Por Malu Fontes.
Como o nível de politização e informação da media da população brasileira é baixíssimo e boa parte do repertório compartilhado socialmente chega através da televisão, considera-se que a campanha eleitoral só começa, de verdade, quando estreia o horário eleitoral no radio e na TV. A estreia se deu na tarde desta terça-feira e, emulando a teledramaturgia nacional, o gênero mais consolidado da TV brasileira, os marqueteiros dos candidatos investiram, já no primeiro programa, em três personagens que reivindicam nada menos do que o ingresso na antologia definitiva dos tipos políticos brasileiros: a mãe do povo, Zé do mutirão na Portelinha e a Santa Guerreira contra o Apocalipse.
No primeiro programa, veiculado à tarde (na versão noturna todos exibiram outro conteúdo), os três tipos, representados pelos três principais candidatos, apareceram nítidos na tela. O PSDB, depois do fracasso de “Geraldo”, o Alckmin, criou “Zé”, o Serra, e o obrigou a sorrir muito, a sentar-se à mesa de pobres, deficientes e velhinhas chorosas salvas da cegueira nos dois olhos pelos mutirões de cirurgias de cataratas promovidos por José Serra, quando ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso. Como se fosse pouco para um homem com a sisudez de Serra, as imagens tinham como jingle versos que, inacreditavelmente, traziam o nome de Lula da Silva. A musiquinha dizia que, depois de Lula, fica Zé, um homem sorridente que dialoga com o Brasil doente, pois tem Idea fixa em mutirão de tratamento médico e só fala em remédios e patologias. Não foi à toa que no primeiro debate televisivo o candidato do PSOL à Presidência e franco atirador, Plínio de Arruda Sampaio, chamou Serra de hipocondríaco, por só falar em doença.
ENXOVAL – Como não pode ele próprio, por ser homem, metamorfosear-se em mãe do povo, como o marketing do PT fez com Dilma Roussef, Serra promete implantar no Brasil um programa chamado ‘Mãe do Brasil’. Ele conta, sempre sorridente, que, em São Paulo, até um enxovalzinho os bebes ganham nas maternidades públicas. O excesso de sorrisos de Serra tem causado espécie, aqui e alhures, seja na mídia eletrônica, impressa ou on line. A jornalista Milly Lacombe disse, no twitter: “a coisa tá feia para o Serra. Ajudaria se ele tentasse parar de sorrir. Talvez ele não tenha um músculo específico que faz sorrir naturalmente”. Sobre o mesmo sorriso, a revista inglesa The Economist vai além e é impiedosa: “ele aparenta ser insípido, exceto quando sorri, quando parece assustador”.
Já Dilma Roussef, estreou no horário eleitoral com nada menos que um documentário, literalmente rodado em película, assinado por João Santana Filho. No melhor estilo “Quem sou eu/Esta é a minha vida”, a peça é esteticamente irretocável e o telespectador desavisado corria o risco de imaginar que, de tão terna, a música de fundo que embalava as imagens das fotos em preto e branco de um álbum de família de Dilma (incursionando por sua trajetória no movimento estudantil e na cadeia), poderia ter sido extraída do CD da banca mineira Pato Fu, Música de Brinquedo, em que os arranjos são todos feitos com instrumentos musicais infantis. Comparando-se as peças da propaganda dos dois candidatos que, de fato, estão disputando a eleição, a desvantagem para o candidato tucano é de causar constrangimento para os marqueteiros do PSDB. O que se viu foi Serra interpretando sofrivelmente um Zé apopularescado e de sorriso forçado, com direito à imagem de uma favela nos moldes da Portelinha, a favela novelesca de Juvenal Antena (Antônio Fagundes), criada por Aguinaldo Silva em Duas Caras.
RINHA DE GALO – Marina Silva, que, embora acuse Dilma e Serra de infantilizar a sociedade brasileira quando matracam as idéias de pai e mãe do povo e do Brasil, também se rende à infantilização, ao descrever-se como a filha da floresta, fez e não aconteceu em seu tempo de apenas um minuto e 23 segundos na estreia. Nesse tempo exíguo, optou por referir-se a catástrofes que virão se o eleitor não cuidar da natureza. O que se viu no primeiro dia poderia ser peças do videoativismo do Greenpeace ou uma bula imagética didática onde a candidata ensina os passos para evitar o Apocalipse. Citando ameaças como o fim da água, o aquecimento global e a morte das florestas, Marina não economizou no pieguismo ao bradar: “os combustíveis fósseis bombeiam nossas esperanças e ilusões”. Bombeiam? Verbo pior que este para o contexto só mesmo o apego que os candidatos estão desenvolvendo por ceifar. No Brasil não se mata nem se morre em conseqüência da violência: vidas são ceifadas.
Na esfera local, a coisa é feia, feiíssima, e merece um texto à parte. No entanto, antes mesmo de qualquer análise do conteúdo do programa eleitoral local, o episódio midiático mais deprimente entre os relacionados à eleição já aconteceu e não deve encontrar concorrência à altura: o debate realizado pela TV Aratu entre os candidatos ao Senado. As piores rinhas de galo ganhariam fácil em bons modos. Depois disso, o quadro Bafafá, da concorrente TV Itapoan, centrado em rapapés vulgares entre vizinhos na periferia, já pode reivindicar o posto de cool e discreto.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 22 de Agosto de 2010 no jornal A Tarde, Salvador/BA. maluzes@gmail.com
Ótimo, pra variar…
Muito boa análise.
Concordo com a Malu, que é uma ótima articulista; dos três a peça publicitária do Serra é realmente a mais confusa. Não sabem o que fazer com ele, pois realmente aquele sorriso amarelo dele é ridículo! Popularizá-lo ao nível de um Lula, é uma coisa impossível; aquela cara sisuda dele não dá pra nenhum marqueteiro mudar, nem com plástica cirúrgica!…
Pra Variar Malu Fontes fez um comentário completamente pertinente.
Parabéns Malu.