Eloah Monteiro interpreta canção durante ato em memória de Marielle. Imagem: Nina Guerra.

Reportagem: Thiago Dias.

Por volta das 19h10min da última segunda-feira (2), um homem magro, com aproximadamente 1,68m, chamou a atenção das pessoas reunidas na praça Pedro Mattos, em frente ao Teatro Municipal de Ilhéus. Segurando uma vela, com um traje branco e toda a cabeça coberta por um envólucro de tecido, recitou uma versão adaptada dos Versos Íntimos, poema de Augusto dos Anjos (1884-1914). Na paráfrase do ator Ed Paixão, o homem deu lugar à mulher, mas a personagem feminina evocada no ato cênico está morta. Ainda que os presentes insistam em negar a cada intervenção, a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) não está presente. Essa é a realidade dura da morte, a protagonista da tragédia brasileira e sua média de quase 60 mil homicídios por ano. A presença de Marielle agora só existe em sentido figurado, como grito político, símbolo de bandeiras, a exemplo das que defendem mudanças na formação de policiais e nas estratégias de enfrentamento do tráfico de drogas.

Atos como aquele ocorreram em diversas partes do país e em outros países. No mesmo horário, as pessoas acenderam velas que também lembraram Anderson Gomes, o motorista executado junto com a vereadora do Rio de Janeiro no último dia 14. Quase vinte dias após o crime, as investigações avançaram tanto quanto a popularidade do presidente Michel Temer (MDB) depois da prisão dos seus velhos amigos.

De volta à praça Pedro Mattos, o ato continuou com intervenções de artistas como a mestra Janete Lainha, a cantora e compositora Eloah Monteiro e o rapper CJ. Com uma das trajetórias mais respeitáveis da história recente da política de Ilhéus, o ex-vice-prefeito José Henrique Abobreira acompanhou a manifestação na companhia do professor e advogado Carlos Pereira Neto Siuffo e do ativista social e fiscal de posturas Shi Mário.

Camponesas da luta pela terra também se manifestaram. No seu pronunciamento, uma moradora do distrito de Banco do Pedro disse que foi torturada por policiais militares, em 2010, no assentamento onde vive. Contou que é do candomblé e, por ter incorporado o seu orixá – Oxóssi, foi jogada num formigueiro. Segundo ela, os agressores disseram que isso tiraria o “demônio” do seu corpo.

De acordo com a mulher, após o processo penal, os acusados receberam “uma pena leve por injúria e ficou por isso mesmo”. Ainda conforme seu depoimento, os policiais a agrediram porque ela havia questionado o modo como eles abordaram um jovem da comunidade.

Depois de interpretar uma música, Eloah Monteiro voltou ao centro da praça, o palco da manifestação, para compartilhar uma experiência pessoal. No dia seguinte ao da morte da vereadora, um colega de trabalho lhe disse que o caso o fez pensar nela, por associar as ideias que a cantora defende com as de Marielle. Nesse momento, com a voz embargada pela emoção, Eloah encerrou o relato.

O presidente do Sindicato dos Bancários de Ilhéus, Rodrigo Cardoso (PC do B), também participou do ato. No seu discurso, explicou por que considera a execução de Marielle especialmente trágica. Segundo ele, o elemento que torna tudo mais trágico é a raridade de uma liderança como a vereadora carioca, uma mulher negra, bissexual, engajada na defesa dos direitos humanos e com a quinta maior votação da Câmara do Rio. Com ela, lamentou Rodrigo, morreu também toda a sua capacidade de representação popular, justamente quando parte significativa da sociedade clama pela renovação dos quadros políticos.

Único vereador de Ilhéus presente no ato, o petista Makrisi Angeli falou sobre o sentido da mensagem que os assassinos de Marielle quiseram transmitir com a sua execução. Segundo ele, além de calar uma voz combativa, a violência que abateu a socialista é um meio de propagação do medo. É como se os executores mandassem um recado de terror para todos que se identificam com as mesmas bandeiras da vereadora. Porém, no fim de cada fala, as pessoas que se revezaram ao microfone insistiam em gritar, num jogral com os demais manifestantes: “Marielle”. Ao que os outros respondiam em uníssono: “presente!”