Ala dos fantoches no desfile da Paraíso Tuiuti.

Por Thiago Dias.

Não acredito que a TV Globo seja um problema para o povo brasileiro. Na verdade, vejo na emissora um espaço importante para o discurso liberal. Ela dá lugar a vozes que costumam ser silenciadas ou menosprezadas em outros canais abertos, como as dos movimentos identitários. À sua maneira, abre brechas valiosas para o movimento negro, o feminismo, a causa LGBT e para ativistas que defendem a descriminalização do consumo de drogas.

Dito isso, o óbvio não passa despercebido: o liberalismo do canal é mais acentuado quando o assunto é economia e gestão pública. Aí ele é liberal até os ossos.

Quando o assunto é economia, o jornalismo global não quer saber de debate. A visão é única e não tolera vozes dissonantes. Foi essa convicção econômica que levou a família Marinho a apoiar os militares em 1964 e a “solução” Temer em 2016. Quando aumentou a artilharia contra o presidente, o fez porque imaginou que o peemedebista não teria força política para conduzir “as reformas de que o país precisa”. É isso que o canal anuncia toda vez que fala da “desfiguração” da reforma da Previdência, com as concessões do governo para viabilizar o avanço da proposta no Congresso.

Aqui não há incoerência: a Globo mantém a perspectiva liberal do discurso identitário ao econômico, porque os direitos civis reivindicados pelos movimentos identitários não geram custos econômicos ao Estado, diferente dos sociais, como os trabalhistas e o acesso público à saúde e à educação qualificadas.

No domingo (11), a contragosto, durante uma hora, a emissora transmitiu mensagens que destoam das ideias que propagou sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e as reformas do governo Temer. Foi o desfile da Paraíso Tuiuti, do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro – veja aqui.

A Globo deu ampla cobertura aos protestos a favor do impeachment. Durante o desfile da Tuiuti, os manifestantes que tomaram sua tela em 2016 apareceram representados como fantoches. Diante da cena, o desconforto dos profissionais da transmissão foi notável.

O feito da Tuiuti (vice-campeã em 2018) caiu nas graças dos grupos que se opuseram ao impeachment e se opõem ao governo Temer. A reação das esquerdas foi catártica.

Tenho uma hipótese sobre a força dessa catarse: ela reside na experiência da brecha para as vozes dissonantes no templo da ortodoxia econômica.

A internet deu voz a todos os conectados. Contudo, nas redes sociais as mensagens não costumam ultrapassar as bolhas e redutos de onde partem. A brecha no Carnaval da Globo garantiu a certeza de visibilidade nacional para discursos marginais no espaço público massificado. As margens espremeram o centro da tela. Guardadas as proporções – muito maiores na Sapucaí, é como se as esquerdas tivessem experimentado a sensação daquele tipo que se intromete na frente de uma câmera da TV Globo, durante uma chamada externa, com um cartaz escrito assim: “É golpe!”. Mas, catarse diante duma tela nunca derrubou presidente.

Thiago Dias é repórter do Blog do Gusmão desde 2013.