em 1975 e 2012, a primeira uma novela e a segunda uma minissérie que foi ao ar no centenário de nascimento do escritor.

Resumo do romance Cacau.

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VILA JUERANA VAI TER OFICINA DE LITERATURA DE CORDEL

 

A comunidade da Vila Juerana, em Aritaguá, participa esta semana de uma oficina de literatura de cordel, patrocinada pelo edital Cultura Livre, da Prefeitura de Ilhéus, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (Secult). A atividade acontece até a próxima sexta-feira (31), na escola municipal local, entre 9 horas e 11h30.

As aulas são ministradas por Gilton Thomaz e Franklin Costa, cordelistas de reconhecida produção literária e poetas. A proposta da oficina é incentivar a criação literária em cordel na região e apresentar o universo desta linguagem enquanto manifestação artística dotada de técnicas específicas.

O conteúdo inclui técnicas utilizadas na produção literária de cordel, estrutura de rimas, métrica, contexto histórico e possíveis ramificações desta linguagem. “A valorização da cultura popular, através da divulgação das técnicas da literatura de cordel, também é o foco deste projeto que conta com o apoio da escola do local”, explica Pedro.

O coordenador da oficina, Pedro Albuquerque, informa que a comunidade de Vila Juerana foi escolhida por ser um espaço situado numa região com a confluência de muitos jovens em idade escolar. “Como boa parte das áreas distantes do centro urbano, poucas referências culturais são ofertadas a esses jovens. Esta é uma forma de incentivar a leitura e escrita de novos autores dentro desta cultura popular”, ressaltou.

ESCRITOR RESIDENTE EM ILHÉUS É UM DOS VENCEDORES DOS PRÊMIOS LITERÁRIOS CIDADE DE MANAUS

Tom S. Figueiredo. Foto: Arquivo pessoal.

“O Poderoso de Marte”, do escritor Tom S. Figueiredo, venceu o Prêmio Álvaro Braga de Melhor Texto para Teatro Infantil, categoria Nacional. Além da premiação em dinheiro, o texto passa a integrar o Programa Editorial do Conselho Municipal de Cultura. A Solenidade de entrega acontecerá em breve na cidade de Manaus. Tom nasceu em Itapetinga, mas mora em Ilhéus desde 2012.

“O Poderoso de Marte” conta a história de um palhaço andarilho e uma soldada convicta de sua herança militar que se esbarram durante uma longa guerra que assola o planeta Marte. Em meio aos dramas típicos da guerra, e sob a ameaça do fim da civilização, vemos o nascimento de uma amizade e o choque entre duas visões de mundo aparentemente inconciliáveis: enquanto o atrapalhado palhaço quer que os dois montem um circo, a soldada insiste que eles devem formar um exército.

Ainda este ano, “O Poderoso de Marte” será montado em Salvador por Luciana Comin e Marconi Araponga, dupla de atores e produtores que encenou, sob a direção de Osvaldo Rosa, a peça “Pedro e a cobra-de-fogo”, obra de Tom S. Figueiredo que recebeu o Prêmio Funarte de Dramaturgia, o Prêmio Myriam Muniz de Teatro e dois Prêmios Braskem (Melhor Espetáculo Infantojuvenil e Melhor Texto).

Para mais informações sobre o trabalho de Tom S. Figueiredo, visite o site do autor assombrada.com.

ESCRITORES LANÇAM LIVROS DURANTE SEMANA DE CULTURA JORGE AMADO

Jorge Amado. Imagem: internet.

Os escritores Cyro de Mattos, Gérson dos Anjos, Gustavo Felicíssimo, José Maria Soares e Geraldo Magela participam do lançamento coletivo de livros promovido pela Secretaria de Cultura de Ilhéus, em parceria com a editora Mondrongo, nesta quinta-feira (9). A solenidade, que faz parte da programação da Semana de Cultura Jorge Amado, acontece na Casa de Cultura Jorge Amado, às 19 horas.

