Feios, sujos e malvados.

Por Mohammad Jamal.

Um olhar sobre a truculenta violência exibida por supostos concessionários do poder entronizados na Corte do governo em data da coroação do Rei. Te encho de porrada; te quebro no pau (vergão); te mando ao pelourinho, seu isso, seu aquilo… (Que acho assaz prudente omitir as nomenclaturas). Você não sabe com quem está falando! Coitado, esqueceu a própria personalidade e aquela enorme placa onde se inscreve “SOU PODEROSO”!

As perdas momentâneas do autocontrole, do equilíbrio emocional, da razão ou, o tal do “ir pra cima”, tinham em recente passado, raras e pontuais ocorrências episódicas. Com o evoluir do tempo, passou à condição de usual e corriqueira, sobretudo, quando nos referimos às emolduradas classes sociais mais altas e, àquelas ligadas ao poder político direta ou indiretamente, cujas personagens são mais susceptíveis e vulneráveis a esses convulsivos chiliques midiáticos; claro, sem se dar conta da própria vulnerabilidade na fugaz labilidade do ambiente político, seus gradientes hierárquicos, seus humores. – na Rússia Czarista, a esposa ou mãe do general era investida ao posto de “Generala”! Encontre em O Idiota,( Dostoiévski) a Nastássia Filíppovna, nas obras de Sergueievitch Pushkin, Nicolai Gogol, etc – Não raro, essas refregas de furor na sua quase totalidade, não passem de simbólicos cânticos de guerra territorialista, como o dos pássaros que delimitam suas áreas de alimentação ou dos sapos-boi que bufam contra invasores que se insinuam para suas sapas no seu charco. Nada que se conclua em olho roxo; dentes amolecidos, galos e pintos à cabeça (pintos galinhos) ou coisa que exija uma visitinha ao médico particular ou o disfarçar-se atrás de um óculo escuro de alguma grife famosa tipo Oakley; Fendi ou Prada, dentre outras preciosidades mais caras do mundo Top. Chilique é coisa de gente chique; grã-fina e importante. Não é pra nós não. Aqui em baixo, no proletariado, agente sai é no pau, na porrada mesmo; depois vai pra fila do SUS, sem frescuras ou pudores tomar uns pontos; curar as lesões corporais, sem B. Os. Raras diferenças ficam pra depois.

Povo quando azeda, é porque sofre de Síndrome congênita da Brutalidade Social Periférica. Famosos quando se exaltam é Síndrome traumática pós-estresse ou, o tédio existencial, longe de Aspen, Veneza, Paris… Quando os sintomas são mais brandos dizemos que a pessoa tem episódios de descontrole emocional, mas quando são tão intensos a ponto de causar graves prejuízos pessoais pode caracterizar um transtorno bipolar, comuns em Secretários e outros serviçais. Tem também a distimia, que refere ao “mau humor” continuo, considerado como um tipo de depressão. Quando não faz parte da personalidade desta pessoa, tendo sido iniciado, quando em políticos, a partir de algum momento específico e nunca mais retrocedeu depois de mandatos consecutivos ou intercalados. São as pessoas que tem a irritabilidade como uma característica marcante e constante, quando no poder. São ameaçadores, desconfiados, combativos e destrutivos. Talvez por decorrência da má interpretação das intercorrências da própria existencialidade… A vida é tão fugaz. No derradeiro momento da morte, todos exalam o mesmo fedor, sendo que alguns até necessitam socorro, porque no final cagam e urinam a cama, a despeito do dinheiro, da classe social; o do poder… Sem privilégios com o Ceifador.

As pessoas emocionavelmente inflamáveis e explosíveis são aquelas que têm a irritabilidade como uma característica marcante e permanente. São ameaçadores, desconfiados, arrogantes, combativos, irascíveis e destrutivos. Se você tem a agressividade exagerada e, por qualquer motivo perde a razão, grita, xinga as pessoas; faz gestos obscenos; pode se tornar indesejada no ambiente social e profissional. Afinal, ninguém gosta de conviver com alguém que, intolerantemente, possa explodir a qualquer momento. A raiva convertida em agressividade intensa é também um comburente perigoso, pois, o colérico raivoso não pode prever de que maneira a pessoa que é alvo de sua cólera vai reagir. Não raro, vemos em noticiários que brigas banais no trânsito, por exemplo, terminem em morte. Portanto é bom tomar cuidado com ataques súbitos de furor verbalizado tanto quanto àquele em que o furioso empunha em riste o dedo anular com definida conotação performática de invasor reto proctológica! O dedo fálico do urologista atemoriza até os mais despudorados valentes.

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Cartas do inconsciente

Por Mohammad Jamal.

Carta apócrifa. Agora, após ler a sua carta, e de  não queima-la, como me recomendaste, e de devolve-la íntegra a fim de demonstrar que não foi utilizada para nenhum outro fim, senão a confrontação do seu conteúdo e caráter; acredito que este seja o momento azo para radiografar-me como réu ante o meu autojulgamento e, de expor o meu diagnóstico e libelo sentencial.

Banco de dados. Sou um incorrigível colecionador de memórias e as utilizo para sobreviver ao passado e adaptar-me ao negro presente que vivencio. Nada escapa à sensibilidade perceptiva da minha memória, que a tudo registra, que a tudo recupera e tudo conta, anota e guarda. Agora mesmo, após acabar de ler esta carta apócrifa eu contei a minha idade. Contei meus anos e descobri que com os meus setenta e dois, terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Alhamd lilah, Graças a Deus.

Aos 72 anos, sinto-me como aquela menina que ganhou uma cesta de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicentemente, mas percebendo que faltam poucas para o fim, rói agora até os caroços. Eu certamente teria reservado as mais maduras, doces e suculentas para o final e as degustaria lentamente. Eu compreendo que a cor tem muito mais importância quando nos retiram a luz.

Agora tenho pressa. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Nem aquelas passando à limpo familiares. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, seus bens, seus talentos. Eu não tenho nada. Eu não quero nada de ninguém a não ser a mais sincera espontaneidade. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, utópicos. Não participarei de conversas em que se estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de fim-de-semana com a proposta de se atingir a essência da mais profunda espiritualidade. A minha alma já está ao alcance da minha mão! Já não tenho tempo para reuniões intermináveis, meramente circunstanciais para discutir estatutos, normas, procedimentos, regimentos internos e vida alheia. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica pesar sobre os ombros, são imaturas, vaidosas, pedantes e inseguras porem, perfeitas ante seu próprio julgamento.

Sem lenço e documento. Não uso mais o relógio. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos a limpo” onde tentamos sem sucesso auto explicar-nos, nos fazer entender ante o tamanho desinteresse claramente demonstrado pelo nosso interlocutor mouco.

Dezena do porco. Aos setenta e dois, aprendi que a solidão e aridez do deserto são muito mais reconfortantes que o aconchego dos oásis onde se aglomeram egoísta insensíveis que brandem suas espadas afiadas; que cospem e atiram excrementos a esmo. Jurei para mim mesmo, que não serei mais uma vítima do ódio amigo nem do revide da maldade semiperdida que resulta de batalhas travadas em egos estranhos, totalmente desconhecidos. O estigma da autoafirmação, da individualidade e do ufanismo, da auto realização que a tudo esmaga e destrói conscientemente, por conta do brilho que se supõe irradiar. Divindades materialistas.

Kaol no latão. Aos setenta e dois, aplico o brilha-cobre na minha frágil armadura emocional. Preservo-me. Parece-me coerente a busca pelo amparo da alma contra novas cicatrizes que nos impõem o superficialismo e a incompreensão humana. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pela predominância majestosa e posição que supõem ocupar no espaço restrito da vida ou da administração da empresa familiar, cargo que supõem vitalício, embora saibam-no efêmero. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…o fim está próximo. O que é a vida senão uma luta incessante pelo adiamento da morte? A vida é o tempo, inútil ou não, estamos a cada dia mais próximos da beira daquele precipício ao fundo do qual nos espera uma desconhecida, ansiosa, de braços abertos, a amante fiel, a morte na dimensão quântica do imensurável. Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver o tempo que me resta ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir de seus tropeços, que não se encante e nem ufane com triunfos ocasionais, que não se considere eleita antes da hora, não fuja dela e tampouco negue sua mortalidade, que defenda a dignidade dos marginalizados, que tenha a humildade de dizer, errei, a grandeza de dizer, desculpe-me, a coragem de demonstrar amor em palavras e ações sublimes e que deseje tão somente andar ao lado de Deus. Verdadeiramente!

