O cirurgião plástico Victor Nassri. Imagens: Thiago Dias/Blog do Gusmão.

Há dezessete anos, em Salvador, o então estudante Victor Bastos Nassri iniciou a vida acadêmica na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Concluiu o curso em 2006, quando direcionou a sua especialização para o ramo das cirurgias. Fez residência médica na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde especializou-se em cirurgia geral. Depois, concluiu o seu percurso para se tornar cirurgião plástico no Hospital Geral de Vila Penteado, na capital paulista.

A relação de Victor com a medicina tem origem familiar. O seu pai, Juvenal Nassri, é médico e trabalha em Ilhéus. A presença paterna também influenciou na escolha do soteropolitano em fixar residência na cidade, onde mora desde 2013. Em 2017, a convite do oftalmologista Antonio Nogueira, entrou para a equipe do CENOE – Hospital de Olhos.

No CENOE, o médico de 36 anos atua às segundas-feiras nos casos de cirurgia plástica ocular. Na entrevista que concedeu na última semana ao Blog do Gusmão, Victor Nassri explicou quais são as circunstâncias mais comuns em que o tratamento cirúrgico é indicado para reabilitar a visão dos pacientes.

Também falou dos problemas que costumam afetar as pálpebras dos mais idosos, como o acúmulo de pele ou de gordura, e podem prejudicar a qualidade de vida dessas pessoas. Além disso, abordou temas como os cuidados que os pacientes devem tomar antes e depois de uma cirurgia plástica na região dos olhos. Leia abaixo.

Blog do Gusmão – Como podemos definir o que é uma cirurgia plástica ocular?

Victor Nassri – É toda cirurgia que envolve o contorno do globo ocular. A gente trata qualquer alteração dessa região.

Blog do Gusmão – Portanto, as cirurgias englobam o entorno do olho e não apenas o globo ocular?

Victor Nassri – Não, pelo contrário. A plástica ocular trabalha em volta do olho, nas pálpebras superior e inferior.

BG – Quais são os problemas mais comuns que podem fazer com que uma pessoa necessite de uma cirurgia plástica ocular?

Victor Nassri – O principal tipo de cirurgia plástica ocular é a blefaroplastia, que é a cirurgia estética da pálpebra, a retirada de pele da pálpebra. A gente faz tanto da pálpebra superior quanto da inferior, porque as duas acumulam pele com o passar dos anos. Como todo tipo de cirurgia plástica, a ocular tem duas vertentes: a da cirurgia estética e o do procedimento reconstrutor. A primeira está muito associada ao envelhecimento da pele da pálpebra, que costuma produzir o acúmulo de gordura e o excesso de pele. Essa é uma cirurgia estética que não deixa de ter um caráter reconstrutor. Muitos pacientes se queixam pelo excesso de pele e de gordura, que torna a vista pesada. Alguns chegam a ter dificuldade para abrir os olhos. Na verdade, toda cirurgia estética tem um caráter reconstrutor,  no mínimo no aspecto da autoestima. É como nos casos das pacientes que têm as mamas muito grandes e realizam a cirurgia para diminuí-las. O procedimento é estético, no sentido de lidar com a aparência, mas também é reconstrutor, porque interfere na saúde da coluna, por exemplo.

BG – Algumas pessoas têm manchas na região dos olhos. Como elas surgem?

Victor Nassri – As manchas são comuns na região das pálpebras. O tipo mais comum é o chamado xantelasma, que surge com o acúmulo de uma gordurinha na pele, que fica amarelada e, às vezes, até alaranjada. Essa mancha é retirada cirurgicamente. Ela é muito comum em quem tem colesterol alto. Mais uma vez, é uma cirurgia com fatores estéticos associados ao procedimento reconstrutor.

BG – Além da retirada do acúmulo de pele, a cirurgia para retirar a gordura também é comum?

Victor Nassri – Na verdade, o envelhecimento da pele tem dois aspectos: o acúmulo de pele, que a gente chama de “flacidez espontânea” e o acúmulo de gordura. Ou seja, além da flacidez, o olho fica como se tivesse saltado, gordinho. Isso é mais perceptível na parte inferior da pálpebra, mas também acontece na superior. Com a cirurgia a gente consegue resolver esses dois problemas causados pelo envelhecimento.

BG – No caso das pessoas que têm dificuldade para enxergar, qual o tipo de problema que pode ser corrigido com a cirurgia plástica?

Victor Nassri – Tem o peso do excesso de pele, que, em alguns casos, o paciente não consegue nem abrir o olho.

BG – As cirurgias também podem acabar com as olheiras?

