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RESENHA LITERÁRIA: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS


Por Evorah Landi.

Cada dia que passa fico mais propenso a crer que a vida realmente imita a ficção, e esta também à vida; relembro um parente meu, que apesar de nascido de família ilustre, jamais fez algo de importante; uma pessoa sem projetos que passou pela existência sem construir qualquer realização efetiva; não se casou, nem teve filhos, tampouco trabalhou, vivendo sempre do sustento da sua família. E, até o momento que escrevo, permanece com setenta anos neste mesmo labor; bebendo, comendo e dormindo! Uma vida inteiramente desperdiçada, vazia, sem conhecer vitórias nem derrotas!

Este é a vida e cópia fiel de Brás Cubas, personagem da ficção classificado pelos críticos como o grande hipócrita da literatura brasileira, criação de Machado de Assis (1839-1908) em seu livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”,

Se José de Alencar foi o grande expoente do romance, Machado colocou a prosa brasileira no mais alto nível mundial do seu tempo. Sua obra não apenas divertia, moralizava os costumes ou os valores nacionais, mas a sua pena esmiuçava o espírito humano, a realidade psicológica dos personagens, desviando o foco de espaços externos e investindo no interior das pessoas, expondo-as em suas contradições e problemáticas existenciais.

O livro, inusitado, logo em sua primeira página, prepara o leitor para muitas surpresas, ao escrever uma dedicatória em forma de epitáfio, onde Brás Cubas é um defunto-autor que conta detalhe do seu funeral e, depois de algumas divagações, onde afirma que a causa de sua morte foi um golpe de ar, que levou enquanto preparava um emplasto sublime que o haveria de torná-lo famoso, retorna a sua infância de menino travesso e mimado pelo pai e, ao completar dezessete anos amou a Marcela, para qual deixa uma frase realista, juntando ao idílio dos dois o mais vil dos interesses: “(…) Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (…)”.

Devido aos gastos excessivos que fez com a amante, é mandado pelo pai estudar Direito em Coimbra, Portugal, onde confessa que ganhou fama de festeiro e estudou muito mediocremente, tendo recebido o diploma de bacharel como uma carta de alforria. Como ele mesmo diz: “Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as formulas o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim – embolsei três versos de Virgilio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e política para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação (…)”.

De volta ao Rio de Janeiro, após um tempo de reclusão em sua chácara devido à morte da mãe, namora Eugênia a filha de uma amiga da família, bonita, mas Brás descobre um defeito nela, era coxa. Enquanto isso o pai procura para ele um casamento de interesse com Vigília filha do Conselheiro Neves, um político, contudo ela se casa com um deputado, Lobo Neves e posteriormente fica amante de Cubas, o qual faz encontros com ela em uma casa de D. Plácida, uma serviçal da família de Virgília.

Morre o pai de Brás e, entre este, a irmã Sabina e o cunhado Cotrim começa um litígio sobre a partilha da herança; afinal se entendem, e Cubas, acaba namorando uma sobrinha de Cotrim, Nhã-loló, que morre de uma febre aos dezenove anos de idade. Sobre esta tragédia Brás concluiu assim: “(…) Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o ultimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lágrimas. Concluí que talvez não a amasse deveras”.

Aparece a Brás, em forma de um mendigo, Quincas Borba, um amigo dos tempos de escola que lhe furta o relógio e reaparece depois para devolvê-lo, lhe apresentando uma sua doutrina filosófica chamada Humanitismo; a qual prega que todos os acontecimentos da vida fazem parte de um quadro maior da preservação da essência humana.

Na verdade, a teoria de Quincas Borba é uma sátira que Machado faz do Positivismo e Evolucionismo, teorias científicas e filosóficas em moda na época que atribuem sentido de evolução, mesmo as fatalidades da vida. Uma ironia do autor, que faz com que uma doutrina de valorização da vida seja defendida justamente por um mendigo, que está louco, e pior, tem consciência da sua loucura!

Brás encontra no Humanitismo uma justificativa para sua existência vazia, lhe dando a ilusão da descoberta de um novo sentido para sua vida, porém com a morte de Quincas ele é reconduzido à sua realidade

Finalmente os seus encontros amorosos com Virgília passam a ser motivos de fofocas e zombarias nas rodas sociais, e o marido dela, já desconfiado, diante de cartas anônimas que recebe resolve aceitar o cargo de Presidente de Província e parte para o norte acompanhado da esposa.

Brás já estava com cinqüenta anos quando se torna Deputado, medíocre, usando a tribuna para defender numa discussão do orçamento da justiça, a diminuição da barretina da guarda nacional. Fracassa na tentativa de virar Ministro de Estado, funda um jornal oposicionista, o qual morre seis meses depois.

Começa então para ele um período de perdas e decepções, quando morre D. Plácida, também Lobo Neves com “o pé na escada Ministerial”; vê morrer a linda Marcela, desfigurada pela varíola, (…) “feia, magra decrépita…”; encontra em um cortiço, no qual fora distribuir esmolas, Eugênia; como ele mesmo diz (…) “Tão coxa como a deixara, e ainda mais triste”.

Aos 64 anos, ao tentar inventar um remédio sublime para a hipocondria morre Brás Cubas. E com ele o segredo do seu invento; como ele mesmo lamenta: (…) “e aí vos ficais eternamente hipocondríacos”.

Comentar uma obra como esta é arriscar-se cair em lugar comum, pelo muito que a mesma já foi repassada pelas mais diferentes correntes do pensamento literário, entretanto há que ressaltar as inovações que Machado fez nesse texto; inova principalmente na sua temática quando retrata os indivíduos, os quais não possuem nenhuma idealização romântica, a vida de Brás Cubas e dos demais personagens nada tem de interessante, nem mesmo Brás que pressentindo o final de sua vida, sente que precisa de alguma realização pessoal e idealiza um emplastro que tornaria o seu nome famoso. Mas não dá certo, ele adoece e morre!

Após ler este livro, vejo a ironia do destino, imortalizando o nome de Brás Cubas através da obra de Machado de Assis e, que fica famoso, justamente por não ter conseguido fazer nada na vida; penso mais uma vez em meu parente, que sequer, chegando ao termino dos seus dias, imagina algo interessante que o possa relembrar para a posteridade, além do seu nome, toscamente gravado na fria lápide de um tumulo quando morrer!…

Evorah Landi é escritor, radialista e mora em Ituberá, Bahia.

elandi@ibest.com.br

3 respostas para “RESENHA LITERÁRIA: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS”

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