Mensagem de Maria Honorina na carteira de trabalho de José Henrique Abobreira.

Mensagem de Maria Honorina na carteira de trabalho de José Henrique Abobreira.

José Henrique Abobreira foi vice-prefeito, vereador de Ilhéus e trabalhou por quase quatro décadas como fiscal da Secretaria da Fazenda da Bahia. O episódio narrado abaixo, no entanto, não é sobre a sua trajetória ilibada na vida pública. Muito antes disso, na juventude, já dava provas da integridade moral que até hoje o distingue, especialmente nos tempos de Lava-Jato.

Em 1972, após a morte do pai, Eronildes Abobreira, José Henrique virou arrimo de família. Estava prestes a completar vinte anos quando deixou Ilhéus para trabalhar em Itabuna, na Servidora Limpeza, Conservação e Serviços Auxiliares Ltda. Para economizar, dormia no almoxarifado da empresa. 

Naquele ano, a empresa venceu licitação para prestar serviço à Ceplac. Abobreira assumiu a chefia do escritório em Itabuna, mas, “ao mesmo tempo, era um faz-tudo”, explicou ao Blog do Gusmão no último dia 9, durante conversa na sua casa no Pontal. “Quando a firma estava instalada, ganhamos outra concorrência para cuidar do Bradesco”.

Corria o ano de 1974. Nessa época Abobreira já era conhecido entre a equipe da agência do Bradesco na Avenida Cinquentenário, Centro de Itabuna. Parte do seu trabalho consistia em fiscalizar a limpeza do banco. Dois funcionários trabalhavam sob a sua supervisão.

Numa noite de abril, voltou ao banco para cumprir a rotina. “Entrei e comecei observando a limpeza das mesas e cadeiras. Quando cheguei no fundo da agência, tomei um susto retado! O caixa-forte do banco estava aberto. Era imenso e estava escancarado. O choque foi tão grande que nem olhei realmente o que tinha lá dentro. Sabia que tinha muito dinheiro”, lembra.

Ainda sob o impacto do susto, caminhou até a porta da agência. Ao sair, viu um policial militar, a quem pediu ajuda. Explicou a situação ao soldado e solicitou que ele vigiasse a entrada do banco. “Pelo amor de Deus, não deixe ninguém entrar nem sair”. Abobreira confiava nos dois faxineiros, mas imaginou logo o problemão que toda a equipe da terceirizada enfrentaria se o banco desse falta de algum objeto do cofre. Pela tradição humana de cortar sempre a corda do lado mais fraco, qualquer suspeita tinha muita chance de recair sobre os funcionários da limpeza.

Com a porta do banco vigiada, entrou na Kombi da empresa e mandou o motorista tocar para o endereço do tesoureiro da agência, Marciano. Lembrou, entretanto, que o tesoureiro costumava lhe tratar com certa arrogância. Ao descer da Kombi, já refeito do susto, pensou que aquela era uma boa oportunidade para dar o troco.

Bateu na porta e, quando o dono da casa lhe atendeu, disparou:

– A gente precisa ir lá na agência agora. O senhor esqueceu o cofre aberto.

Marciano ficou verde, mas partiu rápido para a agência. No dia seguinte, com o sentimento de gratidão de quem teve a vida profissional salva, o tesoureiro procurou a proprietária da Servidora Limpeza, Maria Honorina Melo. Narrou-lhe o episódio e pediu que a empresa prestasse algum tipo de homenagem ao chefe do escritório de Itabuna.

Maria Honorina registrou a história na carteira de trabalho do colaborador. Sentado na varanda de casa, sem camisa, Abobreira pegou o documento e, a pedido do Blog do Gusmão, leu a mensagem escrita à caneta: 

 – Elogiado, em 30 de abril de 1974, pela empresa Servidora Limpeza, Conservação e Serviços Auxiliares Ltda, por ter mostrado probidade e honradez, em seu ato de encontrar o cofre-forte de um banco aberto, durante a sua fiscalização na prestação de serviço da empresa, às 22 horas, e ter de imediato procurado a direção para tomar as providências cabíveis no caso, sem ter se maculado.