EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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TEMOS ESTRUTURA, FALTAM OS EVENTOS…

Por Rodrigo Laguárdia de Carvalho.

A postura de Ilhéus agora e espero que seja por muito tempo passa pela DIVERSIFICAÇÃO ou seja, transformar, multiplicar no que diz respeito à economia.

Que bom que podemos fazer isso porque temos potencial humano, geográfico, natural e de infra-estrutura para realizar o que quisermos. Vamos dar uns exemplos:

No Segmento do Turismo:

- Nossas belas praias, pousadas, hotéis e culinária nos credenciam para termos um turismo de Terceira/Melhor Idade, bom exemplo é se transformássemos o balneário de Olivença em águas medicinais, entre outras idéias…

- Um turismo de Esporte & Lazer se aproveitássemos a Baia do Pontal e trouxéssemos, por exemplo, o Circuito Nacional de JetSki que a um tempo atrás tive a oportunidade de apreciar uma Etapa na Lagoa Juparanã em Linhares (ES). E me pergunto o que Linhares possui que Ilhéus não tem? Perdemos o Triathlon, mais podemos ter o vôlei ou futebol de praia… mas não temos nada!

- E o Turismo de Negócios, temos a universidade (UESC) que está até trazendo uns eventos, temos agora um Encontro de Reitores, mais e o Centro de Convenções? Todos sabemos que os cursos universitários, as associações e entidades em geral fazem congressos anuais com abrangência municipal, estadual e nacional em todas as áreas. Podemos ter Congresso Estadual de Medicina, Encontro Nacional de Administração e assim poderia citar inúmeros congressos existentes pelo Brasil a fora que se repetem todos os anos. Busquei a programação ou agenda do nosso Centro de Convenções na Internet… há meses em que não existe um evento se quer… Pergunto: Será o preço? Será a administração? Será que hoje temos que esperar que os clientes batam a nossa porta ou temos que ir buscá-los? Algumas pousadas e hotéis ficariam felizes, com boa lotação, alguns restaurantes faturaram acima do normal. Pena que o número de eventos em Ilhéus no Centro de Convenções se resume a um percentual baixíssimo em relação às 52 semanas existentes no ano.

- Temos o Turismo Cultural, duas novelas da Globo, nosso Jorge Amado… e tudo se resume no Bar Vesúvio,  será que não podemos explorar mais!?

E ai leitores, qual o turismo que Ilhéus pretende ter, ou possui? Alguém arrisca dizer? Temos foco, planejamento?

No segmento da Indústria:

Bom, neste ai, se tudo der certo Ilhéus se tornará referência nacional, pois temos os projetos que vão gerar emprego e renda e dinamizar a economia como: Novo Porto, Aeroporto Internacional, Ferrovia, duplicação de BR Ilhéus/Itabuna, Nova Ponte do Pontal e agora a tão desejada ZPE.

Torço para que as pessoas que estejam à frente, envolvidas e comprometidas sejam reconhecidas e colham o fruto do seu empenho, profissionalismo e dedicação pela nossa cidade!

Agricultura e Pesca:

Aqui, em Ilhéus, se plantando tudo dá, quem quer apostar no cacau está em tempo, quem não quiser há inúmeras alternativas agrícolas, basta esquecer o passado e olhar para o futuro… para isso temos a CEPLAC um grande órgão, com influência, que deve ser pró-ativo e presente, de portas abertas para todos os agricultores, isso deve ser uma exigência dos prefeitos e da sociedade, como dizem: ela tem que se pagar!

Quanto à pesca uma maior organização dos barcos, alguns píer… temos a baia do Pontal, a Sapetinga, os turistas para chegarem a algum barco para fazerem um passeio tem que entrar em uma canoa ou ir pisando na lama e ostras, será que ninguém vê isso? Quem sabe mais financiamentos para novos barcos…

Alguém já ouviu falar na Ponte do Cais, na Sapetinga? Pois é um excelente terreno que possui um píer de cimento, com um galpão abandonado, ia lá pescar quando tinha 12 anos, um local muito bom e sub-sucateado.

