EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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TELEANÁLISE: IGREJA RECORRE AOS BEATLES E CULPA GAYS

Por Malu Fontes.

Com a idéia de aldeia global cada vez mais superdimensionada, sobretudo em função do poder instantâneo e multiplicador das mídias digitais e móveis, a repercussão dos fatos produz em seus protagonistas sociais, caso queiram ficar bem na fita, a necessidade de reagir em uma velocidade e imediatismo tais que tem levado até mesmo a sisuda Igreja Católica a uma sucessão de tropeços e intempestividades. Se durante muito tempo a Santa Madre se ocupava em punir seus liderados que infringissem suas normas doutrinariamente e tratar de disfarçar, esconder, silenciar e perdoar os pecados dos que cometiam desvios morais, os tempos são outros e essa estratégia dois e duas medidas já não se presta a dar conta de nada.

Sempre se falou em homossexualidade, pederastia e coisas do gênero nos bastidores da Igreja Católica. E nunca foi possível dissociar o exercício sexual clandestino da exigência do celibato, que, todo mundo sabe, foi instituído para que a Igreja nunca viesse a ter problemas com a repartição de seu patrimônio com viúvas e filhos de padres, bispos, etc. Nos últimos anos, no entanto, uma avalanche de denúncias de pedofilia, sobretudo na Europa, obrigou a Igreja a sair do silêncio e do segredo sobre o assunto. A repercussão de tais escândalos na imprensa tem obrigado, com uma freqüência surpreendente, personalidades do primeiro escalão do Vaticano a vir a público dar satisfações.

ESDRÚXULA – Em apenas uma semana, por exemplo, emissoras de TV de todo o mundo repercutiram amplamente quatro posicionamentos da Igreja, alguns adotados e publicizados intempestivamente com um propósito desesperado: tentativa de diminuir o impacto negativo gerado pelas denúncias que vêm da Irlanda, da Itália e da Alemanha, todas dando conta de membros da Igreja que abusaram sexualmente de crianças. Até mesmo uma carta do Papa, Bento XVI, pedindo tolerância a um pedófilo, foi desenterrada dos arquivos do passado, gerando constrangimento.

Na primeira tentativa desastrada do Vaticano de inverter a relação vítima versus algoz, nomes incensados do Vaticano vieram a público dizer que a Igreja, ao invés de abrigar culpados de crimes sexuais contra crianças, era, na verdade, vítima de uma injustiça orquestrada, objeto de uma campanha de agressão moral, preconceituosa e discriminatória, uma campanha tão odiosa quanto a feita contra os judeus e que levou ao Holocausto. A reação judaica foi à altura e o Vaticano, como instituição, oficialmente, voltou atrás, pediu desculpas aos judeus e desautorizou o porta voz da comparação esdrúxula.

PERDÃO AOS BEATLES – Poucos dias depois, de modo praticamente simultâneo, o Vaticano anunciou ao mundo duas medidas simpáticas, uma delas revelando que a Santa Madre também sabe rezar direitinho pela cartilha midiática que ensina a fabricar factóides. Ao mesmo tempo em que divulgou um posicionamento sério, comprometendo-se, a partir de agora, a tratar de modo jurídico e não mais como questão interna e moral os casos de pedofilia denunciados, anunciou também, numa estratégia de quem corre para a galera, que absolveu os Beatles (40 anos depois da extinção do grupo) dos pecados de satanismo e blasfêmia.

Duas medidas positivas. Uma que já chega tarde, o anúncio do tratamento jurídico e policial a crimes contra crianças nos bastidores da Igreja, mas em se tratando da Santa Madre, onde cada passo demora um século, já tá de bom tamanho. Já a dos Beatles, merece, no máximo, o adjetivo risível. Entretanto, o Vaticano, demonstrando que aprendeu a pegar carona no fluxo instantâneo e rápido da indústria e da cultura noticiosa mas ainda não sabe modular o impacto do que diz, através de seu secretário-geral, o segundo cargo na hierarquia da Igreja, o cardeal Tarcisio Bertone, cometeu outra trapalhada.

ABUSOS - Para afastar o celibato do olho do furacão dos escândalos sexuais que explodem a cada dia em um país diferente, o cardeal Bertone diagnosticou: a pedofilia existe na Igreja, sim, mas isso nada tem a ver com o celibato, e, sim, com a homossexualidade. Diante da reação internacional da comunidade gay, institucionalmente o Vaticano veio a público desautorizá-lo, ressaltando que o cardeal não é psiquiatra e, portanto, não tem autoridade científica para diagnosticar nada. Antes de cometer uma trapalhada atrás da outra, seria aconselhável às autoridades do Vaticano combinarem antes o que dizem ou não. O clima na Igreja não tá muito propício para abusar da credibilidade dos fiéis minguantes, dizendo-lhes uma coisa hoje e desmentindo amanhã. E, no afã de desmentir-se, o catolicismo confunde-se de novo, afinal, quando a Igreja mensurou suas falas por filtros científicos?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto originalmente publicado no jornal A Tarde (Salvador/BA) em 18 de abril de 2010.

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