As obras literárias dos autores convidados são “Todo o peso terrestre”, de Cyro de Mattos; “Carta a Rubem Braga”, de Gustavo Felicíssimo; “Natalino, o homem que jogou na loteria”, de José Maria Soares; “Imagens”, de Gerson dos Anjos; e “Igreja Nossa Senhora da Escada”, de Geraldo Magela.

Aniversário – A programação em homenagem a Jorge Amado, no dia 10 de agosto, data de aniversário de nascimento do escritor, inclui a entrega do prêmio do concurso de crônicas de Gabriela, 17 horas e a Tenda de Jorge, espaço destinado à divulgação da sua obra, instalado em frente à Casa de Cultura, no centro histórico de Ilhéus, das 9 às 18 horas.

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SECRETARIA DE CULTURA DE ILHÉUS DIVULGA VENCEDORES DO CONCURSO CRÔNICAS DE GABRIELA

Imagem: Secom/Ilhéus.

A Secretaria de Cultura de Ilhéus divulgou, nesta terça-feira, 7, os vencedores do Concurso Crônicas de Gabriela. Realizado em parceria com a Academia de Letras de Ilhéus e Livraria Papirus, o concurso escolheu três trabalhos por conterem originalidade, criatividade e ineditismo.

Rafhael Andrade Gonçalves, do município de Jitaúna, conquistou o primeiro lugar, com a crônica “Nem cravo, nem canela, flor de graxa do Malhado”. O segundo classificado foi Gabriel Sales Macedo, de Itabuna, com o texto “Especiarias para uma janta diuturna”. O terceiro lugar ficou para Gracielle Sales Macedo, de Ilhéus, com a crônica “Cravo, canela e passas”.

Os vencedores receberão um kit de livros de Jorge Amado, incluindo “Gabriela, cravo e canela”, patrocinado pela Livraria Papirus. O primeiro lugar recebe um smartphone, e todos os participantes receberão certificado de participação fornecido pela Secult. O concurso teve como objetivo recordar os 60 anos do romance “Gabriela, Cravo e Canela”, do escritor Jorge Amado, e possibilitar sobre a reflexão do papel da mulher na sociedade.

A solenidade de premiação está marcada para sexta-feira, 10, a partir das 17 horas, no Teatro Municipal de Ilhéus, durante as festividades do aniversário do escritor. O secretário da Cultura, Pawlo Cidade, afirma que “concursos que estimulem a criatividade literária e enalteçam nossos principais escritores fortaleçam nossa memória serão sempre incentivados. Já fizemos um concurso de poesia, agora este de crônicas, e depois será a vez do romance”.

A comissão julgadora foi composta por Josevandro Nascimento, Maria José Caldas Schaun, Gustavo Cunha Carvalho da Silva, Neuza Maria Kerner Vieira e Geraldo Lavigne de Lemos, membros da Academia de Letras de Ilhéus.

JUDITH, A MOÇA ESTELIONATO. EM LONGOS PARÁGRAFOS METAPSICOLÓGICOS…

Por Mohammad Jamal.

O dia transcorreu soturno, pesado e tedioso, um sepulcro atemporal. Hoje carreguei toneladas de apatia; confrontei rostos banidos da esperança cujos corpos e suas texturas transpareciam personagens extraditados da Divina Comédia. O estupor do medo desenha olhos de barro em seus rostos macilentos. A üzüntü, Dünya… “Kasvetli olmanın nesi mükemmel?”, diria assim vovô, no seu turco carregado de expressionismo linguístico (tristeza, depressão… “O que há de tão grande nesta depressão?”). Tento escapar ileso desse redemoinho de existencialidades sem perdas e danos. A palavra é a ficção de um vazio; um parcel de questionamentos existenciais de onde assisto a moral, essa desavergonhada, entregar-se lasciva à vida de pública da devassidão por trinta moedas de um real, ou muito menos, ou por quase nada… Mixaria.