O Rio do Engenho conheço gente, que levava turista para lá. Um dia tinha um turista descendo com a maior dificuldade do barco, pois não havia um píer e sente algo bater em suas costas, era um pequeno cocô boiando é mole, se imagine nesta situação!? Não há um trabalho de conscientização daquela população sobre o turismo e sua importância, não há saneamento básico, ou seja, nada! Depois deste episódio o pescador não levou mais turistas para este lugar que acho lindo e poucos Ilheenses conhecem…

Estes segmentos da economia e todos os outros podem ser dinamizados e viáveis em Ilhéus, podemos ser excelentes em um e bons ou razoáveis nos demais. Porém o que mais me preocupa e que muitos não querem o desenvolvimento do segmento industrial com o pretexto que ele acabará com o segmento do turismo, ai eu me pergunto: Qual segmento de turismo possuímos?

Turismo para ser fonte de renda e emprego, para dinamizar uma economia tem que ser ativo o ano todo. O turismo de Ilhéus tem que ter um foco, um calendário anual com muitos, mais muitos eventos, temos que buscar parcerias e termos as portas abertas para todo tipo de evento e idéia. Não podemos nos dá o luxo de não querermos a cidade cheia porque vamos ter engarrafamentos ou vamos pegar fila no comida a quilo, por exemplo. Se o turismo dinamizar, as coisas começaram a surgir, novas lojas, novos empreendimentos, novas estruturas, novas barracas de praia…

Ilhéus não pode abrir as lojas no sábado dia 01 (feriado). E o turista que estava na cidade? Tenho certeza absoluta que as lojas de Porto Seguro abriram no sábado e no domingo. Quem quer aprender um pouco de turismo passe alguns dias em Porto Seguro. Falo isso de carteirinha, pois tive a oportunidade de morar dois anos naquela cidade e acreditem, o turismo é altamente profissional, organizado, constante e intenso durante todo o ano.

Faça um teste se um dia for lá… ao encontrar um guia qualquer na rua devidamente credenciado, com o crachá no peito, pergunte: Quantos turistas têm na cidade naquele final de semana e ele te responderá: com o vôo de Portugal, o transatlântico e de automóvel temos em média 5.345 turistas que chegaram hoje e vão ficar uma semana. Isso é turismo como segmento econômico e fonte de renda e emprego. A cidade respira turismo.

Com isso, posso afirmar que Ilhéus não pode se dá o luxo de não querer receber uma Mineradora de Ferro. Talvez Porto Seguro – por exemplo – possa, visto que possui sua economia focada, direcionada, profissional, ativa e com retorno suficiente para viver somente do turismo, coisa que Ilhéus talvez nunca tenha!

Ressalto também que este texto é humilde opinião de um leigo, pois não possuo MBA em turismo e sei que há dificuldades econômicas e outros fatores. Não é apenas a vontade política que resolverá o problema de Ilhéus e sim todo um conjunto, mas não podemos tapar o sol com a peneira. A falta de empenho, soluções, iniciativa e idéias estão estagnadas a muitos governos, nada de relevante ou de maior significado surgiu!

Ilhéus se diz turística a mais de 20 anos, foram praticamente 05 governos e até hoje engatinha. A cidade possui um turismo de veranista, somente durante o mês de janeiro!

Acredito que temos que focar em parcerias. A CVC é monopolista, porém quem sabe como primeiro passo não precisamos dela? Precisamos do turista do Hotel Transamérica? Bom, a dependência do aeroporto não há mais, eles construíram os deles e Itacaré está indo pelo mesmo caminho de independência. O turista de Salvador irá para Barra Grande e Itacaré pela estada e ponte nova, sendo que talvez nem venham a Ilhéus? Parceria minha gente, turismo não se faz sozinho. Que venha o segmento industrial!

10 respostas para “TEMOS ESTRUTURA, FALTAM OS EVENTOS…”

  • Duvido disse:

    Infelizmente vc esta certo.
    Deixamos passsar inumeras oportunidades.
    Gestores inaptos e populacao que nao participa de seu destino.
    Ou seja, se criou um bolsao de miseraveis que dependem de politicos nada escrupulosos, que trocam votos por alguma ajuda, e cidadaos que aceitam, seja por ignorancia ou por necessidade.

  • Caro Rodrigo, para um leigo você soube dar um excelente recado.
    Devo concordar em número, gênero e grau.
    Acredito que o complexo intermodal é a solução real e objetiva para transformar nossa realidade sócio-econômica. Penso também que temos que nos organizar, sim, para cobrar as políticas compensatórias a fim de minimizar os efeitos negativos ao meio ambiente.
    Se alguém souber fazer um omelete sem quebrar os ovos, me ensine a mágica.

