Ademir Melo e alunas tocam clássico da música cubana, Quizás, Quizás, Quizás. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Ademir Melo e alunas tocam clássico da música cubana: Quizás, Quizás, Quizás.

Reportagem: Thiago Dias

Sentado diante de duas alunas que tocavam flautas, Ademir Melo acompanhava o som com um violão. A canção era a famosa Quizás, Quizás, Quizás, do cubano Osvaldo Ferrés. Cenas como essa se repetem toda vez que o antigo aluno volta à Associação Centro Educacional de Ação Integrada (ACEAI), onde assumiu, em 2010, o papel de professor de música.

O centro é um oásis de oportunidades no bairro Nossa Senhora das Vitórias, na zona sul de Ilhéus. Quando chegou à instituição, Ademir tinha nove anos. Com a própria dedicação e as lições dos professores, desenvolveu o seu potencial para tocar instrumentos musicais. O apoio da entidade também valeu uma bolsa no Conservatório Musical Schumann, que lhe abriu as portas para a profissionalização. Hoje se mantém como instrutor de música, enquanto avança na graduação em direito. Está no sétimo semestre do curso.

A história de Elane Cage tem um roteiro parecido. Também envolve uma arte. A elegância da sua postura ereta, característica da disciplina que as bailarinas impõem ao próprio corpo, sintetiza o percurso de uma vida dedicada à dança. Era uma menina quando começou a frequentar as aulas de balé da professora Antônia Correia na ACEAI, há mais de vinte anos.

Depois, aproveitou uma bolsa para desenvolver as suas habilidades na antiga Escola de Dança Carolina Câmara, cujo nome atual é Núcleo da Dança. A segunda etapa da sua formação se deu sob a tutela da bailarina Isabela Kruschewsky. Com os novos conhecimentos, passou a promover oficinas para os alunos da ACEAI, onde hoje atua como professora e coordenadora do projeto Viver no Amor. Além de concluir o concurso técnico de dança na A-rrisca, companhia renomada de Ilhéus, graduou-se em serviço social.

A professora Elane Cage e uma das suas turmas de balé.

A professora Elane Cage e uma das turmas de balé do projeto Viver no Amor, da ACEAI.

Elane e Ademir conversaram com o Blog do Gusmão na última terça-feira (29), durante a nossa visita à associação. Apesar de breves, os encontros revelaram que os dois professores são provas vivas da importância da ACEAI para o Nossa Senhora das Vitórias. Para usar uma expressão que aprendemos durante a reportagem, eles são “tesouros do bairro”, joias esculpidas pelo legado das Irmãs Missionárias da Santíssima Trindade, fundadoras do centro.

O início da missão remonta aos primeiros dias da comunidade fundada há 31 anos, em agosto de 1986. “Elas vieram para o bairro junto com a ocupação”, contou-nos o técnico agrícola Pedro Henrique Barros e Silva, administrador da ACEAI. “Naquela época, a necessidade era a educação infantil, porque as mães conseguiam trabalho, mas não tinham com quem deixar as crianças”.

Pedro Henrique.

Pedro Henrique.

O ativismo social das irmãs nasceu como uma mistura de creche com pré-escola. “Enquanto as mães trabalhavam, elas ficavam com as crianças e davam aulas”, explicou Silva, que também é missionário da Igreja Católica. Ao mesmo tempo em que a população do bairro crescia, o espaço onde o projeto surgiu parecia encolher. Para ter um local mais amplo, as religiosas construíram um centro comunitário, que virou a primeira escola da comunidade. Com a chegada de mais famílias, o colégio também ficou pequeno.

Os problemas espaciais acabaram quando o fazendeiro Napoleão Marques doou metade do terreno de dois hectares onde a instituição funciona, à margem da BR-251. As irmãs compraram a outra parte. Como as religiosas fizeram voto de pobreza, destinaram a maior parte dos próprios recursos ao projeto social.

Em 2002, as missionárias separaram o projeto da obra religiosa. Assim nasceu o nome Associação Centro Educacional de Ação Integrada. Hoje as irmãs supervisionam a entidade a distância. Além de Pedro e outros colaboradores, a diretoria atual reúne a presidente Ana Lúcia de Assis Coutinho e a coordenadora Elinalva Barros (Sui).

