EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 34 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Pós-graduando em artes visuais pelo SENAC. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

Para enviar emails a Emílio Gusmão clique aqui.


EXPEDIENTE:

Layout:
Jamile Ocké
Sistema:
Marcelo Guerra
Fotografia:
Sandro Andrade


REALITY NA DELEGACIA: REPÓRTER E POLICIAL NA MESMA FUNÇÃO

Teleanálise por Malu Fontes.

A multiplicação recente dos programas de TV locais voltados para a abordagem da violência, do mundo cão e dos dramas da vida privada dos miseráveis gerou uma atividade nova nas delegacias de Polícia e incorporou uma tarefa nova à rotina dos policiais. Para quem não sabe, alguns delegados e policiais, interessados em colaborar como produtores de conteúdo desses programas, e claro, sempre muito mais interessados em ficar bem na fita com os apresentadores e em evidência sob os holofotes, sobretudo no caso de delegados em busca de um mandato de deputado estadual nas eleições de outubro, incorporaram a câmera filmadora a suas rotinas de trabalho.

CAMERAMAN – Para integrantes da Polícia deslumbrados com a possibilidade de produzir imagens “exclusivas” para o programa A ou B, ter uma câmara de vídeo na delegacia ou carregar uma na viatura passou a ser tão comum quanto o uso da farda e da arma. Alguns delegados de subúrbio mais vanguardistas já se tornaram experts em captação de imagens e contam, em suas equipes, com o talento de dedicados servidores para registrar os casos mais grotescos e depois encaminhá-los à TV. Sempre que há uma diligência ou prisão, o agente treinado nas funções de cameraman é convocado para registrar o flagrante. O resultado, seja qual for, vai parar em um dos programas do meio dia da programação local.

Recentemente, moradores de Cajazeiras puderam presenciar o novo modus operandi da polícia em suas diligências e rondas. Um jovem, atingido por tiros, agonizava na rua tarde da noite. A Polícia chegou e não moveu um músculo para socorrê-lo. Um policial já desceu da viatura empunhando uma câmera com o play acionado. Com contornos de corpo típicos dos profissionais de TV, contorcia-se ao lado do baleado em busca do melhor ângulo para filmá-lo, ao tempo em que perguntava seu nome e sobre a autoria dos tiros. Captadas as imagens, para que fazer mais nada? Anunciou-se aos presentes na cena que caberia à equipe da Samu socorrer a vítima. Foram embora, pois já haviam cumprido seu papel: filmar a vítima. No dia seguinte, lá estavam as imagens em um dos programas voltados para o gênero mundo cão.

PONTOS NO OUVIDO – Nesse novo cenário marcado pela necessidade ininterrupta de produzir imagens da barbárie para abastecer os programas populares que concorrem entre si, ignora-se qualquer limite de exposição à revelia de suspeitos, acusados ou culpados, desde que estes pertençam ao mundo dos miseráveis e habitem as periferias. A impressão é a de que, nas prisões registradas por câmeras, os papéis cada vez mais se invertem e se confundem, indiferenciando repórteres de agentes policiais.

Do mesmo modo que os policiais já descem das viaturas com câmeras ligadas na mão ou com o celular apontado para o fato, os repórteres são sujeitos atuantes na interrogação dos presos. Não demora e começarão a torturar presos para que confessem aos microfones e câmeras a autoria do que quer que estejam sendo acusados. Quem disse que preso pode não responder a repórteres de TV? Quem disse que mães, pais, filhos ou qualquer parente de preso tem o direito de chegar à delegacia em busca de informação, no calor do desespero, sem serem exibidos para toda a Bahia? Não adianta dizer que não querem falar, aparecer, que vão perder seus empregos se patrões o virem na TV associados à prisão de um parente. Imbuídos do poder de polícia, repórteres tripudiam, expõem todo mundo e qualquer um, obrigam todos a dar entrevista. A coação à fala é absoluta. Quando um preso resiste à entrevista é forçado a emitir qualquer fala. Perguntam por que ele é covarde e não fala, por que está chorando (sem estar) e, por fim, enfiam pontos em seu ouvido conectando-os à força diretamente com o apresentador no estúdio.

