Desemprego cresce mais entre os trabalhadores que recebem de um a dois salários mínimos. Imagem: Frederico Haikal.

Desemprego cresce mais entre os trabalhadores que recebem de um a dois salários mínimos. Imagem: Frederico Haikal.

Entre janeiro e junho deste ano, Ilhéus registrou saldo negativo de 406 postos de trabalho. No mesmo período, a vizinha Itabuna perdeu 136 empregos. Esses números negativos resultaram da diferença entre a quantidade de vagas abertas e fechadas nos dois municípios.

As informações são do IX Boletim de Conjuntura Econômica e Social de Ilhéus e Itabuna, documento elaborado pelo Centro de Análise de Conjuntura Econômica e Social (CACES), projeto de extensão do Departamento de Economia da UESC.

Ontem (24), o professor Sérgio Ricardo Ribeiro Lima, membro do CACES, enviou ao Blog do Gusmão uma análise sobre os dados do último boletim. Além do mercado de trabalho, o economista destacou o volume significativo dos recursos federais e estaduais para a arrecadação dos dois municípios. Essa transferência de receitas se baseou no Programa Bolsa Família, no Benefício de Prestação Continuada e na Renda Mensal Vitalícia.

Sérgio Ricardo também enfatizou a perda de renda média nas duas cidades. Como o desemprego cresceu principalmente entre os profissionais que recebem de um a dois salários mínimos, o impacto negativo afetou as pessoas mais pobres.

Isso “traz um impacto social muito forte para uma região estruturalmente marcada pelas condições sociais e econômicas precárias. Daí entendermos a importância da renda dos programas sociais nos dois municípios, em especial, o Bolsa Família. Vale ressaltar que essa realidade não é apenas em Ilhéus e Itabuna, mas em boa parte do interior do Brasil”, concluiu o pesquisador. Leia a íntegra abaixo.

Ilhéus e Itabuna: arrecadação, rendas e emprego no primeiro semestre de 2017

O professor Sérgio Ricardo analisa o cenário socioeconômico de Ilhéus e Itabuna.

O professor Sérgio Ricardo analisa o cenário socioeconômico de Ilhéus e Itabuna.

Por Sérgio Ricardo Ribeiro Lima

O objetivo desse texto é fazer um balanço resumido da economia dos municípios de Ilhéus e Itabuna no primeiro semestre de 2017 (janeiro a junho). Esse balanço diz respeito às variáveis: receita tributária, renda dos programas sociais (BPC, PBF, RMV), emprego e renda salarial do emprego. A análise e os dados foram baseados nos Boletins de Conjuntura Econômica dos municípios de Ilhéus e Itabuna, elaborado pelo Departamento de Economia da UESC, através do Projeto de Extensão CACES (Centro de Análise de Conjuntura Econômica e Social).[1]

O município de Ilhéus nesse semestre teve uma renda tributária[2] (que exclui os repasses do governo federal e estadual) de R$ 37.383.026,62, enquanto em Itabuna foi de R$ 25.646.314,09. Portanto, a receita tributária dos dois municípios no semestre foi de R$ 63.029.340,71.

As rendas dos programas sociais (que inclui o PBF, BPC e a RMV[3]) foram, no semestre, para Ilhéus, no valor de R$ 62.113.531,66 e Itabuna, R$ 80.812.841,41, somando a renda dos programas sociais para os dois municípios no valor total de R$ 142.926.373,07.

Comparando as rendas tributárias e as rendas dos programas sociais, a segunda representa mais do dobro da receita tributária dos dois municípios. Portanto, a renda dos programas sociais representa quase o dobro da renda tributária de Ilhéus e mais de três vezes a renda tributária de Itabuna.

Quanto ao mercado de trabalho, Ilhéus teve nesse semestre o desligamento de 3.424 pessoas e Itabuna 4.381 pessoas. Porém, o saldo total (admissões – desligamentos) foi, em Ilhéus, de -406 pessoas e em Itabuna, de -136. Ou seja, nesse primeiro semestre, o mercado de trabalho, nos dois municípios, retraiu.

A maioria desses desligamentos ocorreu na faixa salarial entre 1 e 2 SM (Salário Mínimo), seguida das faixas até 1 SM e, depois, 2 a 3 SM. Ou seja, os desligamentos vêm afetando, nos dois municípios, as pessoas de mais baixa renda, o que traz um impacto social muito forte para uma região estruturalmente marcada pelas condições sociais e econômicas precárias. Daí entendermos a importância da renda dos programas sociais nos dois municípios, em especial, o PBF. Vale ressaltar que essa realidade não é apenas em Ilhéus e Itabuna, mas em boa parte do interior do Brasil.

Fizemos o cálculo da renda média salarial perdida nos dois municípios para aquelas pessoas que recebiam até 2 SM e chegamos aos seguintes valores: Ilhéus perdeu no semestre uma renda salarial média (apenas na faixa até 2 SM) de R$ 4.410.459,00 e Itabuna, R$5.595.295,50, o que dá no total, uma renda total – que deixou de circular – no valor de R$10.005.754,50. Vale salientar que esse montante diz respeito apenas ao número de desligamentos, não considerando, portanto, as admissões e o saldo total (admissões – desligamentos).

Pode parecer pouco, mas, economicamente falando, esse montante de renda salarial perdida (pois não estamos considerando as demais faixas salariais nem aqueles trabalhadores sem carteira assinada que também perderam o emprego e que, portanto, não entram no cálculo do Ministério do Trabalho) implica num multiplicador de renda muito maior quando imaginamos que esse montante circula nos bairros mais carentes e no comércio e na demanda de serviços em geral do município. Portanto, o impacto é muito maior. Isso sem considerar as perdas acumuladas que vêm desde 2015 (que estão disponíveis na internet, na página do boletim de conjuntura, em caces.uesc.br).

[1] Agradecemos aos professores e discentes que fazem parte da equipe do projeto.

[2] A receita tributária diz respeito aos impostos próprios do município: IPTU, IRFF, ISS e ITBI, afora outras receitas (Boletim de Conjuntura Econômica disponível em caces.uesc.br).

[3] PBF=Programa Bolsa Família; BPC=Benefício de Prestação Continuada, cuja renda é bem maior que a do PBF; RMV=Renda Mensal Vitalícia. Maiores detalhes na página do boletim na internet.