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ENTREVISTA: PROFESSORA DA UESC EXPLICA OS DESAFIOS DO FEMINISMO


Maíra Tavares. Imagem: Facebook/Reprodução.

Maíra Tavares. Imagem: Facebook/Reprodução.

Na noite dessa terça-feira (7), via Facebook, a professora Maíra Tavares Mendes, do Departamento de Ciências Biológicas da UESC, concedeu entrevista ao Blog do Gusmão. Em pauta, o Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta quarta-feira (8), e os desafios do feminismo.

A professora de 32 anos não titubeia ao se apresentar como feminista. Na entrevista abaixo, reflete sobre a presença do machismo e as suas particularidades dentro da universidade. Militante do Partido Socialismo e Liberdade, também fala sobre a defesa da descriminalização do aborto como causa abraçada pelo PSOL. Na segunda-feira (6), o partido levou o tema ao Supremo Tribunal Federal.

O feminismo ganhou muita força nos últimos tempos. Na entrevista, Maíra cita o papel de destaque das mulheres nas manifestações contra o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-presidente da Câmara dos Deputados. Leia.

Blog do Gusmão – Com qual idade você passou a se identificar com o feminismo?

Maíra Tavares Mendes – Entrei em contato com feminismo na universidade, com cerca de 18 anos, quando conheci muitos coletivos. Quando adolescente, tive contato não sistematizado com outras expressões que hoje eu chamaria de feministas, como a expressão cultural das mulheres (era muito fã de artistas que falavam em “Girl Power”) ou a indignação com professores que faziam piadas machistas em sala de aula no meu ensino médio. Teve um episódio em que meus pais foram até a escola cobrar da diretora, e ela falou que nunca gostou de “patrulhamento ideológico”. Mesmo assim, depois disso o professor nunca mais fez piadas do tipo na sala. Acho que foi minha primeira pequena vitória feminista!

Blog do Gusmão– Na universidade, ambiente com pessoas escolarizadas, o movimento feminista enfrenta menos obstáculos do que em outros meios sociais?

Maíra Tavares Mendes – O feminismo enfrenta obstáculos diferentes, mas eu não diria que na academia são menores do que em outros locais. Infelizmente existe uma falsa correlação entre machismo e ignorância, que ignora a condição estrutural do machismo na nossa sociedade – as mulheres são historicamente responsáveis por trabalho não pago. Há variados graus de machismo que se manifestam em todos os estratos sociais: o mais violento é o feminicídio. Há muitos exemplos de pessoas com boa condição financeira que não conseguem lidar com o sentimento de posse da mulher. Na UESC tivemos uma estudante que faleceu no mês de janeiro exatamente nestas circunstâncias. Também há diversos relatos, que muitas vezes ficam no silêncio, de abuso sexual entre a comunidade universitária. Segundo pesquisa recente do Instituto Anis, 85% das estudantes brasileiras têm medo de ser estupradas. Escuto diversos relatos de estudantes que são assediadas por seus colegas e professores. É uma situação muito concreta em que o medo de denunciar ainda persiste, pois a primeira reação é a de culpabilizar a vítima. Não é todo mundo que tem disposição para arcar com as consequências de uma denúncia. No entanto, o que é mais insidioso na universidade é a violência simbólica, que são as inúmeras estratégias de invisibilizar, menosprezar ou silenciar as mulheres, como acreditar que esta discussão está superada, ou não conseguir identificar quando determinadas situações estão relacionadas à condição de gênero. Estas estão amplamente distribuídas no nosso cotidiano e levam até mesmo ao adoecimento, pois muitas vezes a pessoa não encontra apoio na instituição ou nas pessoas com quem convive.

BG – Quais são as principais pautas do movimento feminista no Brasil atual?

Maíra – Para este 8 de março, três temáticas estão em evidência e ganharam muita força também no âmbito internacional. A primeira delas é a luta “Nem Uma A Menos”, que teve marchas massivas na Argentina, Chile e Peru. A ideia do “Nem Uma A Menos” é estabelecer uma ampla campanha contra o feminicídio, mas também chamar a atenção para outros tipos de violência que levam as mulheres à dor física ou psicológica. Outro tema histórico é o da legalização do aborto. Esta pauta ainda é tratada com muita polêmica, pois há grupos pró-nascimento que não admitem a possibilidade de escolha da mulher sobre o seu próprio corpo, devido a questões religiosas, inclusive com muita força no Congresso Nacional. Um dos elementos que fez com que houvesse um grande ascenso do movimento feminista foi justamente a tentativa de Eduardo Cunha, em meio aos escândalos do impeachment, de restringir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, por exemplo, dificultando o acesso à pílula do dia seguinte.

Nesse debate, deve ser entendido que a legalização do aborto garante um direito básico, que é a liberdade de escolha da mulher, a autonomia sobre seu próprio corpo. Ninguém deseja fazer um aborto: é traumático e extremamente arriscado. No entanto, é realizado mesmo sendo proibido. As mulheres ricas fazem em segurança, enquanto as pobres (e especialmente as negras) morrem de hemorragia em procedimentos improvisados ou mesmo por negligência no atendimento.

