EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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TOTALFLEX RELIGIOSO

Por Otávio Filho.

O mundo em que vivemos é de uma riqueza e variedades sem fim. Existe de tudo para todos os gostos e bolsos. Bolsas Prada ou perfumes de Salvatore Ferragano estão disponíveis para aqueles que integram o seleto clube de privilegiados consumidores. O consumo de luxo alcançou, em nosso tempo de tecnológicas revoluções, a categoria de “espiritual”. Pelo menos, é assim que renomados estudiosos tratam a questão. Basta ver, por exemplo, o que dizem Gilles Lipovetsky e Elyette Roux na obra intitulada O Luxo Eterno – da idade do sagrado ao tempo das marcas, editado no Brasil pela Companhia das Letras: “No começo era o “espírito”. Sem dúvida causará um pouco de surpresa encontrar semelhante proposição “espiritualista” como abertura de uma reflexão cujo objeto é comumente associado a um maior capitalismo”.

A cidade de Itabuna, que fica a vinte e poucos quilômetros de Ilhéus, viveu durante muitos anos o esplendor da riqueza produzida pelo cacau, uma commodity que alcançou preços estratosféricos no mercado mundial. Jorge Amado, nascido aqui, e um dos seus filhos mais ilustres, em sua obra literária, fez o mundo conhecer as delícias, agruras e loucuras produzidas nas matas úmidas deste pedaço de Brasil.

A pujança econômica do cacau foi a pique por conta da vassoura de bruxa, uma praga que devastou a lavoura dos frutos de ouro. Desde então, a região tem vivido um processo de degradação assustador. Emerge dessa trágica realidade um tipo de consumo muito particular: a religião. É bem verdade que em outras regiões do Brasil o crescimento de igrejas, sobretudo evangélicas, é um fenômeno relativamente comum. Mas aqui, na cidade de Itabuna, ele ganha contornos bem especiais e é possível observar, nos mínimos detalhes, como a batalha travada entre a Igreja Católica e a Igreja Universal do Reino de Deus revela a miopia da primeira e os acertos da segunda, no que concerne ao sucesso da aceitação do “produto” oferecido.

As imagens traduzem o desespero de uma e a bonança da outra. Enquanto a Igreja Católica põe por terra a lição irada do Cristo que, de chicote em punho, expulsa os vendilhões do templo, a IURD (Universal do Reino) constrói uma catedral de dar inveja a qualquer religião. A nova Catedral da Fé da Universal do Reino é uma construção realizada em seis meses e sua infra-estrutura, para atendimento aos fiéis, é simplesmente suntuosa. O berçário é o verdadeiro sonho de todas mães, dotado de todos os recursos para que elas possam deixar seus filhos em segurança, enquanto louvam ao senhor do sucesso financeiro.

Ao contrário da IURD, a Igreja Católica está há mais de seis meses lutando, com fé, para vender os bilhetes do sorteio de um Fiat Uno 1.0, que fica estacionado dentro do recinto sagrado onde são realizadas as orações ao Senhor Deus. A ironia fica por conta da promiscuidade entre o sagrado e o profano mundo dos negócios. Enquanto a Universal assume com total clareza a sua opção por transformar a fé num negócio sem rodeios, a Igreja Católica parece ainda presa à idéia de que ganhar dinheiro em demasia é incorrer no pecado da usura.

Ao optar por “vender” a felicidade na outra vida, a IC perde feio para a IURD que oferece aos seus “clientes fiéis” a certeza de que a vida eterna deve começar a ser gozada aqui na Terra, alcançando o sucesso material. Toda a publicidade da IURD está impregnada de apelos a empresários de peso e tamanho variados. Sessões de descarrego ( uma forma sincrética com o candomblé ) buscam aliviar dificuldades econômicas. Os cultos são feitos com propósitos claros de clamar ao deus que professam o bom andamento dos negócios e o sucesso financeiro imediato.

Relatos de doações feitas por pequenos empresários impressionam pelo valor que ultrapassa em muito o mero dízimo sobre os ganhos deles. A doação passa a ser um investimento que, como todo investimento, espera os resultados correspondentes. Afinal, como diz o patriarca da IURD, o bispo Edir Macedo, quando você doa algum valor para obra da igreja, Deus fica comprometido com você. Não é mais você quem deve a Deus, mas é Ele quem agora lhe deve.

No mais, é só esperar, não sentado, é claro, mas trabalhando com alegria e prontidão, tal como aquele homem descrito por Benjamin Franklin e que foi objeto da análise de Max Weber, no seu magistral A Ética Protestante e o Espírito Capitalista.

Otávio Filho é imagemaker e escritor. Doutor em Comunicação e Semiótica, é professor do Curso de Comunicação Social da UESC -Bahia.

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