Lapso, me pego de pé, totalmente despido de pudores, nu no meio daquele quarto/alcova. Que mais poderia eu fazer nesse fim de tarde, quando a escuridão sepulta sem dó o dia ainda agonizante para mim com pesado atraso? Que fazer senão atender ao apelo, apoiar meu corpo suado sobre o corpo daquela mulher de “negócios” esparramada nua; pernas abertas e olhar macilento fitando a impassibilidade da própria apatia que vê estampada no bolor que desenha mapas no teto, nas paredes, na memória? Que fazer senão copular burocraticamente como num tedioso rito processual de agravos restringentes como montam ao povo políticos corruptos? A mulher é só a sombra de um constitutivo abstrato numa ficção de palavras surreais traçadas a pinceladas impressionistas. Salvador Dali não é, nem de longe, o que eu chamaria de o louco daqui. Dali abstraiu-se no surreal; aqui é concretismo existencial.

Havia silêncio no ar e uma única lâmpada no ambiente, tal como se fora enforcada no centro do quarto pendendo no bocal por um fio coberto pelas teias do tempo.  Debilitada e mortiça, sua fraca luminescência tingia os poucos móveis, além da cama e o criado mudo, de um amarelo ictérico como a bile que também me amarelecia fantasmagoricamente as feições a ponto da memória gustativa me fazer sentir amarga a saliva que me brotava sob a língua. E desabei inteiro, inapetente e sem ganas sobre aquele corpo feminino, um serventuário com manchas roxas da lida ali e acolá. Passei em seguida aos movimentos rítmicos ondulares, como se coreografando um funk fúnebre ou réquiem litúrgico para exéquias de uma vagina pós-exumada. Foi quando a vagina exumada, ou melhor, a voz da mulher serventuária, de negócios baratos, deu sinais de vida. Ela fala!

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ENXUGANDO GELO, EU? FALA SÉRIO, VAI.

Por Mohammad Jamal.

Um “pancada” como sou. O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que “o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver.”. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é um terno novo ou uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento alienante ou disfarce para se vestir. Como eu, voluntariamente desestereotipado e íntegro no comum da minha trivialidade doméstica. Mas ainda assim, um homem literalmente intransparente, desculpem-me pelo forçoso neologismo para acompanharem a minha linha de pensamento crítico auto filosófico. No entanto, em contrapartida, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado ao pescoço. 

Botocudos ou Cherbongs? Diga-me qual é a sua tribo e, eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que os ex-Carandirus, Bangus e Papudas da vida: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luís Estevão, Lula, figurões; só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos voos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza, submete e serviliza sob o peso de Contrato irrecorrível e inquebrantável onde o contratante é a sociedade maniqueísta e as carentes fraquezas da sua própria vaidade. A carcereira de você.

Nem andarilho nem sultão. Viver sem laços igualmente pode nos reter e manietar. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma grande vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente e voluntária. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real e concreto, entre quatro paredes.

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“PAI” DA CRÔNICA LITERÁRIA REGIONAL TEM LIVRO LANÇADO NA SEXTA-FEIRA, EM ILHÉUS

O cronista e advogado (professor de Direito Constitucional da então FESPI, embrião da Universidade Estadual de Santa Cruz) Manoel Lins terá o livro O canto da eterna esperança lançado no dia 13 de julho, às 16h30min., na Pousada Eden One, em Ilhéus, pela Editus/Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz.

Organizado pelo jornalista Antônio Lopes, o livro reúne dados biográficos e textos produzidos por Manoel Lins (que também foi vice-presidente da OAB/Itabuna), além de apropriada iconografia, numa edição luxuosa, 384 páginas, em papel especial.

Manoel Lins, nascido em Palmeira dos Índios/Alagoas, veio morar em Buerarema ainda criança e, mais tarde, desenvolveu profícua carreira de jornalista, cronista e advogado. Divulgou seus textos, principalmente, no jornal SB – Informações e Negócios e na revista Desfile, chegando a publicar um livro, Menino aluado, em 1967.

Lins morreu prematuramente, em 1975 (aos 38 anos), quando, em Santo Amaro, numa passagem de nível, seu carro se chocou contra uma locomotiva.