  • Duvido disse:

    o problema deste mega projeto é que nem o idealizador sabe o que quer, ou seja, o Governo do Estado, que deveria estar a frente, explicando e avaliando a favor da comunidade, esta apenas polgando num projeto de recursos certos ( Bamim), cujo empresario vislumbrou uma possibilidade de negocio, mas com certeza nao tinha conhecimento que ja existe um parque de protecao e inumeros projetos ja consolidados e em andamento cujo tema é o ecoturismo.
    Estao querendo mudar as regras no meio do caminho, ai que entra a discordia!
    De um lado se tem investidores e do outro tbm investidores que apostaram alto em seus empreendimentos voltados para o turismo ecologico.

    Minha opiniao é que o investimento é bem vindo mas nao como querem, ou seja, mudar as regras do meio do jogo.

    Teremos varias acoes e com certeza investidor, serio, topara enfrentar batalhas judiciais sem fim, isso prejudica a imagem da empresa aqui e la fora.

  • Souza Neto disse:

    Senhor Rodrigo

    Comentários como este são ótimos. Contudo, penso que uma região pode ter todas as potencialidades para gerar riquezas, mas se não tiver o elemento primordial – POVO – de nada servirá.

    Em junho de 2006, postei o comentário abaixo em algum blog da região. Nele, mostro o meu espanto com a incompetência e a imobilidade dos moradores desta cidade. Incluo todos porque os diversos segmentos – político, empresarial, etc. – tem sua base na população.

    Eis o comentário:

    Moro na cidade com a família desde janeiro deste ano (2009). Logo que chegamos iniciamos alguns passeios diurnos e noturnos em busca de diversão e para melhor conhecer a cidade.
    Confesso que ficamos todos decepcionados com o que presenciamos. A cidade não está preparada para o Turismo. O fato de ter mais de 400 anos não significa nada quando o assunto é turismo.
    Conheço bastante o Rio de Janeiro, onde morei 30 anos. Conheço também (e muito bem) a Costa Verde, área do Sul Fluminense que compreende Sepetiba, Itacuruçá, Muriqui, Ibicui, Mangaratiba, Angra e Parati. Também morei 4 anos na Região dos Lagos, área do Norte Fluminense conhecida como Costa do Sol. Lá ficam Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Armação de Búzios, Barra de São João, Rio das Ostras e Macaé. Tive o privilégio de morar por 1 ano na cidade de Natal/RN no bairro do Tirol. Além disso, tive o privilégio de conhecer – em missões militares – a Região Amazônica, o Pantanal Matogrossense e a Serra e o Litoral Sul gaúcho.

    As regiões e cidades citadas têm na atividade turística como parte de sua economia. Em algumas dessas cidades o Turismo responde por cerca de 80% da geração de riquezas. Tudo o que observei nesses lugares, no que tange ao Turismo, está presente em nossa região. Digo nossa região porque nem Ilhéus, nem Itacaré, nem Canavieiras, e, nem mesmo Porto Seguro, estão preparadas para receber visitantes.

    Os motivos? São tantos que não cabem neste espaço. Vou citar apenas alguns. Quando iniciei os passeios em Ilhéus com a família em janeiro de 2009, observei lixeiras quebradas e sujas no Centro, crianças pedindo nas ruas, flanelinhas por toda parte cobrando por estacionamentos de veículos – alguns até ameaçadores -, lixo nos logradouros públicos, atendimentos inadequados em bares e restaurantes. Pasmem! Fui “atendido” num estabelecimento que distribue cartões de senhas e de liberação para os consumidores, cobram “taxas de desperdício” (que coisa estranha)! Até num “rodízio de pizzas”, – de má qualidade, diga-se de passagem – eu e minha família estávamos “monitorados” por algum tipo de controle para que “NÃO SAÍSSEMOS SEM PAGAR”!

    Os logradouros públicos não dispõem de sinalização adequada para os que não conhecem a cidade. Bens públicos, como Bibliotecas assemelham-se a estábulos, tal a situação de abandono.