Fantasma, não. Quero agora, aos setenta e dois anos, caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, não de miragens, fogos fátuos. Desfrutar de um amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena e disso, não me foge a certeza.  Uma certeza que povoa minha realidade de sonhos e me orienta para o final da trilha que já começo a vislumbrar na curva do horizonte. Não me atrevo a aconselhar ninguém, quem sou eu para isso? Não tenho estatura para alcançar a verdade absoluta do existir. Entretanto, me ocorre lembrar que reler aquilo que costumamos escrever para alguém ou para si próprio, é um exercício salutar de auto avaliação. As palavras como o mar, mudam de cor segundo a configuração do firmamento que refletem. O pensar é tão abstrato quanto a dor. É por isso que o pensar às vezes dói, dói num lugar onde não sabemos situar a dor. Possivelmente na alma que desconhecemos.

Mohammad Jamal é literato e articulista do Blog do Gusmão.

O Big Brother de Brasília

Por Mohammad Jamal.

Sobre discretas mudanças na política e a ambivalência comportamental de alguns daqueles que a praticam como ofício maior; valho-me relembrar um diálogo com expressão muito característica porem, condizente, lida numa das obras do grande filósofo do existencial, o escritor Nelson Rodrigues: “a Tereza, aquela que era prostituta. Lembra-se? Pois é, finalmente deixou a profissão. Agora é Garota de Programas!”. 

Cuidado! Tem um nabo enorme! Ah… Aqueles olhos azuis encravados naquele resto angelical coberto em pele de nenê, rosa avermelhada. Aqueles dentes alvos emoldurando sorrisos parcimoniosos. Uma voz profunda que oscilava métrica e tons entre o bravíssimo maestoso da veemência e o Allegro ma non troppo da coerência harmônica para a conformidade entre seus pares. O cabelo branco imaculados lembrava aquelas neves, perene dos picos do Himalaia, inspirava-nos respeito e admiração! O seu porte físico imponente e elegante lembrava-nos o Encouraçado Potemkin navegando os mares bravios do Atlântico Norte nos corredores do congresso nacional. Sorria, o resgate e a salvação estão a caminho! Mas para a tristeza de todos, pior ainda, dos seus pares, quem poderia imaginar? Esse homem carregava um enorme nabo fálico-ofensivo sob seu elegante vestuário Black tié.  Ele era O Homem do Nabo Oculto, e ninguém sabia!  

Convescote de comensais. Amigos parceiros, inimigos parceiros no crime, inimigos utilitários, ferramentas. Esta é a sequência da lógica instrumental que integra o senso aglutinador que harmoniza parcerias ambivalentes entre indivíduos falso divergentes, mas, no entanto, convergentes nas metas, na maioria das vezes grosseiras derivações da ética, tripudiada descaradamente. A moral é achacada e corrompida para favorecer a obtenção de bens financeiros e materiais por meios capitulados como criminosos. O embornal do suborno não tem fundo.

O previdente têm pregas seguradas contra sinistro! Nada pior que um “amigo” boquirroto, exageradamente confiante, daqueles sem modos ao meter a mão no alheio. Um novo-rico-espalhafatoso e, pra completar, medroso à cana. Como Narciso, ele treme ao ver à própria imagem refletida nas telas da tensão superficial dos líquidos em poças de esgotos; comentada nas reuniões do condomínio; na Feira de Carangola. Tem medo de algemas, treme e se borra todo só de ouvir falar Ministério Público; ainda bem não se falou em pau-de-arara e ele já vai rasgando o verbo, contando tudo, melando todo mundo, “ate quem nada tem a ver com as suas ruidosas defecadas”. O Tomás de Torquemada ainda que se encontre a léguas de distância da fortaleza carcerária em que está claustrofóbico, detido a pão e água. Más o frouxo e medroso-infrator a essa altura já redigiu voluntariamente seu libelo confessional sem esquecer mínimos detalhes; contou ate sobre aquelas moedas que surrupiou da Caixinha da Abadia, exagerando em minudências desimportantes!

_ Ah! Assim não dá pra segurar nem a sombra de um tênue corporativismo autopreservativo entre lideranças!

Para salvarem os próprios pescoços e seus nome dos respingados perdigotos cuspidos a esmo pelo língua-solta; para livrar-se de algum fortuito envolvimento – involuntário, ou só por questões humanitárias – por coparticipação, conivência, omissão; unem-se as irmanadas pelo pecado venial, pré-perdoados; figuras que já passaram perto da fornalha acesa, mas morna da justiça, de que escaparam por pouquíssimo, talvez por um mínimo viés jurídico, um parcimonioso Agravo Restringente, através a salvadora e libertária Delação Premiada! Peidam e cagam no ventilador ate aquilo que nunca comeram. O mote é levar juntos consigo toda a patota mão-esperta para a prisão domiciliar nas suas mansões à beira do Lago Paranoá, na Vieira Souto, Ipanema, Jardins, melhor tê-los fora do tatame político.

Sabia que, para produzir uma escultura de Cristo no século 16, Michelangelo teria matado a facadas um rapaz que lhe servia de modelo? O crime teria sido cometido para que o artista pudesse dissecar o cadáver e estudar os músculos. Os biógrafos do artista dizem que ele tinha gênio difícil e era egocêntrico – características, no entanto, que não são suficientes para motivar um crime. Mas há quem acredite nisso. No fragor da guerra do salve-se quem puder, malham sem dó ou piedade, o atabalhoado réu trapalhão. Salvam-se só os desesperados ante a sombra velada do cadafalso, escudando-se à custa de uma enxurrada de imprecações infamantes contra réu, fermentadas pelo fervilhante desespero de ter reveladas a público, singelas aberrantes de inculpabilidades por dolo financeiro e por impudicícias carnais praticadas em hotéis reconhecidamente familiares, com participação de moças e rapazes sem pudores; derrapadas que devem permanecer implícitas, tacitamente subentendidas, longe da sua quase imaculada biografia dos senhores vestais. Daí os voluntários e midiáticos enxurreiros; um enorme chorume de denuncias veementes e inefáveis, “para ajudar à Justiça” e, punir exemplarmente ao pré-réu, boquirroto mártir que está no prelo, rabo recheado de dinheiro, sendo temperado para o micro-ondas.

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A alegoria do incidente em Ilhéus

Por Mohammad Jamal.

O Incidente em Ilhéus. O incidente aconteceu na Rua Araujo Pinho. Passeios estreitos, carros sobre as guias dos passeios, vendedoras de capinhas e películas para celulares, tudo apertado, vocês sabem… Foi ali, perdido nos meus pensamentos que o asteroide me atingiu. Senti aquela coisa enorme e pesada esparramar-se esmagadora sobre as minhas costas. Era uma mão, não um mamão – na literatura antiga escrevia-se “u’a mão” – Era u’a massa de carne adiposa, mal coberta com roupas em desconformidade, apertadas; arrastava os pés inchados nuns chinelos enormes e, tinha no que chamamos rosto, oblongo, duas coisas parecidas com grandes almofadas; eram as bochechas tingidas de sangue, orlando um nariz ameaçador atufado de rapé logo acima de uma abertura, que deveria ser a boca, ungida pela filosofia dos borrões em vermelho pastel dos batons baratos e pintores anônimos.