De acordo com o pesquisador e organizador do trabalho, Lins, seu amigo de Buerarema, foi uma espécie de “pai” da crônica regional, considerando que Fernando Leite Mendes, com temática ligada a Ilhéus, pouco viveu aqui . “Mais tarde, esse gênero teria no Sul da Bahia nomes notáveis, como Cyro de Mattos e Armando Oliveira, com destaque para Hélio Pólvora, que publicou cerca de 300 crônicas”, afirma Antônio Lopes.

O happy hour de lançamento terá ainda um bate-papo com o organizador e outros intelectuais, sob o título geral de “Ternura e resistência em ásperos tempos”, coordenada pelo jornalista Ramiro Aquino.

PARODIANDO O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, (OBRA PRIMA DE ALDOUS LEONARD HUXLEY). VOCÊ LEU?

Por Mohammad Jamal.

Maquiavelismo-oportunismo. Quando o Estado se sobrepõe à vida das pessoas, certo grau de corrupção exerce um efeito benéfico sobre o caráter das mesmas. Mas, apenas quando até determinado ponto, é claro; uma vez que o estado se torne o todo-poderoso e a corrupção oficial também se torne total como assistimos, ambos sufocarão a criação de riquezas, e haverá um empobrecimento generalizado. No final desse processo, será constatada uma desmonetarização aguda da economia, tal como se deu no comunismo e socialismos.

Eu quero mamar. O Brasil, não obstante sua aparente pujança, está chegando a esse estágio, economia e finanças enfraquecidas, governo débil, ordem social vulnerável, justiça lenta, gigantismo dos delitos contra o patrimônio da nação e aceleração da corrupção em todas as frentes delegadas por critérios meramente políticos a agentes incompetentes.  O país agoniza, seu povo sofre e morre de inanição, carentes ante as privações impostas pelo estado via omissões, incompetências, desvios e corrupções praticadas sistematicamente por entes investidos no Estado e dos altíssimos custos para a manutenção dessa máquina pública sequiosa e servil que sustenta luxos e mimos nababescos aos três poderes da nação, cuja conta bancamos em lágrimas secas.

Votos de safra. Mas nossos políticos, especialistas do agronegócio eleitoral, sempre se mostram espertos o suficiente para não necessitar abater sua fonte produtora, matar a galinha dos ovos de ouro, de onde os preciosos zigotos albuminados são pontual e sistematicamente extraídos sem anestésicos; do ovopositor do povo, sem gemidos ou reclamações pontuais.

Cevando o porquinho. Quanto mais a sociedade enriquece, mais se pode extrair dela na forma de impostos. Nesse sentido, o que é bom para os negócios é bom para eles, os políticos corruptos. Nessas circunstâncias, o uso da influência pessoal e do suborno praticados por um ente público no balcão da corrupção para locupletamento pessoal e/ou do seu grupo político pode representar um valioso incremento e prova de eficiência no fortalecimento do capital político concomitantemente à discreta evolução nos negócios e meios circulantes financeiros do país, sem evidências, alardes ou estrelismos que caracterizam os repentinos novos ricos de primeiro mandato.

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RODRIGO MELO É UM DESVELADOR DO COTIDIANO

O escritor Rodrigo Melo.

O escritor Rodrigo Melo costuma compartilhar escritos no Facebook. São pequenas histórias com a marca do seu talento para desvelar os sentidos do cotidiano – aberturas para o desembotamento da cotidianidade.

A narrativa abaixo é um exemplo dessa capacidade de provocar o estranhamento diante das situações do dia a dia, do que costuma passar despercebido ou naturalizado, como a violência da legalidade que autoriza a apreensão de um veículo do seu proprietário. O Blog do Gusmão recomenda vivamente a leitura.