    As cabanas de praia do área sul, (ah, as cabanas de praia) com raríssimas exceções, são lixos. Milionários é uma lindíssima praia, ocupada com verdadeiras “lixeiras”. Ah! Ainda tem os preços e a apresentação dos pratos. Estes são exorbitantes e os pratos mal feitos e pouco apresentáveis. Ainda na praia dos Milionários, que absurdo o projeto de uma rodovia passando a poucos metros da linha da maré! A rodovia deveria passar a uma distância razoável de forma a não desvalorizar o local.

    Beber um chopp preto!? – O preferido dos cariocas. Pequei essa mania com eles, numa convivência de 31 anos. – Ah! Chopp escuro… Tem num único lugar… o bar do Nacib. E por falar no bar do Nacib, ninguém “troca” a roupa do “Contador de Estórias” desde muito. O coitado do Jorge (sua estátua) reclama uma pintura e ninguém dá ouvidos. O jeito é tirar uma foto com o Jorge andrajoso mesmo!

    O transporte coletivo? É o mais caro do País! Paga-se 1,90 por 5, 6 ou 10 quilômetros dentro de um coletivo. No Rio se viaja de Santa Cruz ao Centro, pela Avenida Brasil (58 quilômetros), por apenas 2,20.

    A conservação dos prédios e casas demonstram o caos econômico que a região vive. Na cidade de Natal não são vistas casas e muito menos edifícios com a pintura desgastada. O natalense respira turismo 24 horas. Também pudera, a cidade fica em cima de dunas de areia, não possui zona rural e nada produz.

    SÓ TURISMO!

    Tem mais… Onde estão os hotéis fazenda para receber visitantes e oferecer as condições dos contos (em parte fantasiosos) do Jorge Amado? Conservatória, na região serrana do Rio de Janeiro é conhecida como a Cidade da Seresta. Os hotéis fazenda vivem cheios durante todo o ano. Quase tudo que se come e se bebe nos hotéis e produzido lá mesmo. E olhem que Conservatória (Distrito de Valença-RJ) só tem meia dúzia de ruas!

    Para finalizar, temos um enorme problema com a higiene em todos os aspectos. Temos seriíssimas dificuldades com a EDUCAÇÃO!

    Um pouco de tudo que eu e minha família observamos ocorreu na chamada “alta temporada”.

    SOUZA NETO

    Bem, continuamos morando na cidade. Temos um filho estudando aqui. Por enquanto! Deixamos de fazer nossos passeios. Não valem a pena! Estamos preferindo – de vez em quando – reunir alguns amigos em nossa casa para um churrasco.

    Ah! Descobrimos outro problema… Há cerca de 4 meses estamos procurando um outro imóvel para morar. Queremos deixar o Jardim Atlântico por um bairro mais movimentado. Nesses 4 meses, quase tudo que encontramos não nos agradou. Imóveis sem ventilação, com paredes mofadas, “acabamento” de péssima qualidade e… principalmente… …preços equivalentes à Vieira Souto e/ou Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

  • irene dantas disse:

    Porque vc não volta para o Rio e deixa de colocar defeito em tudo na região?”Ninguem merece gente assim”

  • musico disse:

    Infelizmente estamos em um mato sem cachorro,perdidos.nossa cidade esta falida.

    mas ainda estamos em tempo de tomarmos atitude fazer cada um a sua parte.

  • Souza Neto disse:

    Infelizmente a “dona” irene dantas não quer enxergar os erros que estão no interior de sua própria “casa”.

    Como aquela música do Nico Fidenco:

    “Os dias cinzas (ou negros)
    são as longas estradas silenciosas
    de um país deserto
    e sem céu.

    A casa de Irene se canta, se ri
    tem gente que vem, tem gente que vai.
    A casa de Irene garrafas de vinho
    a casa de Irene esta noite se vai.

    Dias sem amanha
    e o desejo de ti.

    São aqueles dias
    que parecem feitos de pedra.
    Nada mais que um muro
    com cacos de garrafa em cima.”

    E Irene quer que eu me vá…

    Infelizmente, a “dona” Irene não entendeu que minha crítica é positiva e que meu intuito é simplesmente ajudar, desnudando, tirando o véu do que está encoberto.

    “Dona” Irene – para arrumar a casa -, as soluções são simples!

  • Souza Neto disse:

    “Dona” Irene, ACORDA!

    Quanto maior o número de pessoas com visão larga chegarem a esta cidade melhor. Não me incluo entre estes, claro!

    Natal (RN) só progrediu com a chegada de investidores de outras regiões.

