Seu Antônio deu entrada no Hospital Regional com falta de ar, mas se recupera bem.

Seu Antônio deu entrada no Hospital Regional com falta de ar, mas se recupera bem.

Nos últimos meses, o estômago de Seu Antônio sentiu os efeitos dos longos intervalos entre as refeições, hábito que as circunstâncias da vida lhe impuseram. “Uma gastura, meu filho”, assim resumiu a sensação ruim que o fez trocar o café por Nescau no desjejum. Manteve o pão com manteiga. Ele demora de comer porque trabalha muito. Recolhe latas para reciclagem. O trabalho complementa a aposentadoria, e o coloca na ponta do esforço ecológico que reduz o consumo de matéria-prima original.

O Capitão Planeta, herói de um desenho animado, tem superpoderes para combater as ameaças à vida na Terra. A missão diária de Seu Antônio tem o mesmo sentido. No entanto, o heroísmo do homem de setenta anos não tem magia. O tempo cobra os limites do corpo. Na última sexta-feira (16), sentiu “uma falta de ar”, como explicou, e deu entrada no Hospital Geral Luiz Viana Filho. Recupera-se bem, mas continua internado.

Nosso herói vive com a sobrinha e as duas filhas dela. Pelo menos cinco vezes por semana, deixa o Teotônio Vilela, bairro onde mora, para catar latas no Centro de Ilhéus. Frequenta shows com a constância que faria inveja a qualquer boêmio. Mas não vai para se divertir. A presença de catadores em festas produz o seguinte raciocínio no público mais criativo. “Se uma pessoa vai catar, não é preciso jogar a lata na lixeira”. Não nos cabe julgar o mérito desse silogismo. Contentamo-nos com a imagem de um mar de latinhas num gramado qualquer em Ilhéus. Antônio está nele, curvado sob o próprio peso, que se soma aos dos dois sacos de lata com os quais nos acostumamos a vê-lo.

É necessário catar muitas latinhas para transformá-las em dinheiro. Aqui também não há magia. O preço do quilo tem variado entre três reais e três e vinte. Por isso Seu Antônio não gosta de perder festa nem debaixo de chuva. Foi assim num show recente de Bel Marques e Solange na Avenida Soares Lopes. Encontramo-nos na manhã seguinte. Ele estava resfriado.

Há uma tentação intuitiva em associar o resfriado, que se prolongou, à sua falta de ar. Mesmo porque ele já havia reclamado do desconforto no sistema respiratório. É do tipo que responde com sinceridade quando perguntam se está tudo bem. No hospital, ficou feliz ao saber que as pessoas com quem convive no Centro queriam informações sobre o seu estado de saúde. Talvez Antônio José Santana não goste de descobrir que esta reportagem do Blog do Gusmão informa o apelido que o desagrada – Sorriso -, citado aqui apenas porque pouca gente da cidade o conhece pelo nome.

Atualizado às 16h08min (22 de junho de 2017).

Seu Antônio faleceu ontem à noite, poucas horas depois da publicação da matéria acima – veja aqui.