Por Malu Fontes.
Um fenômeno natural de nome impronunciável e insoletrável, até mesmo pelos meninos mais habilidosos vencedores do concurso Soletrando, de Luciano Huck, o vulcão islandês Eyjafjallajökull, foi o grande personagem da semana da TV em todo o mundo. Diante das cenas que mostravam em todos os telejornais os saguões e as áreas de embarque caóticos nos aeroportos mais importantes dos países mais ricos, as imagens do apagão aéreo brasileiro, em 2006-2007, mais pareciam flagrantes de reuniões zen em centros de yôga. E sem Marta Suplicy para, ironicamente, aconselhar os amontoados nos aeroportos a relaxar e gozar.
Em seis dias de interrupção das decolagens de vôos partindo ou chegando à maioria das capitais e grandes cidades da Europa, mais de 95 mil vôos deixaram de ser realizados. Com isso, os prejuízos financeiros, somente no setor aéreo, foram da ordem de centenas de milhões de euros por dia, sem mensurar os prejuízos mundiais gerados pelos negócios que deixaram de ser feitos e pelos efeitos nos setores hoteleiro e turístico, a partir do quais há reflexos em todos os segmentos econômicos dos países que têm no turismo uma fonte de renda significativa.
FUNERAL ÍNTIMO – O primeiro efeito político causado pelo Eyjafjallajökull, embora simbólico, foi o esvaziamento do funeral do presidente polonês Lech Kaczynski e sua esposa, Maria, na Cracóvia, vítimas de um acidente aéreo alguns dias antes do vulcão islandês cuspir nuvens de cinza, fumaça e enxofre com 11 mil metros de altura nos céus da Europa. O que seria uma cerimônia fúnebre das mais bem freqüentadas dos últimos tempos e com um potencial de tragédia suficiente para gerar manchetes e fotos de primeira página em qualquer bom jornal e telejornal do mundo, acabou se tornando, por conta do apagão aéreo europeu, uma solenidade praticamente íntima. Nenhum chefe de Estado, dos mais aos menos importantes, quis arriscar, com seus aviões oficiais, chegar ao funeral e correr o risco de protagonizar o seu próprio.
Em termos históricos, a erupção hiperbólica do Eyjafjallajökull, como fato, fenômeno, imagem e efeitos colaterais, veio se juntar a outros fenômenos naturais desses que carimbam com tintas fortes na história contemporânea o quão fracassado e fracassável foi e é o projeto moderno de controle técnico, tecnológico e científico da natureza. O projeto técnico do Século XX tinha como meta pretensiosa a certeza de que, com o avanço científico, dominaria-se a natureza e o mundo.
O futuro mostrou que as coisas não eram bem assim e que a natureza, seja pelo seu próprio poder, seja pelos modos desastrados como o homem (des)cuidou dela, seguirá mantendo intacto o seu poder de dar de ombros quando bem quiser, espreguiçar-se, ter um mal estar gástrico metafórico e, nessas manifestações absolutamente naturais, lançar sobre países ondas gigantescas que varrem cidades e gente, cuspir no ar chamas, lavras de fogo e toneladas de fumaça e cinza, impedindo as economias globais mais robustas de colocar seus jatos de última geração no ar.
CINZA DE GENTE – Para os brasileiros, que viveram, viram ou assistiram pela TV tragédias humanas bíblicas causadas por chuvas, com a morte de centenas de pessoas soterradas de lama, o fenômeno Eyjafjallajökull dá uma referência e tanto de como a responsabilidade, o rigor e a seriedade do poder público tem, sim, a capacidade de proteger vidas humanas. Às imagens espetaculares da nuvem negra gigantesca produzida pelo Eyjafjallajökull, que somente os mais inspirados filmes de ficção científica poderiam produzir, não se associou a notícia de uma morte sequer.
Fosse em países cuja gestão pública tivesse como marca a corrupção, o improviso, a tolerância ao erro e o lucro econômico de poucos a qualquer custo, provavelmente ninguém se surpreenderia se agora houvesse gente transformada em cinzas por habitar irregularmente o sopé do vulcão. Nem tampouco haveria chefe de estado e instituições de controle aéreo com autoridade política o suficiente para manter em solo centenas de companhias áreas ao custo de um prejuízo maior do que o experimentado no setor no pós 11 de Setembro de 2001.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto originalmente publicado no jornal A Tarde, Salvador/BA, em 25 de abril de 2010. maluzes@gmail.com