    A nossa “cultura” é (ainda) a do cultivo do cacau! Um enorme contingente de homens, mulheres, jovens e crianças que foram, deliberadamente, deixadas sem Educação pelos “donos” do cacau.

    Não obstante os esforços que vem sendo feitos pelo atual governo da Bahia no sentido de reverter essa situação, ainda permaneceremos um bom tempo estagnados.

    A senhora, como já tem computador, deve pertencer a outro nível, contudo, não é capaz de projetar – olhar adiante.

    O Turismo daqui está engatinhando! Falta orientação e profissionalismo!

  • Duvido disse:

    Sr Souza Neto,

    sua mensagem é clara e objetiva.
    Para arrumar a casa precisa de ter ao menos gente honesta e que goste de trabalhar.
    Nao vejo isso no gestor nem em sua equipe.

    O caos esta instalado na cidade de Ilheus a muito tempo, gente ganhando sem trabalhar, procuradores do municipio advogando contra o municipio e muita, mas muita falta de respeito com o cidadao.

    Todos estao a caça de votos para a proxima eleicao, espero que a PF esteja antenada e de um basta na farra dos precatorios nesta cidade, tem gente enriquecendo com varios esquemas e todos ilegais.

  • Souza Neto disse:

    Devo concordar que temos POTENCIAL ou POTENCIALIDADES, mas ESTRUTURA não!

    Estou postando uma matéria interessante sobre nossas potencialidades e que fala das nossas “lendas” culturais que precisam ser convenientemente exploradas. E isso exige TRABALHO! Muito TRABALHO, tanto do poder público quanto do privado e da sociedade.

    “9 de maio de 2010 às 10:47
    Revista da Fapesp: A invenção da indolência
    A invenção da indolência
    Tese que denuncia o racismo embutido no mito da preguiça baiana vai sair em livro

    Publicado em 14/09/2004 – 02:00

    Fabrício Marques *

    Certos baianos, quando são chamados de preguiçosos, tomam até como elogio. Dorival Caymmi e Gilberto Gil, por exemplo, assumiram com galhardia a malemolência que lhes é atribuída. A proverbial preguiça, argumentam, é um traço de identidade cultural da Bahia, expressão de um modo de vida em que o trabalho não precisa opor-se ao lazer. Segundo a tese O mito da preguiça baiana, defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1998 pela antropóloga Elisete Zanlorenzi, a origem desse estereótipo nada tem de benigno. Foi engendrado pela elite da Bahia com o objetivo de depreciar os negros, a maioria esmagadora da população local. Isso remonta aos tempos da escravidão e ganhou fôlego em reação à Lei Áurea. Defendida em 1998, a tese teve repercussão dentro e fora do ambiente acadêmico, mas só agora será publicada na forma de livro, com lançamento programado para o final do ano.

    A obra sustenta que a vida tranqüila e a famosa aversão ao trabalho atribuídas aos baianos não têm base na realidade. Elisete foi pesquisar, por exemplo, a relação entre o calendário de festas na Bahia e o comparecimento ao trabalho. Fez descobertas curiosas. Uma empresa com sede no Pólo Petroquímico de Camaçari, a 41 quilômetros de Salvador, registrou menos faltas de funcionários durante o Carnaval de 1994 do que sua filial de São Paulo. Outro dado eloqüente: no final dos anos 1980, entre as pessoas ocupadas na Região Metropolitana de Salvador, 50,4% trabalhavam mais de 48 horas semanais e 35,8% de 38 a 47 horas por semana. Não trabalham mais provavelmente porque não há mais trabalho. Entre as seis maiores regiões metropolitanas do país, Salvador é recordista em desemprego e em trabalho informal, fenômeno que atinge, com vigor especial, os 80% da população que são afro-descendentes.