“foi ontem à tarde. eu pensava na novelinha que estou escrevendo e na dificuldade em dar um rumo a ela, mesmo com os bons e generosos toques de alguns camaradas – a impressão de que perdi um pouco do jeito pra coisa ou como se repentinamente descobrisse que nunca houve tanto jeito assim. a porra simplesmente travou. mais nenhum coelho sairá daquela cartola. e, se sair, será um coelho magro e meio banguela. de todo modo, lá estava eu, dirigindo o meu gurgel e pensando nessas coisas, quando dei de cara com uma bliz. mas não era uma blitz qualquer. era um troço gigantesco. no meio da pista, uma multidão formada por funcionários do detran, policiais militares, guardas de trânsito e uns sete ou oito guinchos. todo mundo alvoroçado, correndo de um lado para o outro, na agonia de fiscalizar. a mulher parada à minha frente tinha algo na mão, talvez um tablet, e foi naquilo que ela digitou a placa do meu carro. siga pelo corredor!, ela me disse. o que está acontecendo?, perguntei. senhor, siga pelo corredor!!! logo um policial apareceu e pediu os documentos. avisei que a carteira estava vencida, mas que já havia começado o processo para renovar, com exame marcado e tudo, o que era verdade. não adiantou. uma multa. o documento do carro também estava atrasado. apenas dois meses, mas atrasado mesmo assim. senhor, ele disse, o seu carro vai ser levado. bem, não dá pra explicar o que senti. foi terrível. uma mistura de raiva e desânimo. e aquele pessoal lá, parando mais e mais carros, preenchendo fichas, autuando, ao mesmo tempo em que fazia piadas e tomava açaí. policiais, detran e guardas de trânsito interagindo, enquanto eu os questionava se agora iam tapar a merda do buraco na pista. dava pra ver um enorme buraco de onde estávamos. ninguém respondeu. assinei um papel, tomaram a chave do carro, jogaram dentro de uma caixa onde havia mais umas trinta e me liberaram. pensei que era assim na época das cruzadas, quando invadiam e pilhavam cidades inteiras. pensei na porra da novelinha, que empacou. e caminhei até o ponto de ônibus. dois caras passaram de bicicleta. olha só aquela porcaria, um deles disse. olhei e vi que falava do meu gurgel. as multas devem valer mais do que o carro, o outro falou. às minhas costas, o sol se punha. o sol da baía do pontal, onde golfinhos e botos nadam, felizes e despreocupados. um sol impiedoso, mesmo às cinco e meia da tarde. um sol incandescente e cor de abóbora feito a camisa do pessoal do detran.”

Rodrigo Melo publicou os livros de conto O sangue que corre nas veias e Jogando dardos sem mirar no alvo e o de poesias Enquanto o mundo dorme. Siga o autor no Facebook.

VAI-SE UM MESTRE

Boris Schnaiderman  (Foto: Fernando Donasci / Agência O Globo)
Boris Schnaiderman (Foto: Fernando Donasci / Agência O Globo)

antonio riserioPor Antonio Riserio/publicado nessa segunda-feira, 23, no Blog do Noblat.

Enquanto figuretas culturalmente insignificantes, de Renan Calheiros a coletivos estudantis, berram sobre a suposta importância de um Ministério da Cultura no Brasil, perdemos alguém que de fato contava – e muito – no deserto intelectual que nos cerca.

Quem conhece o assunto, sabe. É simplesmente impossível falar de Rússia e cultura russa entre nós, impossível falar da presença e do influxo dos russos no Brasil, sem colocar em primeiríssimo lugar o nome de Boris Schnaiderman.

Boris foi um mestre, ensinando-nos a andar pelo mundo da cultura russa moderna. Pelos campos do fazer textual criativo e das viagens pioneiras de artistas e intelectuais russos na dimensão das metalinguagens.

No caso da poesia, juntamente com os irmãos Campos, traduziu para o português criações do mel do melhor feito em língua russa. Pasternak, Iessiênin, Maiakóvski, Khlébnikov, etc., chegando a Vozniessiênski. Fez um livro que é um exemplo simultâneo de erudição e humildade, coisa raríssima: um livro feito de notas aos textos traduzidos – “A Poética de Maiakóvski”.

E não foi só a vanguarda. Boris nos ensinou também a apreciar o verdadeiro Dostoiévski, que, antes de suas traduções, conhecíamos mal e indiretamente, em versões feitas a partir de versões francesas, que sempre disfarçavam em “littérature” o brutalismo do autor de “Os Irmãos Karamázov”.