Tremi, confesso; quando o senti o peso daquela mão enorme, uma pata de elefante da mulher paquiderme quase soterrar-me sob seu peso. Voltei-me, ou fui voltado ante a força descomunal empregada pela mulher adipócita cuja circunferência passava de um metro de raio encimada por uma cabeça minúscula para um rosto enorme. Aterrorizado, silencioso, ouvi quieto a sua expressão pantagruélica em forma de crítica. _ “O senhor escreve demais. Seus textos são longos e cansativos”. Eu: a senhora está certíssima. E fugi apavorado pelo medo de ser esmagado como um piolho entre as unhas de Gargântua, personagens de François Rebelais em “Gargântua e Pantagruel”.             

Conformidade humanista. A sensibilidade literária enquanto doutrina e os pressupostos que a constitui assentam na idéia de que o homem, enquanto inatamente virtuoso e benevolente, deseja de modo sincero o bem estar de todos e, consequentemente, é capaz de sentir e compreender não só as suas próprias emoções, mas também aquelas sentidas e experienciadas por outrem. Os ideais patentes nesta doutrina do século XVIII assumem-se como características indispensáveis enquanto definição do caráter do indivíduo, e em sentido mais lato, de ética social, de moralidade pública do humanismo.

Na serra fria e brumosa. Lembro-me que lá em casa tínhamos uma ampulheta muito antiga, uma relíquia que eu admirava extasiado. Ela servia para marcar o tempo das aulas de piano e por quanto tempo eu havia me dedicado aos meus estudos formais. A velha ampulheta teria sido dada de presente por meu avô a meu pai, por isso, ela ocupava lugar de destaque sobre o piano, enquanto o executávamos e depois, sobre a estante, imponente frente aos inúmeros livros, como se uma guardião das memórias que a literatura havia aprisionado.

As areias do tempo. Eu passava tempo admirando a ampulheta, ela capturava minha imaginação de uma forma que nunca vou saber explicar. A abertura pela qual escorria a areia é tão pequena que, à primeira vista, parece que o nível da areia da parte superior nunca se altera. Aos meus olhos de criança, transparece que a areia escoa apenas no final e, até que isso aconteça, não vale à pena pensar e falar a respeito. Ate o ultimo instante, quando não há mais tempo, quando não resta mais tempo para pensar a respeito daquele tempo impregnado de poesias, doces lembranças.      (mais…)

Ilhéus da depressão

Por Mohammad Jamal.

Chá de pilhas, arrebites. Há coisa de duas décadas a ciência farmacêutica nos brindou com duas descobertas em forma de pílulas miraculosas. A uma se atribuía a completa extinção da disfunção erétil, o Citrato de Cidenafil; e com a outra, se decretava em definitivo o fim da depressão que atinge 20% da população mundial, com a Paroxerina, mais conhecida por Prozac. Dizia-se que a nova compreensão da neuroquímica tornara-se tão avançada que em breve seria possível desenvolver e ate variar nossas personalidades segundo as preferências de cada um. A partir daí, não haveria mais espaço neuropsíquico para as angústias e depressões humanas. Dizia-se à época, que pessoas submetidas a tratamento com a Paroxetina não tinham apenas superado a depressão, mas também haviam se renovado completamente e até aperfeiçoado suas personalidades.

Exercício ilegal da profissão? O tempo passou trazendo milhões de dólares em dividendos aos acionistas das multinacionais farmacêuticas e, não obstante às prescrições maciças dessa como de tantas outras substâncias de semelhantes indicações para milhões de pessoas, essas “maravilhas químicas” não conseguiram reduzir significativamente o total da miséria humana e sua perplexidade diante da vida, diga-se, dura vida para a maioria. Alguém que tenha lido mínima parcela da grandiosidade da obra de Shakespeare não se surpreenderia com essa decepção. Quando MacBeth pergunta ao médico:

“Cura-a disso. Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que oprime o coração?”. Ao que o médico responde lacônico: “Para isso deve o doente achar os meios.”. Seria ele um doutor do SUS?

Adereços e badulaques arquitetônicos. Quanto mais levada ao absurdo exagero, a decadência exala para alguns, seu charme contemplativo; um contemplar que é uma mistura de arcaísmo arqueológico que aceita e desafeiçoa o belo degradado ao abandono e, acolhe com naturalidade a morte prematura do contemporâneo. Algo parecido com a visão das múmias e seu exotismo mórbido como remanescente mudo, iconográfico de um passado de grandezas, contudo, sem haver suportado o peso do tempo e a desídia da imortalidade que mal conservou os seus restos sob as pirâmides do vaidoso egocentrismo, algo objeto que supunha eternizado.

É Lula Livre? Há romantismo nas ruínas sim, e de fato elas são românticas a ponto de abastados cidadãos as reconstruírem em cópias suntuosas nos jardins das suas opulentas mansões como agradáveis e melancólicos lembretes sobre a transitoriedade da existência terrena. A propósito. Aí vem a exemplo, Ilhéus, que já teve faraós e pirâmides de mármore; seu passado de riqueza e opulência aos moldes dos egípcios e dos europeus; consideradas as devidas proporcionalidades. Pena que naqueles tempos, ha décadas, não se projetavam prognósticos sobre a macroeconomia, o agronegócio, tampouco se imaginava que a árvore que paria dinheiro pudesse um dia morrer de eclampsia, neoplasia ou abatida por um simples e corriqueiro fungo lançado por um terrorista socialista que lhe atingiu mortalmente “as partes” falindo irremediavelmente a cornucópia da riqueza que brotava das cultivares quase sem tratos culturais, seus frutos dourados sob o calor úmido à sombra de outras árvores desimportantes, jaqueiras, tangerinas, pinhas…

As joias da coroa são de micheline e latão, mas joias!  Mas voltemos à triste Ilhéus, à dura realidade que envolve aqueles remanescentes sem eira nem beira e aqueloutros, com alguma beira duramente economizada ou com pouca eira, produto do trabalho. Podemos dizer que naqueles tempos fartos de outrora, imprevidentes ou não, perdulários, nababos, chiques degustadores das delícias e prazeres mundanos, de cujas roças de cacau manavam rios de dinheiro em duas safras e duas bongas, que dissipavam grana como nababos nos vales das delícias, mereçam alguma inculpabilidade. Quanto a isso, aos festins e ao luxo não cabem censuras ou críticas. Como diz Adelaide: “é meu, dou a quem quiser.”. Concordo plenamente. Quando adquiro uma camisa nova, já saio da loja vestindo-a! A vida é efêmera.

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Dos medos, o pior. Um breve ensaio

Por Mohammad Jamal.

No livro, Virginia acorda de mau humor, sentindo-se triste e “indócil como um lobo” (p. 2); a irmã, Vanessa, faz de tudo para alegrá-la, sem sucesso, até que tem uma ideia: dar vida ao desejo de Virginia de ter um lugar perfeito para onde voar quando tudo parece ruim e sombrio. Entra em cena, assim, o poder da arte e o da imaginação criativa, capazes de amenizar a tristeza e ajudar no enfrentamento dos humores e sentimentos mais difíceis. A história de Kyo Maclear possui diferentes camadas de significado, que podem ser lidas de modo independente, mas que se complementam, contribuindo para a compreensão geral, sobre tudo do medo atávico.

Falar sobre medo é algo muito complexo e paradoxal, tendo em vista as singularidades do ser humano e as infinidades de fatores psicológicos capazes de desencadeá-lo. Medo de dirigir, medo de morrer, medo de baratas, medo de assombração, medo de envelhecer, medo de não se reeleger ou de ser investigado pela PF, medo da opinião pública, da imprensa, etc. São tantos que elencá-los seria impossível.

Além do sofrimento psíquico vivenciado pelo indivíduo fóbico, junto com o medo e a fobia, vem o sofrimento físico, as reações orgânicas e fisiológicas alteradas por conta de um estado de forte emoção e angústia. Gastrites, diarreias, alopecia, perda da libido, distúrbios do humor, alterações oníricas, pesadelos vívidos…

“O medo não é uma emoção patológica, mas algo universal dos animais superiores e do homem. O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer.”. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109)

Boi da cara preta, um acalanto; canção e letra ingênuas, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninavam seus filhos, já foi uma das formas mais rudimentares do canto que induz a gênese do medo na infância, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Essa formula muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror fantasioso, sentimento que as nossas crianças devem afugentar dormindo. A mente de quem cede a esse medo fantasioso e alegórico certamente crescerá tendo o medo como uma referencia no mínimo limitante; uma barreira escura onde se esconde o incógnito desconhecido que faz suar suas as mãos, a boca fica seca e coração taquicardíaco. Isso é medo; não se confunde com fobias.

