EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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UM REVÓLVER PARA A NOIVA

Por Daniel Thame.

Maria da Silva (nome fictício) tinha todos os motivos do mundo para estar feliz. Na terça-feira de sol, por volta das 8 horas da manhã, seguia tranqüila para o trabalho, num hospital no centro de Itabuna.

Mas não era o trabalho, ainda que um trabalho que ajuda a salvar vidas, que fazia de Maria uma mulher feliz.

Era a concretização de um sonho: o casamento, marcado para o dia seguinte, com aquele que Maria considera sua cara-metade, o seu par perfeito num mundo de tantas uniões imperfeitas.

Nesse misto de expectativa e divagação, Maria caminhava pelas ruas que dão acesso ao hospital.

Caminhava , como caminha todos os dias, com a diferença de que esse na era um dia qualquer. Era a véspera do tão sonhado casamento.

Portanto, um dia diferente.

E acabou sendo mesmo um dia diferente.

Quando cruzava a esquina, já visualizando o prédio do hospital, Maria nem se deu conta que dois rapazes a bordo de uma motocicleta.

Poderia ser uma surpresa do noivo, mandando entregar flores para a amada. Ou algum colega de trabalho, a lhe entregar o presente de casamento de maneira inusitada. Ou mesmo alguém pedindo informação.

Nem flores, nem presentes, nem um prosaico pedido de informações.

Era um assalto. O clássico assalto que se tornou uma lamentável rotina em Itabuna: o piloto para a moto, o carona saca o revólver e anuncia o assalto.

Tudo muito rápido, em plena luz do dia e presenciado por outras pessoas, que impotentes nada podem fazer a não ser presenciar o desespero da vítima.

Com o revólver apontado ostensivamente para a cabeça, o risco real de levar um tiro dada a brutalidade de marginais para quem a vida (dos outros, bem entendido) não vale nada, Maria entregou a bolsa, com documentos, cartões de crédito, dinheiro e o telefone celular.

Quando os motobandidos saíram, com a tranqüilidade de quem faz um passeio matinal, Maria entrou em estado de choque. Foi socorrida pelos moradores, enquanto aguardou pela chegada dos colegas de trabalho.

Demorou para entender o que havia acontecido e deve demorar mais ainda para superar o trauma de uma violência absurda, que está presente do dia da dia da população, que passa por assaltos aos borbotões e termina nos assassinatos contados às centenas.

Nesta quarta-feira, quando subir para o altar e realizar o sonho de sua vida, Maria da Silva, nome fictício mas vítima de uma violência real, deve sentir um calafrio na espinha quando ouvir o padre dizer a frase “até que a morte os separe”.

Faltou pouco para que a morte os separasse na véspera da consumação da felicidade.

Que Maria, enfim, seja feliz, como merecem serem felizes todas as noivas e todas as pessoas do mundo.

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