Trouxe também para o mundo de língua portuguesa, pioneiramente, textos críticos e teóricos de ponta, com o jovem Jakobson e a chamada Escola Formalista (Chklóvski, Eikhenbaum, Tiniânov, etc.). Para nos remeter, adiante, aos estudos extraordinários de Iuri Lotman e seus companheiros semioticistas.

A tristeza é que morre um homem como Boris (como, antes, Décio Pignatari) e a nossa (vossa) mídia não diz nada. Estamos condenados aqui ao narcisismo corporativista. Basta o sujeito ser profissional da mídia que, ao morrer, ela o transforma em super-herói cultural do país. Nem que o cara seja um mero fotógrafo de telenovela, cantor ou autor de reportagens televisuais.

Me lembro de uma conversa com Augusto de Campos, na São Paulo da década de 1970, quando fiz uma provocação geral, dizendo: pelo andar da carruagem, ainda vamos ter uma enciclopédia brasileira de cultura que dedique menos de 10 linhas a Guimarães Rosa e mais de 100 linhas a Erasmo Carlos. Infelizmente, eu estava certo. Esse tempo chegou. E é bem mais feio do que o pintei. De qualquer sorte, deixo aqui, gritando sobre as cabeças-de-camarão dos imbecis, o meu VIVA BORIS!

Antônio Risério é escritor, autor de, entre outros, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” (2007), “A Cidade no Brasil” (2012) e do romance “Que Você É Esse?” (a ser lançado em junho pela editora Record).

PROPOSTA DE REFLEXÃO: CACAU GOURMET E A LITERATURA DE EUCLIDES NETO

O escritor baiano Euclides Neto na fazenda Diamantina, em Ipiaú (BA), em 1991
Euclides Neto na fazenda Diamantina, em Ipiaú, em 1991. Imagem encontrada no site da Folha de São Paulo. Ao lado, dois frutos de cacau.

Editorial do Blog do Gusmão

O cacau gourmet e a fabricação de chocolate com percentuais mais elevados de cacau se revelam como a saída promissora para a lavoura cacaueira.

Este blog é entusiasta desse viés, mas espera que os cacauicultores reflitam sobre o passado, sobretudo, em torno das condições de miserabilidade que atormentavam os trabalhadores rurais nessa região. Aquele modelo arcaico, que concentrava renda, não vai mudar o Sul da Bahia. Acreditamos no cooperativismo e na agricultura familiar como soluções que possam traçar um novo rumo com equidade social.

A realidade verificada em muitas fazendas coloca os “meeiros” como parceiros por necessidade, já que os proprietários das fazendas não possuem condições de arcar com os encargos trabalhistas. Essa relação pode perdurar (com as necessárias adequações) e dar início a um novo modelo na relação com os trabalhadores (colaboradores). Isso não significa abandonar o modelo “celetista”. Os produtores em melhor situação, capazes de sair do modelo “exportação de commoditie” e que fabricam chocolate, podem manter esses vínculos amparados nas leis trabalhistas.

De volta ao passado, a pobreza nas fazendas está impregnada na história oral e no universo literário de escritores como Jorge Amado, Adonias Filho e Euclides Neto.

Destacamos o último, nascido em Ipiaú, ex-prefeito de sua terra natal, precursor da reforma agrária no Sul da Bahia e autor de um romance dramático e formidável (dentre outros de igual qualidade) chamado “Os Magros”.

Nesse livro , o agregado Adão sofre para pagar uma ferramenta de trabalho adquirida no armazém da fazenda. O dinheiro que sobra, depois de abatido o valor das prestações do facão, é muito pouco, só dá para comprar farinha e algumas tripas de boi. Os filhos de Adão comem barro. Quando morre uma criança, a família fica feliz, pois terá uma barriga a menos para matar a fome.

Enquanto isso, a esposa estéril e neurótica de Dr. Jorge, o rico patrão fazendeiro, ameniza seus dramas cuidando de uma boneca como se fosse filha. Hábitos supérfluos e muito dinheiro lhe estimulam a levar sua “descendente” para fazer caro tratamento com um pediatra desonesto.