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O CASO DO DIAGNÓSTICO ERRADO, DEU BANQUETE

Por Mohammad Jamal.

Cena: Kieseweter, nu e sem cuecas, fritando teorias filosóficas imponderáveis na cozinha. Começo citando os exemplos de silogismos que alguns poucos aprenderam no compêndio da lógica de Kieseweter: “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal” – e encerra-se assim raciocínio comum que transparece a todos exato, em se tratando de Caio, mas não em se tratando distintamente de si próprio, sua pessoa, sua própria vida. Caio era um homem em geral e devia morrer. Mas cada um em sua singular autorreflexão não é um Caio. Caio que morra lá quando quiser ou o destino determinar; nós não! Nós não somos o Caio. Caio era um homem ou poderia ser uma mulher em geral e assim poderá morrer quando se lhe aprouver à predestinação. Nós não somos Caio; não somos homem ou mulher em geral, somos homem ou mulher à parte, inteiramente à parte, então porque comigo ou conosco? Porque a morte vem bater à nossa porta assim? Isso é injusto e indevido segundo o destaque que nos autoatribuímos indiferentes às impessoalidades e imponderabilidades dos eventos trágicos que recaem sobre os vivos como meteoritos, sem destinatário certo. Morrer? È ruim!

Ovelha assada com tahine (gergelim) esparramada sobre creme de homus (grão de bico). Núbia passou o resto da tarde muito triste e deprimida; percebera como lhe fora dito, que a morte era iminente por isso arrumava suas poucas coisinhas numa trouxa para retornar às pressas à casa dos pais lá no longínquo interior do sertão de Carangola. Queria beijar os pais e abraçar os irmãos antes de morrer. Não importava trabalhar na cozinha de um simpático casal onde o cônjuge Dr. Apinagé (o nome é fictício) era médico respeitado e famoso na cidade; pois fora ele mesmo que a alertara do pouquíssimo tempo que lhe restava em vida, sinalizando no seu clássico silogismo clínico que nada se poderia fazer para salvá-la do triste evento final; logo ela, na flor da idade?

Dados antropológicos da Vênus Milo de Vidas Secas de Graciliano Ramos no Os Sertões de Euclides da Cunha, a Núbia. Núbia nascera numa família de retirantes das secas nordestinas. Era a 10ª filha numa prole de dezessete rebentos, dos quais nove morreram antes da puberdade, ainda criançinhas. Mas Núbia enfrentou a fome com farinha de mandioca, umbu e rapadura; um café “mijo-de-égua” bem ralo com “biscoito avuador”, vez em quando um preá assado. Mas núbia venceu, cresceu, floresceu e, desabrochou de menina para mulher como uma flor de girassol, uma cabaça de coité, uma mexerica enorme e suculenta. Três vezes por semana à boquinha da noite Núbia caminhava os quatro quilômetros de estrada de chão até o açude, para se banhar. Ah… Era uma festa! Antes disso já estavam por lá à espreita, a molecagem empoleirada nos pés de cobi, entrincheirados atrás das moitas de chique-chique e arranha-gatos para assistir àquele festival de opulenta beleza enquanto descascavam uma jurema sonhada a Núbia. Estou dizendo isso, porque a Núbia cresceu e apareceu com rosto alvo e feições harmoniosas; cabelos negros ligeiramente cacheados, olhos castanho-claros, lábios carnudos; era o retrato da brejeirice. Os ombros delicados sustentavam eretos, um belo par de seios túrgidos. Daí para baixo era só alegria! Uma cintura delicadamente fina desaguava a retaguarda num quadril oblongo que conduzia às curvas rotundas das ancas, encimadas como se por duas bandas de melancia irmanadas. Pelo caminho mais perigoso que conduz ao vale frontal, o Nirvana; uma barriguinha aplainada e aveludada levava ao capinzal do vale dos sonhos, que entendo prudente e assaz omitir as minudências do detalhamento. Saltando essa parte pudenda, chegamos a coxas grossas e firmes, produto das atléticas caminhadas para trazer sobre a cabeça os pesados latões com água potável para casa onde vivia com os pais. Fora isso, o olhar e a voz de núbia exalavam um “quê” de “você não está me vendo aqui?”. E foi assim, até o dia em que dona Evipargina, (este nome também é fictício) esposa do Dr. Apinagé, esteve por aquelas bandas arrebanhando crianças que ainda não haviam frequentado uma escola. Foi numa dessas missões da diretora do Grupo Escolar do Município – D. Evipargina era a Diretora – que ela viu aquela moça bonita e forte e a convidou para trabalhar com os serviços domésticos na casa dela, casal sem filhos… E ajudar com o salário à própria família, pai, mãe, sete irmãos que passam por necessidades e desnutrição na caatinga. Caiu do céu com a graça do “Padim Padi Cíço”! E lá se foi aquele favo de mel trabalhar na cozinha e arrumação de casa daquele cordial e bondoso casal: Evipargina e Dr. Apinage. (desculpem o longo parágrafo).

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NÃO COLOU. UM DESAGRAVO PROLETÁRIO

Por Mohammad Jamal.

Notas de Invernos sobre impressões de Verão (Dostoiévski). Há… Eu já li tantas cartas… Incontáveis cartas de diferentes missivistas. Cartas alegres; tristes, funéreas; outras tantas pouco tranquilas; umas desesperadas; algumas efusivas; congratulatórias; algumas duramente incisivas… Determinativas. Também aquelas na forma de comunicado e exortação; de interrupção ao fornecimento da energia elétrica; de água; de acesso a sinal telefônico. O escritor James Howell dizia que, assim como as chaves abrem cofres, as cartas abrem corações! Será? Não abriu o meu. Entre as tantas cartas que li, não esqueço aquelas cartas poéticas que Cyrano de Bergerac escrevera como apaixonado personagem na peça de Edmond Rostand. Lindas de fazer chorar! Li algumas Cartas de Mirabeau cheias de verve e erudição; li as Cartas Persas de Montesquieu, político e filósofo iluminista que, por meio dos personagens Usbek e Rica, os dois persas, o escritor teceu em forma epistolar duras críticas às instituições políticas, dos costumes e da igreja da Paris da sua época. “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.” Este é um trecho da Carta Testamento do suicida Getúlio Vargas, que também li quando ainda adolescente. “Amigo! Por favor, leve esta carta e a entregue àquela ingrata e diga com estou! com os olhos rasos d’água, coração cheio de mágoas…”, (Eu não sou cachorro não.) do saudoso Waldick Soriano. E muitas cartas cessionárias onde li o intenso arrebatamento e paixão de namoradas amantes da minha juventude, tempo em que eu era um livre atirador, carismático, belo e solteiro: “Eu dou sim; contanto que você venha…”. “Se você não vier hoje, eu me mato viu?…”. “Lá em baixo do pé de abacate viu!…)”… E por aí vai. Ainda hoje leio umas poucas cartas que me chegam pelo correio, porque a Internet tomou para si o papel que era do carteiro; hoje, pelo visto, eles somente entregam encomendas e algumas contas documentais. Mas ainda assim há cartas a serem lidas nos jornais e revistas online, é claro; e nos blogs e sites que gozam de alguma audiência entre os internautas.