Elinalva Barros. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Elinalva Barros. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Sui nos recebeu na diretoria da ACEAI. Chegamos a tempo de compartilhar o cafezinho da tarde sentados em frente a um computador com um adesivo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que tem uma xará no bairro. Segundo Elinalva, Dilma Marques, moradora do alto do Nossa Senhora das Vitórias, passou por diversas oficinas de costura e artesanato oferecidas pela instituição.  Com a formação profissional, Dilma Marques montou o seu próprio negócio. O tino empreendedor garantiu a sua emancipação econômica.

Como mostra o exemplo da costureira, as atividades de formação também envolvem os adultos do bairro. “Por isso o nome é ‘educação integrada’. Não é só a criança, mas a família toda”, explicou Pedro Henrique. Ele estima que a ACEAI atende quinhentas pessoas, “colocando por baixo”. A idade das crianças e dos adolescentes varia entre 4 e 18 anos. Eles são maioria e frequentam o centro no turno oposto ao da escola. Além do reforço escolar, podem se inscrever nas aulas de dança (contemporânea, afro, balé clássico, jazz) e de música (instrumentos de sopro, teclado, violão, percussão e outros). Os adultos se concentram nas atividades profissionalizantes.

A manutenção de toda essa estrutura custa, em média, dez mil reais por mês. A associação capta recursos financeiros e doações de pessoas jurídicas. A empresa GERTEC Automação Comercial doa os alimentos para a cozinha da entidade. Além de nutrir os participantes do projeto, a comida é suficiente para a doação de cinquenta refeições diárias à comunidade. Dez delas são reservadas para os trabalhadores da COOLIMPA (Cooperativa de Catadores Consciência Limpa de Ilhéus Cooperativa), que criaram um ponto de coleta de material reciclável na ACEAI.

A parceria de mais de vinte anos com o Progetto Agata Smeralda, da Itália, garante o funcionamento da escola de dança coordenada por Elane Cage. Segundo Elinalva Barros, sem o auxílio mensal dos setenta e dois padrinhos de Florença, não seria possível manter as aulas de dança. O número de doadores italianos é mais de três vezes maior do que o de brasileiros, que somam vinte e dois. Ilhéus tem três: A psicanalista Simei Soeiro, sócia-proprietária da livraria Papirus, o fotógrafo Kelson Souza e Belanizia, contadora aposentada. Outras pessoas e empresas da cidade colaboram de forma diferente com o projeto.

Elinalva vê a escola de dança como “o carro-chefe” da ACEAI. Orgulhosa, como uma mãe a exaltar as conquistas dos filhos, elencou os adolescentes que conquistaram bolsas na companhia A-rrisca: “Wanderson, Milena, Beatriz e Thauana”. Lembrou também de Cláudio Ramiro, que deu os primeiros passos na dança, mas decidiu seguir a carreira de educador físico e hoje é professor da SV Fitness.

Conforme Elinalva, “o trabalho que as irmãs iniciaram aqui é uma semente de empoderamento dessa comunidade”. A própria reflexão a fez lembrar do Grupo Rosa, que reúne jovens da ACEAI. O coletivo iniciou um levantamento que destaca aspectos positivos do Nossa Senhora das Vitórias. Por exemplo: enquanto o Centro de Ilhéus tem apenas uma biblioteca aberta ao público, o bairro tem cinco. No movimento de reinterpretação do território, essa é uma realidade preciosa que deve ser exaltada como um tesouro. O mesmo vale para as aulas gratuitas de diversas artes, porque a oportunidade de aprendê-las também é uma preciosidade nas periferias do mundo.

Pedro Henrique também falou com orgulho do Grupo Rosa e da iniciativa de resignificação da identidade local. “Por sermos de um bairro da periferia, a gente sofre muito preconceito. Muita gente diz: ‘Ah, é um bairro muito violento’. Então as pessoas acabam tendo medo de vir aqui. O que esses jovens pensaram? Eles começaram a identificar as coisas boas que tem no bairro. Por isso o nome do projeto é “Tesouros do Bairro”.

Interessados em colaborar com a ACEAI podem manter contato por telefone: (73) 3632-0211.