Outro tema que terá força este ano é a Reforma da Previdência. Ela afeta especialmente as mulheres, com a proposta do governo de igualar a idade de aposentadoria. Muita gente costuma falar que isto seria uma medida igualitária, porém, ela ignora que as mulheres empregam até 60% de tempo a mais do que os homens em trabalhos domésticos, o trabalho não pago, com exceção das profissionais da área. É um trabalho pesado. Envolve não apenas limpeza e organização, mas o cuidado com outros seres humanos, como crianças e idosos, além da alimentação. Portanto, a mulher arca ainda mais com esta sobrecarga na proposta de Reforma da Previdência.

BG- Na segunda-feira (6), o PSOL e a Anis (Instituto de Bioética) protocolaram no Supremo Tribunal Federal pedido de legalização do aborto até a 12ª segunda semana de gestação. Essa é uma posição unânime dentro do partido e do movimento feminista no Brasil?

Maíra – A posição em defesa da legalização do aborto no PSOL foi aprovada no seu 1º Congresso e ratificada em todos os outros. Existem pessoas no PSOL que não concordam com a legalização, porém, de modo geral, respeitam que o conjunto do partido acumulou para esta posição. Não há polêmica interna sobre este tema no âmbito do PSOL.

Não existe “um” movimento feminista no Brasil. Há inúmeras expressões de movimentos de mulheres. A legalização do aborto é uma das pautas históricas do feminismo brasileiro, mas, como em todo e qualquer tema, não é unânime. Exemplo de outros temas polêmicos entre os movimentos de mulheres são o respeito à identidade de gênero das mulheres trans e a regulamentação da prostituição. No entanto, a defesa da legalização do aborto tem crescido, especialmente após os debates que envolveram a epidemia de zika. Ainda é um tema espinhoso em vários de seus aspectos, especialmente no debate sobre o que é vida. Se nem os biólogos têm consenso sobre o que é vida, que dirá os movimentos de mulheres, que têm contextos tão diversos!

BG – Como será o Dia Internacional da Mulher neste 8 de março de 2017?

Maíra – Gostaria de destacar que este 8 de março está num patamar distinto dos anteriores. No começo deste ano, foi o movimento de mulheres o polo mais forte de resistência ao presidente Donald Trump – mais de 5 milhões de pessoas saíram às ruas nos Estados Unidos e diversas marchas ocorreram em vários outros países. O movimento de mulheres foi determinante para a cassação e a prisão de Eduardo Cunha. Ele é certamente o político mais antipatizado do Brasil, não apenas pelos casos de corrupção, mas por representar o conservadorismo em diversas pautas, além de ter sido o pivô do impeachment.

Mencionei também as marchas Ni Una A Menos nos países latino-americanos, rechaçando os casos de feminicídio. No Brasil, são muitas marchas convocadas para o dia 8. Além disso, figuras históricas do feminismo, como Angela Davis e Nancy Fraser, endossaram uma convocatória para que amanhã seja realizada uma greve mundial de mulheres, com o mote “se nossas vidas não importam, produzam sem nós”, procurando conscientizar as mulheres a não realizarem atividades laborais ou domésticas no dia 8, em protesto. Acredito que sejam expressões da vitalidade e da renovação dos movimentos de mulheres em todo o mundo. Esse fenômeno é irreversível. Sugeriria a todos os homens que escutassem suas companheiras de trabalho, de casa, de escola e de universidade, não apenas amanhã, mas nas outras ocasiões, pois se o machismo é algo que se aprende, também é importante procurar desaprendê-lo, especialmente dando condições para o protagonismo das mulheres nesta luta.

2 respostas para “ENTREVISTA: PROFESSORA DA UESC EXPLICA OS DESAFIOS DO FEMINISMO”

  • katianny gomes santana estival disse:

    Boa tarde,

    Parabéns companheira Professora Maira!

    Precisamos dialogar e nos tornarmos visíveis na sociedade e nos espaços nos quais ocupamos e que ainda pretendemos ocupar.

    Sou Professora do Curso de Administração da UESC e constatei hoje que menos de 5 (cinco) monografias do curso de Administração falam sobre gênero, feminismo ou mulheres…como se no mercado de trabalho da área não existissem questões críticas acerca do tema…

    Nenhuma disciplina do curso até a data atual aborda a questão de acordo com as ementas.

    Precisamos lutar sim contra a invisibilidade das mulheres, seja nos lares, no mercado de trabalho, na política, no ambiente universitário, nas religiões, enfim em todos os espaços da sociedade.

    “Machistas não passarão”!

    Abraços,

    Professora Katianny Estival

  • Linnesh Ramos disse:

    Parabéns pela entrevista Maíra, e parabéns pelo espaço blog do Gusmão.
    Precisamos ampliar e popularizar o feminismo. Seja nas universidades, escolas e bairros. Sou professora de estágio na Uefs, e é um desafio formar professores que não ignorem esses dados da realidade. Ainda mais quando o ambiente da academia tem a marca profunda do machismo, como você bem colocou.
    Estamos juntas! O machismo mata. O feminismo liberta.
    Abraços!
    Linna Ramos.

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