    De acordo com a antropóloga, a ladeira da Preguiça, no centro de Salvador, é símbolo do preconceito. Nos tempos da escravidão, e também depois dela, quem reclamava da íngreme travessia, carregando nas costas as mercadorias desembarcadas no porto, eram os negros – “preguiçosos” na visão desdenhosa dos brancos que, das janelas de seus sobrados, gritavam: “Sobe, preguiça!”. A intensa imigração nordestina nos últimos 50 anos fez o racismo vicejar no Sul e no Sudeste. Fora da Bahia, o termo “baiano”, segundo o Dicionário Houaiss, significa tolo, negro, mulato, ignorante e fanfarrão. E se refere a trabalhadores desqualificados oriundos de todos os estados do Nordeste. Como a estrada que conduziu o êxodo foi a Rio-Bahia, os imigrantes nordestinos foram em São Paulo e na região Sul indistintamente chamados de “baianos” – assim como muitos norte-americanos, desinteressados sobre o que acontece ao sul do Equador, confundem a capital do Brasil com Buenos Aires. “Depreciar os imigrantes nordestinos como preguiçosos era uma forma de excluí-los”, diz Elisete. Ela aponta dois grandes motores do preconceito: o descaso do governo com a capacitação dessa força de trabalho e a intolerância dos imigrantes europeus, que não queriam ser equiparados aos brasileiros pobres com quem disputavam o mercado de trabalho e o espaço urbano.

    A tese de Elisete Zanlorenzi, professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, é mais festejada do que conhecida – daí a importância de sua publicação. Ela repercutiu bastante no final dos anos 1990. Até hoje resumos circulam em correntes na Internet, propagadas provavelmente por baianos briosos. Os textos de alguns e-mails foram reforçados com dados que nem sequer constam da tese, numa curiosa anônima colaboração com a pesquisa. “Há dados e até declarações entre aspas que não são minhas”, diz Elisete. “Todos os meses recebo e-mails de pesquisadores interessados em estudar o tema, por isso decidi cuidar da publicação”, diz. O sociólogo Octavio Ianni (1925-2004) – que participou da banca examinadora em 1998 – apontou, à época, a principal contribuição do trabalho: sugerir a atribuição de preguiça como uma forma sutil e escamoteada – porque risível e folclorizada – de racismo.

    Descendente de italianos e alemães, a paulista Elisete mudou-se para o Nordeste no final dos anos 1970 e viveu em Salvador entre os anos de 1980 e 1984. Na capital baiana desenvolveu sua dissertação de mestrado, sobre o movimento popular do bairro do Calabar, uma antiga invasão de 8 mil habitantes que a especulação imobiliária tentava, em vão, banir de uma região nobre da cidade. Foi nessa época que o preconceito embutido na questão da preguiça lhe chamou a atenção pela primeira vez. Numa tarde de domingo, ficou impressionada com o que viu numa festa freqüentada por gente da elite de Salvador, políticos, advogados e empresários. “Eles começaram a reclamar da preguiça dos empregados negros, enquanto eram servidos por eles. Os negros eram os únicos que estavam trabalhando ali”, lembra.

    Candomblé – Ela foi levantar as razões históricas do fenômeno. “Nem a Abolição da escravatura nem a industrialização foram capazes de inserir grandes contingentes afro-descendentes de Salvador no mercado de trabalho formal”, diz a antropóloga. Até recentemente, os negros permaneceram alijados dos melhores empregos e das atividades mais bem remuneradas da Bahia. Trabalhavam, em sua maioria, no mercado informal, a exemplo do pequeno comércio, da prestação de serviços, de atividades desqualificadas. “Salvador vivia mergulhada em relações tradicionais e muitos de seus bairros tinham vida quase independente”, afirma. Isso só começou a mudar a partir dos anos 1960, com a instalação do Centro Industrial de Aratu e, mais acentuadamente, nos anos 1970 com a instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari, que absorveu a mão-de-obra local, ajudando a forjar uma pioneira classe média afro-brasileira. “Mas a visão capitalista sobre o valor do tempo e o significado do trabalho, estampada na imagem do tempo é dinheiro, não conseguiu modificar as relações cotidianas nem retirar dos espaços das relações de trabalho uma dosagem de afetividade”, afirma a antropóloga.

    Paralelamente, tomou corpo a face simpática da preguiça. Ary Barroso e Dorival Caymmi, ao descreverem uma Salvador das primeiras décadas do século 20, ajudaram a construir uma imagem exótica e paradisíaca, que ganhou o mundo no filme Você já foi à Bahia? (1945), de Walt Disney. Não era uma imagem inventada. O valor que o tempo e o trabalho têm para os baianos, diz a tese, é fortemente influenciado pelo candomblé. “As obrigações, na filosofia do candomblé, são algo que se escolhe, que não se faz forçado”, afirma Elisete. “No fundo, vem da tradição africana o conceito de que o trabalho não é o foco principal da vida, que trabalho e lazer não se opõem. O que não significa que as pessoas não trabalhem. Ao contrário, trabalham muito, mas sem colocarem o trabalho como objetivo central da existência e cuidando muito das relações que ocorrem fora da esfera do trabalho”, comenta.