Para Nietzsche, a confiança do homem moderno no poder das palavras se funda no esquecimento de algo que era evidente quando as criou: elas são apenas uma metáfora para as coisas e jamais poderiam encarnar o seu significado. A recente conclamação que li, por verossimilhança, me fez relembrar aquela fábula bem antiga da raposa e as uvas, porquanto nessa carta a raposa missivista, muito convincente e segura de si, exortava os donos das vinhas a removerem os altos muros; as cercas farpadas e as câmeras de infravermelho, visto que as raposas do pedaço haviam desenvolvido uma forte aversão àqueles doces bagos arroxeados que pendiam dos vinhedos, para não dizer, degustar os pomos de baco, as uvas, estavam deveras difíceis de alcançar. Também me ocorreu imaginar àquela fábula do O Lobo e os Cordeiros; quando Seu Lobo, que dizia ser bom no discurso, postava-se aconselhando os velhos e insones “pastores” a desfrutarem tranquilos as repositórias “siestas” pós-prandiais e, a desfazerem-se dos seus ferozes cães de guarda barulhentos, “latidores e reaças” inoportunos da direita; sob o forte argumento de que os lobos migraram do PTCV Partido dos Trabalhadores Carnívoros Vorazes para a sigla PDVN Partido dos Dietéticos Vegetarianos Naturebas, supostamente em paz com a natureza e o mundo dos ovinos, das riquezas e poder das carnes em geral! Ainda inseguro e abalado nas minhas convicções pelo forte conteúdo cooptativo, diria quase irresistível, estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos que me instavam derribar os muros e cercas; desligar as câmeras; matar meus cães, reacionários guardiões da minha cidadania; mudar meus hábitos, passando a dormir demorada e preguiçosamente; gozar um discutível ócio, deixar tudo pra lá, enquanto a Roma de Nero arde nas chamas vermelhas do fogo socialista/bolivariano digo, o Brasil, desfalece sufocado pela fumaça da queima produzida pelos nossos políticos piromaníacos, dominado pela a ânsia do poder.

O “ídalo” esse “símbalo”, escreve cartas, imagina! Mês passado me peguei lendo a tal Carta ao Brasil. Uma carta, aliás, carta pública, uma espécie de édito conclamatório em tom epistolar, me pareceu escrita pelo boneco de Gepeto; o narigudo e contumaz mentiroso, Pinóquio amputado. Dos bagos que pendiam lascivos dos vinhedos como testículos no verão do Piaui. Nos apelos e méritos epistolares  dos seus argumentos lia-se evidentes frases instáveis como se em pleno surto psicótico do transtorno bipolar, o desespero em busca da sustentação e mínimos respaldados aos seus argumentos de lobo mortalmente ferido, afônico de tanto uivar, por isso apela por questões de saúde, longevidade e, cansado, até transmutara-se de carnívoro voraz para dietético vegetariano e abstemia radical da aguardente de cana; um manso e insípido  natureba em paz com a natureza, com seus nabos e mandiocas fálicas enormes ainda muito assustadiças. Fala sério vai! Ainda inseguro e abalado pelo forte proselitismo/cooptativo da sua verve, diria, quase irresistível; estive à beira de ceder àqueles encantamentos hipnóticos coloridos em pigmentação vermelha do trotskismo leninismos, arremedo bairrista do Simon Bolívar made in Brazil paraguaio. Uma verossimilhança pirateada que beira o grosseiro, diga-se.

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UMBUZADA NO NATAL E SEXO CASUAL COM HORA MARCADA!

Por Mohammad Jamal.

O mingau rançoso. Hoje é um daqueles dias atípicos em que agente não tem vontade de sair da cama nem pra cagar. Não é um dia, é um borrão qualquer. A Aleia está uma bosta. Já nem podemos sair de bicicleta porque em todas direções que se vá podemos morrer tragado por um buracão, uma cratera, um tsunami de esgotos, cair num precipício. Além de tudo, pra complicar, o governador Rui resolver fazer obras na urbe! A aldeia está com suas três principais avenidas interditadas para as meias solas asfálticas a toque de caixa. Pra piorar, em qualquer encruzilhada que se vá passar tem engarrafamentos e um montão de despachos e ebós! Pra quem fazem tantos rogos e maus augúrios?

Salvador Dali, Demóstenes, James Joyce, Victor Hugo, Richard Wagner, também eram loucos, pancada mesmo! Estou num daqueles dias de tédio existencial, quando batem ideias esdrúxulas, esquisitices políticas, desabafos anárquicos, “Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.” (Michail Bakunin), uma tertúlia de maldades e desagravos, decorrências daquilo comemos com ovo nos últimos vinte anos. Talvez por isso a vontade atávica de embarcar para Curitiba num ônibus cheio, lotado; chegando lá, embarco em num luxuoso transporte coletivo que rodam por lá, e vou ate à Unidade Prisional da Polícia Federal curitibana. Lá, grito a plenos pulmões o desagravo que sai das minhas entranhas revoltosas: Lula! Lula cala a boca! Você não faz mais milagres! Leve, alma lavada, volto feliz para a aldeia onde ainda degusto em júbilo minha farofa de ovo.

Sexo casual com hora marcada. Por falar em ovo, ainda em sonambúlica pachorra de ontem, como se diz aqui no Nordeste, madornando, senti um certo desconforto “nas partes”, uma angústia opressiva, constritiva embora ainda suportável. Era a Edimunda, minha nega, me apalpando por baixo do cobertor! Eu: oi nega, é tu? E foi assim hoje acordei cedinho hoje, vendo a Edimunda se vestindo, se arrumando toda pra ir ao comércio. Curioso, arrisquei:

_ Onde você pensa que vai, meu xodó? Assim toda gostosa!

Ela: _ Homi! Eu vou comprar umbu pra decoração de natal e entrada do Ano Novo! Nada de economia; vou trazer uns três litros!

Babaganuche, Tabule, fatuche. Falafel, Zatah! Umbu? Allahu Akbar. … Umbu? Fiquei meditativo, curioso para entender o porquê da relação entre essa fruta da caatinga, o umbu, e as festas natalinas e de Ano novo.  Será que a minha criloira pirou de vez? (Edmunda deu um blond no resto dos cabelos) Tá que nem uma finlandesa.  Da penúltima vez ela deu de fazer um tal de “relaxamento”. Passou um tsunami no cocó, que levou quase tudo; uma péla geral, os cabelos da Edmunda pediram demissão… Foram-se quase todos os fios duma égua, sem aviso prévio.

Umbu no Natal e Ano Novo hum (muxoxo)? Seria Frango com papo recheado com farofa de umbu? E os caroços? Se eu engolir um vai entupir a saída. Detesto umbu.

Edmunda nasceu lá em Andiroba, no meio da caatinga, onde se come umbu ate em velório. Alguém me disse que a Edmunda foi criada com umbu, rapadura e farinha de guerra! Talvez por isso que ela tem aqueles dois umbuzões atrás. Adoro os umbuzões dela. Não passo sem eles; são tão aconchegantes!

To be or not to be, that is the question Caca! Pra que tanto umbu? Três litros! Natal? Ano Novo? Umbu? Inquietações, dúvidas; tantos questionamentos a me varrerem os pensamentos! Umbu?  Será que ela está pegando frete com o vendedor de umbu? Acho que não; ela não dorme enquanto eu não chego lá! É paixão mesmo.

Umbus… Que merda é essa? Contudo, num reflexo pavloviano, balancei meus umbus íntegros e virei pro canto pra mais uma soneca enquanto aguardo Edmunda voltar das compras. Não sou o Macunaíma, mas ninguém é de ferro. Ócio…

Acordei aí pelas dezesseis horas. Logo que abri os olhos topo com aqueles dois umbuzões encarando-me de frente. Edmunda agachada, meio recurvada pra frente, naquela posição de tiro, arrumava um enorme galho de árvore que ela havia enfiado num pote velho cheio de areia. Ela dependurava umas bolinhas de colorido metálico espelhado, em rosa, azul, verde. Tudo muito brilhoso no galho meio murcho, mas ainda verde e cheio de algodões simulacros de neve, neve dos SUS.

Fiquei ali parado admirando em silêncio a silhueta de formas curvilíneas e rotundas que me faz passar noites insones em fainas de serões voluntários e prazerosos. Ah!

Assédio na tora. Levantei-me de mansinho e fui achegando por trás. Dei-lhe um beijo no cangote, cheirei aquele perfume lascivo enquanto a enlaçava já meio interessado, pela cintura. Besta, perguntei no mais erudito Baianês:  Chegou minha nega? Tava roxinho de saudade!

