José Henrique Abobreira escreve sobre a Ilhéus da juventude dos seus netos.

Por José Henrique Abobreira.

Tenho três netinhos: Antonio Henrique, de 3 anos de idade, Ana Beatriz, com três meses de vida, e Gabriela, nascida há treze dias. Eles deram um novo sentido de vida para toda a família. Aos avós, em especial, deram a alegria e a motivação que nos reforçam a vontade de prolongar a nossa existência e, assim, acompanharmos a infância deles, o seu crescimento e desenvolvimento intelectual.

Também desejamos que os três cresçam numa Ilhéus mais organizada, com muitas oportunidades para a sua geração. Em breve, por exemplo, o município poderá abrir uma maternidade equipada com UTI Neonatal e todos os recursos para que as mamães ilheenses possam ter as suas crianças de forma segura. Isso evitaria a necessidade de deslocamento para Itabuna, onde há melhores condições de medicina obstétrica. Fico “pê” da vida, arretado mesmo, ao ver os registros de meus netos como paridos em Itabuna.

Em 2034, quando a cidade vai comemorar os 500 anos da fundação da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, quero que ela esteja muito melhor. Com a experiência de vida que possuo, compreendo que o tempo histórico para mudanças profundas nesta nossa cidade, 17 anos, é muito curto. Porém, temos que nos esforçar para darmos um salto de qualidade.

Podemos iniciar com o aprofundamento da participação popular na gestão pública, a começar pela escolha de representantes comprometidos com esse avanço do processo democrático. Os conselhos municipais devem ganhar forçar para contribuir com a formulação das políticas públicas e participar ativamente do controle da sua execução. Com conselhos mais fortes, com boa infraestrutura e recursos, é possível ampliar os espaços de decisão, inserindo mais representantes das comunidades periféricas nos processos decisórios dos nossos gestores.

O Conselho de Transporte, por exemplo, deverá ser mais atuante, com mais espaço para a participação de jovens, líderes comunitários, estudantes, trabalhadores e qualquer pessoa interessada em contribuir com boas ideias para a mobilidade urbana. Às vezes, é tudo uma questão de ouvir as comunidades sobre os horários dos ônibus, algo tão simples.

Também seria importante elaborarmos um estudo sobre a viabilidade do transporte fluvial coletivo para a população urbana e rural, além dos turistas que nos visitam, aproveitando a grande área entrecortada por rios em nosso município.

Não será preciso “inventarmos a roda”, apenas aplicar bem o dinheiro público mediante critérios republicanos. O nosso campo também carece de uma olhar especial, que poderá vir das universidades públicas da região, além dos gestores municipais. Temos que instrumentalizar os assentados da reforma agrária, assim como a agricultura familiar e as comunidades do povo Tupinambá de Olivença.

As universidades públicas, nesse futuro próximo, também poderiam assumir um papel mais incisivo na realidade da educação básica regional. Penso nas escolas de aplicação, comuns em estados como Minas Gerais e São Paulo, onde professores universitários também atuam na formação de crianças e adolescentes.

Nesses próximos anos teremos que, sociedade e governos, aprofundarmos um olhar especial para a deteriorada e sucateada área de saúde pública municipal. Os postos não funcionam a contento, faltam medicamentos e insumos, como gazes e esparadrapos para curativos. Há de se otimizar os repasses vinculados da área de saúde provenientes do governo federal, pois, enquanto isso não for feito, a população carente continuará a pagar um alto preço pelo descaso das autoridades locais.

O nosso desejo sobre o futuro da cidade aponta, também, para a questão da juventude, a inclusão prioritária deste segmento, que é maioria nas periferias, em programas culturais, esportivos, empreendimentos na área de tecnologia da informação, música, artes cênicas, audiovisual, moda, dança, design, artesanato, enfim, tratar e incentivar a economia criativa em matéria de geração de emprego e renda.

O presente texto é apenas uma projeção pequena, diante da complexidade das questões que se apresentam para o desenvolvimento humano em nossa cidade. Porém, essas considerações podem servir de ponto de partida para uma discussão ampliada, caso os leitores desta coluna queiram participar desse exercício futurístico. Sintam-se à vontade para colaborar nos comentários.

Por fim, conto uma historinha verdadeira: quando estive vice-prefeito e secretário municipal de desenvolvimento econômico, garimpei bons projetos de infraestrutura rural. Colocava os recursos oriundos de convênios diretamente para a própria comunidade contemplada administrar, via associação de pequenos produtores. Toda a comunidade acompanhava e fiscalizava de perto as fases de execução do projeto, o que rendeu excelentes resultados. Cito o exemplo da fábrica elétrica de farinha de mandioca construída dessa forma. Finalizada a obra, sobrou uma graninha que foi usada para levar eletricidade para a escola local e para a casa da professora, que morava num anexo da sala de aula.

José Henrique Abobreira é servidor aposentado da Receita Estadual e colunista do Blog do Gusmão. Foi vice-prefeito e vereador de Ilhéus.