Por Caio Pinheiro.

Perplexidade, passividade e medo, são três das inúmeras adjetivações passíveis de qualificar o comportamento da sociedade brasileira frente os descalabros do governo Temer. Embora seja fácil ouvir gritos de indignação vindos dos mais variados setores da sociedade, é complexo entender por que essas vozes indignadas não se transfiguram em ações efetivas no campo da luta política.

Acometidas por uma espécie de “encefalopatia política”, frações expressivas da classe média vociferam discursos de ódio ritmados pela batuta midiática. Fingem não ver o agigantamento das iniquidades sociais; como se o fato do Brasil voltar a integrar o mapa da fome não fosse uma questão de nação, mas, sim, de CLASSE social.

Sobram provas do ataque criminoso ao estado democrático de direito. Corporações do poder judiciário instrumentalizam normas excepcionais em nome do justiçamento e não da justiça. Por mais que atenda aos nossos anseios por justiça, é um equívoco aplaudirmos a conduta parcial de procuradores e juízes, pois, amanhã, qualquer um de nós poderá ser vítima do justiçamento sem ter a quem recorrer. É a velha máxima: o judiciário fiscaliza a sociedade, mas quem fiscaliza o judiciário?

Do bunker milionário de Geddel ao perdão de Aécio, não tivemos tempo para processar tantas promiscuidades patrocinadas sob a anuência de espectros obscuros da classe política e do judiciário. São inconformidades difíceis de engolir, particularmente quando constatamos que no Brasil a martelada da lei é abrandada quando o julgador é amigo do julgado. Quem não se lembra do caso  “BANESTADO”?

A alardeada recuperação do PIB no segundo trimestre, de 0,2%, soa muitos mais como uma acomodação no fundo do poço do que um sinal efetivo de melhora. Imagine quando os efeitos deletérios da nova legislação trabalhista aguçarem a precarização do trabalho e obstruírem o elastecimento do mercado consumidor interno, tão fundamental para uma recuperação econômica mais autônoma.

Por tudo isso, o retrato do Brasil que emerge das pesquisas quantitativas e qualitativas é muito ruim. Desconsolados estão homens e mulheres pertencentes aos extratos menos abastados do nosso tecido social. São milhões de brasileiros (as) se reconhecendo imersos em crises cuja gênese desconhecem e para as quais não enxergam saída.

Como disse Marcos Coimbra (colunista da carta capital), “essa sobreposição de crises produz outra, uma crise na convivência social, com o agravamento da insegurança, seja no sentido literal, proveniente da criminalidade e das ameaças a vida, seja no plano psicológico e emocional”. Diante desse quadro, avoluma-se o número de brasileiros que não se convencem mais com a narrativa da mídia corporativa e dos políticos conservadores, de que se construirá uma ponte para o futuro sobre a qual todos irão passar sem diferenciações.

Políticas públicas são sepultadas silenciosamente. Programas como o Minha Casa Minha Vida sofrem com o enxugamento orçamentário. Se antes o programa gozava de um aporte de 30 bilhões de reais por ano para a construção de moradias, hoje mal chega a 6 bilhões. A faixa 1, que atende famílias de menor renda, é brutalmente a mais atingida. Enquanto isso sobram recursos para a farra das emendas parlamentares salvadoras do pescoço de Temer.

Diante de todo esse espetáculo de horrores, pergunta-se: cadê os canários da classe média? A revoada dos canarinhos deixou de ter motivos para se aninhar em torno do pato da FIESP? Por que não se ouve mais o tilintar das panelas batendo das sacadas dos condomínios classemedianos? Será que a crise acabou como afirmou o mago da fazenda Henrique Meirelles? Se isso é verdade, por que 14 milhões de brasileiros ainda sofrem com o desemprego?

Como diz o ditado popular: ainda bem que toda regra tem sua exceção! Mas as exceções ainda não conseguiram amplificar seu discurso. Um discurso propositivo de uma nova pactuação nacional, capaz não só de reverter os retrocessos em curso, mas, fundamentalmente, que anuncie um projeto de nação mais justa e inclusiva. Fora Temer!

Caio Pinheiro é historiador, especialista em história regional e do Brasil e mestrando em educação.