Os dois cenários revelam dramas, mas o primeiro traz a iniquidade, um traço marcante da civilização do cacau .

Mesmo tendo consciência de que a miséria diminuiu graças ao crescimento econômico e aos programas de distribuição de renda dos últimos anos, nesse artigo, propomos que a literatura de Euclides Neto possa ser o ponto de partida dessa reflexão.

A obra desse importante escritor grapiúna foi relançada em março desse ano e obteve destaque na Folha de São Paulo. Leia aqui. Seus livros podem ser encontrados no site da Livraria Cultura, a R$ 25,00 cada.

JACKSON COSTA ABRE 1ª FEIRA DO LIVRO DA UESC

Jackson CostaA Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) promove, de 21 a 24 de outubro, a 1ª Feira Universitária do Livro. A abertura oficial da Feira será no dia 21, às 19h, no auditório Paulo Souto, na Universidade.

O ator e apresentador Jackson Costa, que participa de projetos importantes para a leitura, abrirá o evento com um “Papo Literário” com Aleilton Fonseca e Ruy Póvoas (escritores e professores), sobre o Tema “Novas Leituras, Novos Leitores”. A proposta é uma reflexão sobre o atual perfil do público diante das possibilidades abertas pela criação de suportes, utilização de diferentes linguagens e a entrada de outros atores no cenário editorial.

O evento contará também com oficinas, palestras, lançamentos de livros,  contação de histórias e reflexões sobre a literatura do sul da Bahia.

Clique aqui e confira a programação completa.

INFERNO VENDE 4 VEZES MAIS QUE PADRE MARCELO

Mario Magalhães | UOL

 Acaba de sair o novo ranking do Publishnews, a principal referência do mercado de livros do país. Na semana de 27 de maio a 2 de junho, a principal novidade é que “Kairós”, do Padre Marcelo, perdeu o segundo posto para “O silêncio das montanhas”, de Khaled Hosseini.

“Inferno”, romance de Dan Brown, continua tranquilo em primeiro lugar, com 23.729 exemplares vendidos na semana. “Kairós” somou 6.443. Arredondando, a média é de quatro por um. Embora faça o levantamento mais amplo, o Publishnews  dá conta de 30% a 50% do total de cópias comercializadas, conforme projeções que já ouvi de editores e livreiros.

Suponho que tenham sido feitas muitas brincadeiras com o título do sucesso de Brown e o nome do Padre Marcelo, mas não resisti a perpetrar mais uma, com o “placar” lá em cima. Para conhecer a pesquisa completa do Publishnews, basta clicar aqui.

Registro obrigatório: muitos grandes livros jamais alcançaram as listas de best-sellers, que tantas vezes são ocupadas… deixa pra lá.

WALDENY ANDRADE CONCLUI O LIVRO “VIDAS CRUZADAS (CONFISSÕES DE UM ENFERMO)”

waldeny
O Mestre Waldeny Andrade.

O jornalista e radialista Waldeny Andrade concluiu o livro Vidas Cruzadas (Confissões de um enfermo). Com cerca de 280 páginas, a obra está em fase de editoração.

As tramas do livro são narradas em terceira pessoa e acontecem em Ilhéus e Itabuna, entre os anos de 1957 a 1969, final da era dos “coronéis do cacau”.

O livro, uma espécie de “flash-back”, mistura fatos históricos e ficção sobre dramas reais cobertos por Waldeny no início de sua carreira profissional.  As histórias se interligam para um final surpreendente ao leitor.

Um pouco da trajetória do Waldeny Andrade.

Em 1969, como 1º suplente, assumiu o mandato na câmara de vereadores de Ilhéus, mas foi cassado pelos militares que o consideraram comunista e subversivo; foi responsável durante 29 anos pela direção geral da Rádio Jornal de Itabuna e do Diário de Itabuna; recebeu 8 troféus Imprensa do Cacau, como melhor comentarista político e melhor diretor de rádio e jornal do Sul da Bahia.