Só aí ela foi me mostrar que os inefáveis umbus já estavam ali mesmo, encapados com papel metalizado colorido, decorando a nossa “Árvore de Natal” como os caros bulbos de vidro nas árvores de gente bem. Também tinha anéis e tampinhas de refrigerantes, representando estrelas e luas. Como pingente, lá na pontinha da nossa árvore, ela havia colocado um enorme pimentão vermelho. Admirado, fiquei mais enternecido ainda quando ela apertando-me contra o coração escondido atrás daqueles dois mamilos macios; disse-me em tom carente e dengoso:

O Presente de Vênus. Neguinho! Este ano a coisa tá preta aqui em casa. Eu economizei pra comprar uma camisa do Coríntias pra te dar no Natal, mas não consegui. Mas não vai passar em branco não. Teu presente vai ser singelo, mas cheio de amor: Vou amarrar uma fita vermelha no meu pescoço para dependurar o Cartão de Natal com dedicatória e, vou deitar em cima dessa manta ao pé da nossa Árvore de Natal pra me dar do jeito que vim ao mundo pra você. Tomara que te agrade!

Ainda meio atônito, senti que algo grande e alegre mexeu em mim.  Sem saber o que dizer ante a iminência de tão delicioso presente; balbuciei:

_ Claro que vou gostar meu pastel de sonhos! Lembra que foi o mesmo presente que recebi ano passado? Continua ótimo, só mudou a fitinha pra vermelha; ano passado foi azul. E os umbus? Sobrou algum?

Ela: _ Sobrou dois, dos grandes! Quer comer agora meu bem?

Ah! Essa fome que não me abandona. Aqui em casa é Natal o ano todo.

Com licença. Vocês não são servidos não! Claro que não.

_ Quero sim xodó! “Tô ino”!

Falei de início que detestava umbu. Pois é… Só aqueles verdinhos, bem azedos, que não como nem no brete, sou bagual tchê!

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.

A GRANDE FAMÍLIA SEM CONTROLE DE FILIAÇÃO

Por Mohammad Jamal.

O cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza. (Drummond) A competição política, sem regras ou mínimos resquícios de ética, acirra sangrenta a concorrência pelo poder onde todas as “armas” aceitas e validadas, fazem exacerbar a libido e a volúpia pela posse, domínio e “administração” do dinheiro público, ou seja, o poder pelo poder. De todos os fatos da política de campanha, ou seria ‘campana?’ o que mais nos choca são as verdades mitomaníacas de ontem metamorfosearem-se cinicamente para mentiras infames no hoje e no amanhã. Mercê dessa logística e estratégia, podemos asseverar algo que todos abaixo ou paralelos a ela já sabem: Não existe negócio mais rentável que o business político, o coronelismo caudilhista que a tudo pode e a tudo fode indiferentes ao povo.

Não entendo como é que alguns optam por corrupção, onde há tantas maneiras legais de ser desonesto. Tem gente falando mal; tem gente desancando os nossos políticos, aqueles que nem sabemos os nomes porque, em segredo de justiça, foram “supostamente” responsabilizados pela quebra da Petrobras, pela dispersão do dinheiro público em projetos políticos pessoais internacionalmente em países economicamente degradados, classificados em 5ª, 6ª etc. categorias. Tem gente metendo o pau por trás, porque pela frente é impossível fazê-lo. Gente insana em atitudes no mínimo impensadas, injustas e descabidas. Imaginem vocês mais esclarecidos, o que teria acontecido se persistisse os prejuízos ao processo democrático e suas decorrentes gravíssimas sobre as últimas eleições livres ocorridas nos Estados e federação, se ainda continuassem usurpando o maciço provimento financeiro “conquistado” na chamada Roubobrás? Teríamos eleições? Teria sido possível realizar um dos menos custosos processos políticos eleitorais da história do país?

Não é suficiente que façamos o nosso melhor; às vezes temos que fazer o que é preciso. (Churchill). Outrora campanhas políticas de tamanha vultuosidade eram capazes de fazer inveja às eleições Norte americanas disputadas entre os partidos Democrata e Republicano. Com certeza, sem a ajuda providencial da Roubobrás, do BNDES, Caixa, empreiteiras e construtoras famosas subsidiadas pela nossa Petrobrás e BNDES, não teríamos podido usufruir da grandeza do votar e escolher a partir de campanhas eleitorais em Redes Sociais, o sublime privilégio de eleger o um novo presidente que nos encheu de esperanças dada à sua conduta e índole embasada no patriotismo cívico das nossas Forças Armadas e o respeito demonstrado à Constituição e seus princípios democráticos.

Midas morreu tísico de fome, pois a tudo que tocava virava ouro! Com as outrora monstruosas fortunas financeiras extraídas sem critérios via “financiamento público de campanhas”; arrancadas sem anestésicos, sem dó nem piedade das entranhas do Estado à vista do constrangimento dos empobrecidos brasileiros e da execração pela imprensa internacional mundo a fora; quiçá teríamos tido campanhas e eleições bilionárias com alguns milhões em sobras a serem usufruídos a posteriori pelos felizes candidatos financiados, eleitos ou não. A Roubobras teria sido dá hora!… Providencial! Mas “No meio do caminho tinha uma pedra.

Tinha uma pedra no meio do caminho.” (poema do Drummond)… No meio do caminho Tinha o Juiz Moro! Tinha a Lava Jato. 

Assalto ao trem pagador. Nesse cenário caótico do mau compartilhamento das riquezas do Estado; deparamo-nos com o pior: os acusadores de plantão que a tudo que some; desaparece inexplicavelmente, surrupiam ou roubam de fato, atribuem aprioristicamente aos pontuais surrupeios das mãos leves do PT e suas bases! Assim também já é demais! Para nosso espanto e de todos os eleitores, até o Zé, heroico sobrevivente do naufrágio do mensalão, agora também aparece integrando a lista dos beneficiados pelos dividendos pagos pela subsidiária, a Roubobras! Generalizou-se endêmica a roubalheira. Ficou difícil encontrar uma sigla partidária que não tenha se envolvido em primárias maracutáias. Para de acusar assim, gente! Estão distribuindo acusadas como se fossem Bolsas do Governo, quando ninguém viu um centavo sequer desse ativo fixo circulante. Digo isso a propósito da torturante dedução assertiva dita entre muxoxos e língua presa, pelo delicado pedicuro e soprano castratti, Abelardo Jurema, Salão Flor de Lis, lá no Barro Vermelho-Vilela, visto quando lá me fui cortar as unhas dos pés: O Jurema:_ “Seu Mamede, com toda essa montanha de bilhões de Reais roubados pelos ‘Red Post Type’(?) e seus parceiros para custeio superdimensionado das suas campanhas políticas; será que eles não estariam pensando em antecipar a implantação de uma neomonarquia absolutista no Brasil?”.  Tentando escapar ao capítulo das transgressões pré-conceituais, passível de prisão, respondi em Árabe, não traduzido aqui: “انتقل تأثيرها زوج”. Que abusado não? De forma geral, contra a politica petista tenho apenas críticas às más administrações, o pouco ou nenhum zelo pelo dinheiro e patrimônio do estado e, destacadamente, sua imensa e prolífica família com milhares de gerações de componentes, dependentes diretos e indiretos, agregados, afins e simpatizantes dependentes do sustento; casa, comida e roupa lavada, que estão custando os olhos da cara do Estado. 

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POLÍTICA? POR FAVOR, HOJE NÃO. JÁ DEU!

Por Mohammad Jamal.

Pessoas iguais ao Fernando Pessoa? Impossível!

Estava lendo o novo livro do Fernando Pessoa, onde, numa de suas prosas poéticas ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana: ‘Para estar ao lado dele sem pesar com a presença física’. Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque acho que não pesar aos outros com nossa presença é em certos momentos, um raro estalo de sensibilidade. Para muitas pessoas isso que chamo de ‘um raro estalo de sensibilidade’ tem outro Nome: frescura.

Faz uma denguice aí vai!

