O radialista e escritor Waldeny Andrade. Imagem: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

O radialista e escritor Waldeny Andrade. Imagem: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Reportagem: Thiago Dias.

Waldeny Andrade lançou ontem (27) o seu terceiro livro, Serra do Padeiro – A Saga dos Tupinambás. Antes do lançamento realizado na Academia de Letras de Ilhéus, o Blog do Gusmão conversou com o autor, cujo percurso como radialista atravessa a história da comunicação no sul da Bahia na segunda metade do século XX.

Waldeny nasceu no dia 1º de novembro de 1935, no município de Boa Nova, perto de Poções, mas cresceu no sul do estado.  “Assim que nasci, minha família se mudou para Ipiaú, onde passei toda a infância”.

Corria o ano de 1957. A riqueza do cacau ainda era pujante, e Ilhéus, um paraíso para um jovem de 22 anos. Waldeny já sabia o que procurava quando chegou na cidade. Bateu na porta da Rádio Cultura de Ilhéus e, após um teste, ganhou um contrato como aprendiz.

“A Rádio Cultura de Ilhéus foi a primeira emissora da região. Naquela altura, ainda era a única, só depois veio a Rádio Clube de Itabuna”, nos contou o radialista aposentado, com a voz grave que certamente fez diferença na prova de admissão.

Ao longo da carreira, passou “por todas as funções do radiojornalismo, exceto a cobertura esportiva”, disse. Deixou a emissora em 1969 e transferiu-se para a Rádio Jornal de Itabuna, onde atuou até a aposentadoria, em 1998. Também trabalhou com o jornalismo impresso no Diário de Itabuna.  

Antes de se mudar definitivamente para a cidade vizinha, enveredou-se na política de Ilhéus. Nas eleições municipais de 1967, elegeu-se vereador. Como sugere o tema do seu último livro, Waldeny Andrade não foge dos debates mais espinhosos. A coragem do radialista, contudo, não era uma virtude para o regime militar, que cassou o seu mandato.

Sob a influência da Guerra Fria, a propaganda da ditadura estimulava uma espécie de paranoia social contra a “ameaça comunista”. Waldeny não era do Partido Comunista Brasileiro nem defendia a revolução proletária. Ainda assim, o Comando Militar de Ilhéus o tratou como “comunista e subversivo”, em razão dos seus pronunciamentos na Câmara e no rádio.

A Polícia Federal chegou a detê-lo para interrogatório. “Me deram uma noite de chá de cadeira”. Ele associa o episódio ao militar que vivia na sua cola na época, “um certo Coronel Beltrão”, citado no seu primeiro livro, Vidas Cruzadas (2013).

O segundo romance do autor se chama Ilha de Aramys (2015) . A obra traz uma característica presente também nas outras duas: o estilo da escrita conduz o leitor por enredos que misturam memórias e ficção. O cenário evocado no título mais recente – Serra do Padeiro – faz parte do território sagrado para o povo tupinambá do sul da Bahia, que se estende por 47 mil hectares entre os municípios de Una, Buerarema e Ilhéus. Os índios exigem a demarcação da terra com base no direito dos povos originários, reconhecido pelo Estado na Constituição Federal de 1988.

O livro de Waldeny defende a causa indígena. Na conversa dessa quarta-feira, perguntamos por que ele decidiu escrever um romance a partir do tema. Respondeu que a inspiração surgiu de uma memória da época de repórter. Na década de 1980, ele cobriu os conflitos que envolveram os pataxós hã hã hães. No município de Pau Brasil, um episódio o impressionou. “Eu vi cerca de mil índios expulsos das suas terras, tangidos como se fossem animais para a Estação Experimental de Uruçuca”. Para o escritor, aquela imagem representa a condição da maior parte dos índios do Brasil, o que também vale para os tupinambás, porque “os invasores não aceitam a demarcação. Eles querem a terra a qualquer custo”.

Ele sabe que o seu posicionamento desafia o ódio da pessoas que negam a identidade dos tupinambás, muitas vezes chamados de “falsos índios” em pleno século XXI. No entanto, assim como durante a ditadura, demonstra a mesma disposição para defender as ideias em que acredita. Prova disso está na epígrafe de Serra do Padeiro, uma frase do escritor Monteiro Lobato. “Há dois modos de escrever: um é escrever com a ideia de não desagradar ou chocar alguém […], outro modo é dizer com desassombro e coragem o que pensa, dê onde der, haja o que houver: cadeia, forca, exílio”.

O livro Serra do Padeiro – A Saga dos Tupinambás custa quarenta reais e pode ser comprado no site da editora Via Litterarum.