Por Mino Carta, para a revista Carta Capital.
Às vésperas da votação do Supremo Tribunal Federal que se decidiu pela extradição do ex-terrorista italiano Cesare Battisti, cinco deputados petistas visitaram José Antonio Toffoli, recém-nomeado ministro do STF. Na qualidade de advogado-geral da União, ele já se manifestara contra a extradição e os visitantes pretendiam convencê-lo a votar na sua nova função, a despeito do claro, inevitável impedimento precipitado pelo pronunciamento anterior. Toffoli não cedeu.
Figurava entre os cinco petistas o deputado José Eduardo Cardozo, aquele que o ministro da Justiça, Tarso Genro, queria em seu lugar quando da sua iminente desincompatibilização, primeiro passo da candidatura ao governo de seu estado, o Rio Grande do Sul. Até terça 2, Genro insistiu a favor de Cardozo. Na quarta, o presidente Lula preferiu-lhe o secretário-executivo do ministério, Luiz Paulo Barreto.
Singular figura, José Eduardo Cardozo, fervoroso defensor da permanência de Battisti no Brasil e titular de um currículo em que figuram contatos importantes, quem sabe decisivos, com Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity. Dele Cardozo foi advogado, soldado a mais de um exército infindo, antes de se eleger em 2002. E com ele esteve na residência brasiliense do senador Heráclito Fortes, juntamente com o colega Sigmaringa Seixas no séquito do então ministro Márcio Thomaz Bastos, em maio de 2006.
A revista Veja acabava de publicar um dossiê que dizia ter-lhe sido entregue por Dantas, a revelar contas de um pessoal graúdo, a começar pelo presidente Lula, em paraísos fiscais. Mais um episódio para enrubescer o arco-da-velha e que em outro país provocaria, no mínimo, investigações profundas e algumas prisões. O ministro Márcio de início negou o encontro com DD, ao cabo, com invejável candura, admitiu: pretendia conhecer as razões do banqueiro. Quanta delicadeza.
Cardápio árabe, duas horas de jantar, conversas sobre condições meteorológicas e futebol, breve referência ao assunto específico. Dantas deixou nas mãos do ministro uma carta de quatro parágrafos, continha as explicações. Deu em nada. Cardozo estava lá. Tarso Genro, à época ministro secretário de Assuntos Institucionais, declarou, com toda a coerência, que se tratou de “encontro institucional”. E que haveria de ser instituído? Um ministro de Estado soletrou nos ouvidos de CartaCapital: “É que o PT tem medo de Dantas”.
Difícil debaixo do Cruzeiro do Sul localizar a origem do enredo. A gente desconfia que financiadores de campanhas sempre sejam bem-vindos, à direita e à esquerda. Ah, sim, a famosa esquerda… Sempre pergunto aos meus perplexos botões qual teria sido a razão que moveu o ministro Genro ao decidir-se pelo refúgio a Battisti. Há quem diga, nos próprios corredores de diversos ministérios, que foi para agradar à esquerda na perspectiva da eleição gaúcha.
Pois aí está: de que esquerda se trata? Daquela que descobriu os prazeres da vida e decidiu apostar no poder pelo poder? Ou daquela que virou tucana, ou seja, herdeira do udenismo velho de guerra? Sim, houve quem resistiu à ditadura e até pegou em armas ao aceitar um desafio extremo. Ou seria sacrifício? Estes eu admiro, bem como as lideranças do PCB, que não apoiaram a luta armada e foram dizimadas pelos agentes do Terror de Estado, os mesmos que torturaram e mataram Rubens Paiva.
Ainda há quem possa ser catalogado como de esquerda neste país, ou seja, cidadãos capazes de entender quão longe estamos de uma democracia autêntica e de como a proclamada liberdade significa nada se desprovida do indispensável e firme empenho a favor da igualdade. Aludo a uma minoria, e se me pedirem para citar nomes, direi, por exemplo, Fábio Konder Comparato, ou Plínio de Arruda Sampaio.
No mais, não me permito analisar a escolha do presidente Lula por Barreto em vez de Cardozo. Teria alguma relação com o caso Battisti? Não sei. Resta o fato de que esta tal de esquerda parece não ter entendido a diferença entre quem luta contra a ditadura e quem contra um Estado Democrático de Direito. Atingimos, assim, a encruzilhada: de um lado a ignorância, do outro a hipocrisia. De um lado o QI baixo, do outro a desfaçatez. De um lado a parvoíce, do outro a cega, granítica, eterna confiança na credulidade alheia. E se houver quem está habilitado a tomar os dois caminhos ao mesmo tempo, para juntá-los em um só?
Resta o fato de que, com o PT no governo, não conseguimos condenar os algozes do nosso Terror de Estado enquanto seguramos Battisti. Recorro novamente aos botões: e se o italiano tivesse militado no terrorismo preto, fascista, aquele que explodiu a estação de Bolonha?
QUEM É MINA?, PELO AMOR DE DEUS, VAMOS LER MAIS UM POUCO, O NOME CORRETO DO JORNALISTA É MINO. NO TECLACO O A ESTÁ LONGE DO O, SE PREPARE MELHOR, PELO BEM DOS SEUS LEITORES.
Obrigado!
Acredite ou não, foi erro de digitação mesmo.