Victor Nassri – Não. O procedimento cirúrgico não trata olheiras. Na verdade, a olheira é uma pigmentação na pele e envolve o tratamento dermatológico. O cirurgião plástico faz até um preenchimento da região, para dar um volume para quem tem essa região abaixo do olho acovada. O preenchimento é mais indicado para quem tem olho fundo, o que é comum em quem emagrece muito e mantém cada vez menos gordura no corpo, além dos idosos.

BGQuais os cuidados que o paciente deve ter antes e depois de uma cirurgia plástica ocular?

Victor Nassri – Antes da cirurgia o paciente tem que fazer todo o processo pré-operatório. Isso envolve diversos exames e avaliações, como o exame de sangue e o eletrocardiograma. No período pós-operatório, recomendamos o uso da compressa gelada para ajudar a desinchar o olho, assim como o uso de colírio específico e dos óculos de sol. O paciente não deve expor o local da cirurgia ao sol para evitar a formação de cicatriz.

BG – No período pós-operatório, o paciente interrompe as atividades físicas?

Victor Nassri Sim. Tem que ter um tempo de retorno também, em média de 20 a 30 dias, a depender do processo de recuperação.

BG – Em quanto tempo o paciente pode voltar ao trabalho?

Victor Nassri – Terminada a cirurgia, o paciente permanece sob observação por algumas horas e recebe alta no mesmo dia. Retiramos os pontos em até sete dias. Depois disso, a pessoa pode voltar ao trabalho, mas tem que usar o colírio e os óculos de sol. Se for um trabalho que exija muito esforço físico, ou em que o trabalhador fica muito exposto ao sol ou à poeira, ou em ambiente hospitalar, por exemplo, recomendados até dez dias. Depende muito do tipo de trabalho. Após esse tempo, é normal que um inchaço perdure de 3 a 6 meses, antes do resultado final.

Nassri: a cirurgia plástica ocular costuma ser um procedimento rápido.

BG – Esse tipo de cirurgia dura quanto tempo?

Victor Nassri – Em média, uma hora ou uma hora e meia. É uma cirurgia rápida.

BG – Quais as recomendações que o senhor pode dar a quem sentiu a necessidade de fazer uma cirurgia plástica na região do olho?

Victor Nassri – Primeiro, essa pessoa deve passar por um especialista, um cirurgião plástico ou um oftalmologista, com especialização em cirurgia plástica ocular. Depois disso ou até antes, cuidar da saúde. Se tem pressão alta, se tem diabetes, tem que ir controlando. Se fuma, o ideal é suspender o cigarro 30 dias antes e 30 dias depois da cirurgia, para ter uma cicatrização melhor.

BG – O cigarro interfere fisiologicamente no processo de cicatrização?

Victor Nassri – É fisiológico. O cigarro atrapalha em qualquer tipo de cicatrização. Ele altera os microvasos da mesma forma que o diabetes, causando uma diminuição do fluxo sanguíneo para a região da cicatriz. Isso impede a chegada de nutrientes para a região que precisa ser cicatrizada. Mas, se você suspender o uso uns 30 dias antes, esse efeito já é revertido. Diabetes e tabagismo têm de ser controlados para qualquer cirurgia. Para quem tem problemas de pressão, tem que controlar  também, porque pode levar ao acúmulo de gordura, por isso tem que passar por um cardiologista também.

BG – Há algum tipo de limitação relacionada com a idade do paciente para realizar esse tipo de cirurgia?

Victor Nassri – A cirurgia de pálpebra está muito ligada ao envelhecimento da região em volta do olho. O paciente já tem que estar apresentando sinais de flacidez de pele e etc. Nos casos mais precoces, uns 35 ou 40 anos. Antes disso, se existe uma flacidez, é mínima, e a gente desencoraja a cirurgia nesses casos. O que pode acontecer é a injeção de botox, mas ela tem outras finalidades. Isso pode ser feito em pacientes mais jovens. Por exemplo: a gente pode aplicar na testa para dar uma levantada na sobrancelha. No caso da pálpebra, eu vou tirar o excesso de pele que tem abaixo da sobrancelha. São dois tratamentos distintos, com finalidades distintas também.

BGEstamos acostumados a ver notícias sobre o uso abusivo das cirurgias plásticas. Muitas pessoas recorrem ao procedimento cirúrgico sem necessidade?

Victor Nassri – Não é comum, mas ocorre. Graças a Deus, a maioria tem “os pés no chão”, mas existe gente “fora da curva”, casos de excesso. Nessa circunstância, cabe ao médico orientar o paciente e não realizar o procedimento que julgue desnecessário.