Uma cena de abuso promovida pela TV com apoio da polícia pôde ser vista semana passada na TV Itapoan. Três homens jogavam e bebiam em sua casa, em Paripe, numa manhã de domingo. A polícia recebeu informação de movimento de traficantes nas imediações. Com repórter a tiracolo, ao raiar do dia, policiais vêem três homens jogando e bebendo na área aberta de uma casa e deduzem que são os traficantes em questão. Com ameaças e disparos, dão ordens para que os três deitem no chão. Os homens recusam enquanto, revoltados, dizem que não são marginais para serem tratados daquele modo, que não estão fazendo nada de ilegal. Um deles exibe o crachá da empresa onde trabalha e defende-se dizendo que, com irmãos e amigos, compra sua bebida e a consome em casa para fugir de confusão em bares.

BIZARROS – Sem elementos para prendê-los, a polícia vai embora. Mas mesmo inocentes, questionados pelo repórter sobre o absurdo de bebe àquela hora, os homens e suas famílias tiveram suas imagens expostas na TV por longos minutos, com repetição em mais de um programa. Não cometeram qualquer infração. Mas eram pobres, negros e bebiam de manhã cedo em uma casa pobre da periferia, o que basta para serem atração na TV. Se não como criminosos, então como personagens bizarros da periferia prontos para produzir mais uma cena ridicularizada do ‘bafafá’, quadro da emissora em que gente pobre é exposta em situações de conflito com vizinhos ou coisas do tipo. Quando uma batida policial em uma área nobre teria tratamento e destino semelhantes? Mas pobres, se já não têm direito a nada, imagine à privacidade e à não veiculação de sua imagem sem autorização.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 07 de março de 2010. maluzes@gmail.com

Bookmark and Share

7 respostas para “REALITY NA DELEGACIA: REPÓRTER E POLICIAL NA MESMA FUNÇÃO”

  • JOSELITO disse:

    Olha, eu tenho o mesmo pensamento sobre esses tipos de programa. Por isso tem que ter o controle social dos meios de comunicação.

  • Igor disse:

    “controle social dos meios de comunicação”? Que diabos é isso? Qualquer ideia que junte “controle” e “meios de comunicação” na mesma frase não merece ser considerada.

    O que é necessário é punir os abusos cometidos, nada mais.

  • WILSON disse:

    CONTROLE DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO URGENTE, ESTAO FICANDO SUPERIORESS AOS 3 PODERES. ESTABELECENDO REGRAS E DITANDO PRIORIDADES, ALEM DE SE INTITULAREM VOZ DO POVO, MESMO SEM PROCURAÇÃO POPULAR. CENSURA DEMOCRATICA JÁ. COMO ISSO? MEU DIREITO TERMINA QUANDO COMEÇA O DO OUTRO. ONDE TERMINA O DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO? LIBERDADE É BOM E EU GOSTO, MAIS RESPEITO AO OUTRO, É LIBERTINAGEM.

  • WILSON disse:

    SEM RESPEITO AO OUTRO É LIBERTINAGEM.

  • tIAGO disse:

    Gostei muito do texto, pois fala do que acontece realmente com o jornalismo baiano que só vai de mal a pior. Num entendo como um cara estuda tanto tempo pra adquirir um diploma e fazer tamanha idiotice na TV e depois inda querem dizer que pra ser jornalista não precisa diploma por que todo mundo tem o direito de criar opinião, mas se isso ja acontece com quem é formado imaginem só o que iria acontecer com quem não tem formação nenhuma.

  • Anne Pacheco disse:

    Chega a ser repugnante esse programa. Por um acaso assisti um dia e nunca mais. Como diz a Drª Malu Fontes : – Quando iriam agir dessa forma em uma área nobre? Nunca!
    E o delegado pousando com ar de xerife-bonzinho? Ate parece político em campanha eleitoral.

  • Anônima disse:

    APLAUSOS DE PÉ A ESSE TEXTO QUE A MEU VÊ TRANSMITE CLARAMENTE A “PALHAÇADA” ,MUITAS VEZES, FORÇADA DE ALGUNS PROGRAMAS TELEVISIVOS.
    SÓ QUE RESSALTAR QUE, INFELIZMENTE , ESTÁ DEIXANDO DE EXISTIR UM DIREITO IMPORTANTISSÍMO FIXADO NO ARTIGO 5° DA CONSTITUIÇÃO, QUE DIZ:
    “X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação ”

    ACHO QUE NÃO PRECISA DIZER MAIS NADA! TUDO TEM LIMITE , MAS PRA ESSES PROGRAMAS NADA TEM LIMITE, PRINCIPALMENTE, O ÍBOPE!

    OBS: MUITO 10 ESSE ARTIGO.

Deixe uma resposta

Spam Protection by WP-SpamFree





Enquete do Gusmão
Ouça!
Parceiros
Categorias

wordpress stats plugin