Afinal, todos nós gostamos de carinho, todo mundo quer ser visitado e ninguém deveria pesar com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, mas… Pesa!  Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados: Eu bato na porta antes de entrar no quarto do meu filho e na porta de meu próprio quarto, se sei que está ocupado por minha mulher. Eu perguntava para minha mãe se ela estava livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone.

As grutas de Petra na alma.

Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências cuido para que sejam delicadas. Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do amigo fiel, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Pessoas estão recolhidas ao íntimo dos seus ressentimentos e mágoas, e querem estar sós pelo pudor da própria tristeza.

Lázaro? Ah… Ressuscitou!

Algumas pessoas são como gatos machucados mortalmente. Esses felinos, gravemente feridos, são tidos por nós como mortos, defuntos e, por isso, enterrados, cremados ou jogados ao monturo do lixo. E eis que passados alguns dias do seu retiro, despertam do sono hibernal da morte aparente, retornando fantasmagóricos e recuperados à realidade do mundo dos vivos; para surpresa dos que não conhecem os meandros da alma humana e esqueceu-se das sete vidas do gato. 

A terapia do “eu sozinho”.

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DO ARCAÍSMO CULTURAL E DA HISTÓRIA, DO SEXO DAS COBRAS, DOS PINTAINHOS, DOS ANJOS E NINFAS, DA LIBIDO E DO HOMOEROTISMO

Por Mohammad Jamal.

Longo parágrafo. 

Confessionalmente cabe-me reconhecer que descontando um ou dois problemas emocionais, cresci em circunstâncias seguras e moderadamente confortáveis. Meu irmão mais velho incutiu-me muito cedo o gosto pela leitura fazendo com que a literatura ocupasse boa parte do meu tempo; hoje, amadurecido pela sobreposição dos anos vividos, ela ocupa muito mais; a literatura faz parte da minha vida. As leituras de bons livros escolhidos por meu irmão influíram muito sobre a minha vida na infância e adolescência, tal como ainda influem hoje, quando o tempo tingiu de branco meus cabelos. Foi naquele tempo de garoto que gostava de livros que me reconheci um observador de pessoas, um tipologista autodidata traçador de perfis. Atraiam-me não só os dramas, alegrias e tristezas, mas as pequenas tragédias, os episódios cotidianos, o entendimento dos porquês e como reagia cada pessoa à minha volta às suas alegrias e pequenas tragédias. Algumas explicitamente emotivas oscilavam entre o riso nervoso e as lágrimas, outras, contidas, deglutiam silenciosamente seus problemas, dramas e angústias quase impassivelmente, mas nem assim escapavam da leitura das suas linguagens corporais; coisa que, precocemente, eu já dominara. Eu lia a escrita gestual dos semblantes e dos corpos que falavam idiomas distintos por mímicas singulares. Eu já os traduzira. Na ênfase das palavras e algumas onomatopeias; na audição dos soluços e gemidos, no olhar; eu lia sentimentos os mais diversos e, perfilava-as detalhadamente calçado no entendimento empírico acumulado nos densos conteúdos dos livros que li e me impregnaram a mente. São essas imagens passadas que me permitem devaneios reminiscentes que às vezes compartilho fazendo um contraponto àquele tempo e a modernidade globalizada que o varreu impassível essa percepção para o vazio do esquecimento comum.

Relembrar não é preciso, mas os ecos ainda ressoam: Não vou retroagir muito, isso é lugar comum, cansativamente exaurido em todos os artigos que tratam de reminiscências socioculturais através a história. Estamos carecas desse antagonismo evolutivo monótono e previsível que se arrastou lentamente, retardando a evolução dos costumes e das relações humanas em seu inexorável processo de renovação de velhos paradigmas sociais que obscureciam o concretismo autonômico iluminista, coisa que ainda acena à sociedade moderna em contínuo processo autonomista ainda que crivado por propensões alienistas e singularidades controversas.

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A BASTARDIA PATRONAL, A TUTELA DESLEIXADA E O ABANDONO DA VENERANDA VULNERÁVEL

Por Mohammad Jamal.

Não como a carne do porco, nem as porcas, claro! Neste prólogo, vou começar citando os suínos e galináceos dos criadouros intensivos e nos criatórios domésticos para consumo da família. Digamos o macro e o microcosmo na cadeia produtiva da proteína animal que tanto necessitam os humanos à sua mesa para seu sustento nutricional e ponderal. Mas a citação que faço direciona-se analogicamente aos aglomerados humanos que formam cidades e megalópoles a exemplo dos pequenos galinheiros e chiqueiros domésticos e às mega pocilgas e gigantescos aviários onde se confinam aos milhares, porcos, frangos e galinhas do agronegócio. Porcos, frangos para corte e galinha poedeiras exigem cuidados intensivos e permanente assistência sanitária! Uma pocilga que não é limpa e lavada diariamente resulta em prejuízo. Porcos e bacorinhos emagrecem e morrem vítimas das zoonoses que se multiplicam cultivadas na imundície da sujeira ao abandono. Do mesmo modo, frangos não engordam; galinhas não põem ovo e pintainhos morrem antes da adolescência, expostos às susceptibilidades que infectam o desleixo pela sujeira, imundície ao leu. Comparativamente, cidades e megalópoles; galináceos; suínos e humanos compartilham semelhante ciclo biológico de suscetibilidades e vulnerabilidades higiênico-medico-sanitárias.

Dante relia suas centúrias admirando “Inferno” urbano aqui do alto da lage? Olhando cá de cima do morro, às vezes a cidade em que vivo me transparece um lugar estranho, soturno, insalubre. Ruas que nos eram familiares mudam de cor e aspecto de uma hora para outra. Olho para as multidões e enxergo a apatia e indiferença para com o ambiente em que se confinam volitivamente. Alheias a tudo, elas passam por mim acotovelando-me impassíveis, formando filas intermináveis para um não sei o quê de saúde, sabe-se lá, se física ou meramente humoral porque esqueceram o que é ter esperanças… Galinhas, frangos, pintos também… E ao vê-los assim, me incutem um sentimento de que estavam ali há centenas de anos; é como se ali houvessem criado raízes em busca do próprio passado soterrado sabe-se lá aonde. Seria por esperança de encontrar uma esperança enterrada a sete palmos?

Platão! Aristóteles! Nero! Calígula!… Roma está em ruinas! Com seus parques e jardins lamacentos, cobertos de ervas daninhas; seus espaços abertos desolados como antigos campos de guerra; os seus postes de eletricidade, sem lâmpadas, obscurecem ainda mais o que já está soturno e sombrio em tenebrosa penumbra; esgotos escorrem pelas guias como veias sangrando exudatos apodrecidos. Grandes outdoors escandalizam a venda de tudo e de prédios suntuosos em suas monstruosidades de concreto, menos a esperança abatida em seu voo de galinha. Esta cidade está como a minha alma; vem-se transformando celeremente num lugar vazio e abandonado. As imundícies das ruas e transversais; o mau cheiro das latas de lixo transbordadas e os restos expostos com larvas de moscas a esmo para o repasto dos urubus, dos ratos, dos cães abandonados. As vias públicas corcundas, cheias de calombos, afundamentos, buracos e crateras, são úlceras, como se vítimas da leishmaniose e peste negra. Nesse quadro de caótica desordem, ainda nos submetemo-nos a apertos e empurrões para embarcar num transporte público característico de ferros-velhos, inconstantes e de destino incerto que fazem de Ilhéus o que ela é. E fico me perguntando se a cidade não está me castigando por contribuir para sua miséria, degradação e abandono pela minha simples presença, apático e indiferente à sua desdita, infelicidade e desventura? O que posso fazer por ela? Gritar? Votar naqueles mesmos? Eu votei!

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A DESTRUIÇÃO. TEORIA E PRÁTICA

Por Mohammad Jamal.