    A tese se debruça sobre o conceito de tempo na Bahia. Afirma que, embora as relações formais sejam pautadas pelo relógio, ou seja, respondam à lógica capitalista do tempo, as relações informais seguem um tempo maleável. “Muitas pessoas em Salvador não usam relógio”, observa Elisete. “Esse fato poderia ser justificado pelo baixo poder aquisitivo da população, mas a questão vai além desse aspecto, porque não é um bem que custe caro. Se fosse imprescindível, o relógio certamente seria mais usado.” Entre um encontro e outro, observa a tese, pode ocorrer um terceiro, e as pessoas que marcaram o encontro sabem que a rigidez dos horários está exposta ao imprevisto. “O que a mentalidade utilitária e rígida concebe como atraso, na visão afro-descendente baiana aparece como uma possibilidade de ocorrência”, afirma a antropóloga.

    A cigarra e a formiga – O estudo é pontilhado por entrevistas com personagens da Bahia, como João Jorge, diretor do grupo Olodum, Vovô, diretor do Ilê-Ayê, Normando, diretor do Centro de Cultura Popular, e Júlio Braga, antropólogo da Universidade Federal da Bahia. “Todos afirmaram que o trabalho é uma esfera importante da vida, mas que a vida não se resume ao trabalho, já que o lazer, a família e os amigos são importantes”, lembra Elisete. “Normando disse que a fábula da cigarra e da formiga é uma invenção da mentalidade ocidental, sem nenhum vínculo com a matriz africana.”

    Como ninguém, o compositor Dorival Caymmi encarnou a imagem do baiano malemolente. Não há dúvidas de que seu temperamento tranqüilo e maroto condiz com a imagem – daí a chamá-lo de preguiçoso vai uma distância imensa. “Ele sempre acordou cedo e, mesmo quando trabalhava à noite, fazia questão de sentar-se à mesa do café da manhã com os filhos”, diz a biógrafa e neta do compositor, Stella Caymmi. Forjou mais de uma centena de canções, foi um batalhador pela legislação dos direitos autorais, mas gostava de cultivar a fama de preguiçoso. Para recusar compromissos que não tinha tempo para prestigiar, respondia simplesmente que não podia ir porque era preguiçoso. Numa das primeiras propagandas de que fez, de um rum, em 1957, Caymmi já aparecia tocando violão aboletado numa rede. Nada mais falso. Caymmi, conta a neta Stella, nunca gostou de redes. Apreciava, isso sim, cadeiras de balanço.

    Especiaria – Os tropicalistas Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil incorporariam, mais tarde, a imagem da preguiça baiana. “Era um jeito de dizer que eram diferentes, que não pertenciam àquele mundo urbano aonde estavam chegando”, diz Elisete. Entrevistado pela pesquisadora, Gilberto Gil explicou: “A preguiça é uma especiaria que a Bahia oferece ao Brasil. A preguiça produz de forma inusitada, ela produz benefícios inimagináveis. Ela vence os obstáculos pela capacidade de contorná-los e não de atravessá-los diretamente… é a água, é o feminino, é o obscuro. Eu sou adepto dessa visão, porque isso é a salvação do mundo”. Gilberto Gil, diga-se, nunca teve vida mansa. Quando se mudou para São Paulo, no início dos anos 1960, trabalhava numa empresa de dia e cantava à noite. Hoje, aos 62 anos, concilia os compromissos de ministro com a agenda de shows.

    A indústria do turismo aprendeu a explorar esse filão para atrair multidões de estressados de todos os cantos do país. Quer descansar, vá à Bahia, a terra onde a festa nunca termina e ninguém se preocupa com o relógio. Isso começou nos anos 1960. Foi nessa época que a capital baiana passou por uma grande cirurgia urbana, com o objetivo de incrementar o turismo – e se descobriu que o mito da preguiça tinha apelo delicioso para os forasteiros. Desde então os baianos trabalham duro para criar uma ilusão capaz de entreter milhares de incautos. A ilusão de que, naquelas paragens, ninguém gosta de trabalhar.

    * Esta matéria foi publicada na revista Revista Fapesp nº 103″

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