Com sua licença! Por favor. Dirijo-me inicialmente àqueles que, ociosos, movidos pela curiosidade, dão-se ao trabalho de ler-me aqui e neste blog. Aqueles que já conhecem a estilística dos meus artigos sabem do onipresente sentido da dúvida com que, precavidamente, me resguardo dos conceitos impositivos e diagnósticos irrecorríveis comuns aos sábios “sociólogos” do nosso cotidiano existencial. Por isso, recorro ao célebre – que não é da TV. – filósofo Sócrates que, humilde, declarou irrestritamente: “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.”. Continuo aprendo e me surpreendendo com as coisas inimagináveis que me vem ao conhecimento, mas fugindo como dizem os cristãos “como o diabo, da cruz”, das adaptabilidades requeridas.

“A catraca do buzu tá travada pra nóis!”. Numa encruzilhada de três vertentes, duas já foram fechadas ao cidadão brasileiro. Já não podemos optar; perdemos o sagrado direito de escolher, estamos índios para a cidadania. Alguém toca o berrante lá no Planalto Central e, toda a manada do proletariado muge afirmativamente. Somos os bois de tração que aram, gradeiam e carregam o país às costas, para o gáudio exclusivo das “nossas lideranças” ou políticos que “pecuarisam” (desculpem o neologismo) o proletariado nos currais eleitorais com clientelismo oportunista barato.

Reflexologia das massas na betoneira do filosofismo. Diante das diversas vertentes que apontam no sentido de que toda ação ou reação políticosociológica advêm da psique e reflexologia das massas; bate aquela humildade socrática, aí me pego muitas vezes mergulhado por dias em textos, teorias e estudos de pensadores famosos assertivos, portanto, difíceis senão impossíveis de se contraditar.  Às vezes vou até textos mitológicos e às tragédias gregas como Édipo Rei (Sófocles); Electra (Eurípedes), Ésquilo, que foram os dramaturgos de maior importância àquela época, em busca das razões da razão coletiva. Aristóteles concluiu que a vida é o teatro do realismo existencial, a cada cena uma surpresa nos impacta.  Ele concluiu sabiamente, que o espetáculo trágico para se realizar como obra de arte deveria sempre provocar a “Katarsis”, a catarse, isto é, a purgação das emoções dos espectadores. Forçar um reencontro entre a realidade íntima mais oculta com a existencialidade cotidiana e, forçar a harmonização entre as suas gritantes diferenças quase irreconciliáveis. Recorri também aos poemas de Homero e até aos textos bíblicos em busca de respostas para essa tragédia que se abate persistente sobre o proletariado.

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O PODER DE PODER NO REINO DE SÃO SARUÊ

Por Mohammad Jamal.

Imaginários ficcionais: Da serie Ilações sobre o Brasil de hoje passado a sujo.

Um levantamento exclusivo realizado pela Revista Congresso em Foco mostrou que cerca de metade dos deputados e senadores da atual legislatura (2015-2018) responde a algum procedimento investigatório no Supremo Tribunal Federal (STF). Ao todo, são 238 parlamentares às voltas com a Justiça no âmbito do STF. Estamos falando apenas dos legisladores, faltando incluir ex-presidentes, ex-governadores, ex-prefeitos, diretores de estatais e de outras instituições no âmbito político federativo. Muitos deles pretendem reeleição, outros almejam retorno ao poder após quatro anos sem mandato; várias centenas de pretendentes novatos também se acotovelam tentando debutar no melhor, mais rentável e lucrativo negócio no Brasil: a política. A caça ao tesouro é brutal e sanguinária. Do cabelo pra baixo é canela! Faz-nos relembrar os Programas Rolaentrando e Tudo Por dinheiro do canal SBT!

A propósito: Há alguns dias tive o privilegio de ouvir numa reunião, à seguinte pérola ou diria diamante, pronunciado por um postulante político profissional de múltiplos mandatos, mas ainda tentando reeleição: “Eu não me pertenço mais. Doei-me de corpo e alma ao povo! Servir e ajudar à sofrida população da minha região é o meu destino. Não sei fazer outra coisa senão trabalhar pelo povo!”. Quanto patriotismo altruísta! Quanta entrega e doação de si por nada em troca! É lindo!

O silencio foi quebrado nos Jardins em Alphaville!

_ Que palhaçada é essa em volta da minha mansão? Sirenes e luzes piscando. Já não se pode jogar golfe em paz no centro de São Paulo? Se continuar assim, vou ter que mudar para minha residência em Dubai. Ananias!… ANANIAS!… Olha aí nas câmeras pra ver o que é isso. Liga pra polícia especial.

Cumprida a determinação, Ananias, após olhar num painel de mais de cem câmeras de segurança, assustado, volta esbaforido com a resposta para o patrão.

O mordomo cearense: _ Doutor, é a polícia!

Bilionário político incomodado.

_ Polícia? Que polícia que nada, eu não pedi nenhuma segurança especial no entorno da mansão… Será que o Damião levou as minhas Yorkshire Mimi e Fifi para passear? Bastava cinco viaturas para a segurança das minhas cadelinhas. Humm… Ananias!… ANANIAS! Olha lá de novo e vê se é polícia mesmo? Se não é aquele japonês pegajoso que mandei encostar? 

Ananias volta às cem câmeras de segurança e retorna correndo, mais esbaforido e assustado ainda. _ Doutor, é polícia mesmo, e tem duas letras douradas nas portas, nos tetos das viaturas e nos coletos pretos que os homens estão vestidos.

_ As letras são PP? (polícia de Político) que está escrito?

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PEGA, MATA, ESFOLA

Por Mohammad Jamal.

Pega, mata… Esfola! – O momento político da cidade é crítico, trágico, patético, dramático, burlesco ou o amargo pastelão embalado por contumazes expertises dos seus personagens no cenário parlamentar? Não sei bem o nome da Operação; se Operação Pega-ratos, Operação Corta Prepúcio, acho que é a Operação Prelúdio! Mais uma tentativa de passar rodo e o rastelo na corrupção que se alastre como pandemia no país. Só que lá na frente, passadas as agruras presenciais impostas pelo rito enérgico e a correição da Primeira Instância, eles relaxam, folgam o cinto e, às vezes, ate gozam o usufruto do Capital integralizado acostado aos Ativos financeiros pelas expertises da corrupção. Nos tribunais as Ações que respondem encontram discreta a discreta cortesia, o aplomb e algum fair-play das discussões recursais em absenteísmo do dos réus, a essa altura, com caras untadas em finíssimo óleo de peroba… E por ai vão.

Caolhos míopes, mandriões estagnados – Em Ilhéus não é diferente. Aqui tudo em si assemelha à transliteração do amargor dramático do Nelson Rodrigues mesclado à intuitiva verve prosélita empregada no sentido literal das Críticas à organização e ao funcionamento da sociedade russa da primeira metade do século XIX, examinadas sob a ótica de Nikolai Gogol. O Inspetor Geral; que, alias, serviu de inspiração ao escritor, dramaturgo e diretor teatral, Romualdo Lisboa, para escrever produzir e dirigir a peça: Teodorico, as últimas horas de um prefeito, levada com muito sucesso aqui e em grande parte no Brasil e exterior.  Na obra de Nikolay Gogol, confrontamos as presenças marcantes do sentido e humor satírico com nítido realismo social. Ele sugere reformas sociais e políticas, embora não fosse um político, para a Rússia. Faz observações minuciosas. Aduz magistralmente a criação de personagens exuberantes. Usou metáforas e simbolismos para escapar da censura do governo russo da época e até utilizou formas de prosas não convencionais e fez uso frequente de elementos relacionados ao fantástico em metalinguagem. À semelhança das situações esdrúxulas tais como as que confrontamos no atual momento político ilheense: densamente tosco e irracionalmente equivocado em suas proporcionalidades exageradas em feéricas fantasias baratas do inexequível.

Quibe de moscas – Vendo sonhos! Bolinhos de Esperanças, de anelos, de indulgência, terrenos no céu, e as porras, tudo embalado na mais fina farinha de quimeras. Está aberta a disputa pela caça ao tesouro! Não aquele tesouro do pirata Barba Negra, nem aquele outro que supõem encontrar-se numa das pontas do arco-íris. É coisa muito maior que fica num califado riquíssimo nas terras das mil e uma noites, Brasília e capitais dos estados das terras brasileiras. Captou?  

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