Por Mohammad Jamal.

Um “pancada” como sou. O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que “o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver.”. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é um terno novo ou uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento alienante ou disfarce para se vestir. Como eu, voluntariamente desestereotipado e íntegro no comum da minha trivialidade doméstica. Mas ainda assim, um homem literalmente intransparente, desculpem-me pelo forçoso neologismo para acompanharem a minha linha de pensamento crítico auto filosófico. No entanto, em contrapartida, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado ao pescoço. 

Botocudos ou Cherbongs? Diga-me qual é a sua tribo e, eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que os ex-Carandirus, Bangus e Papudas da vida: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luís Estevão, Lula, figurões; só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos voos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza, submete e serviliza sob o peso de Contrato irrecorrível e inquebrantável onde o contratante é a sociedade maniqueísta e as carentes fraquezas da sua própria vaidade. A carcereira de você.

Nem andarilho nem sultão. Viver sem laços igualmente pode nos reter e manietar. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma grande vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente e voluntária. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real e concreto, entre quatro paredes.

Está fumegando aqui em cima! Eis o que pensei: Para que o mais banal dos acontecimentos se torne um exercício de liberdade e numa aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narra-los. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas e procura viver a sua vida como se as narrasse contínua e ininterruptamente. Mas é preciso escolher viver ou narrar. Surpreender-se pela conquista da liberdade imaginária, inteiramente nu, ou entregar-se vencido à tediosa prisão que construiu para si mesmo num mundo de circunstancialidades.

Cunhados do Luís XIV, só. Nosso crime é estar vivos e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós – nascerem – foram trancafiados em celas chamadas de “redutos de superficialidades” onde dividem espaço com historiografias de riquezas do passado, das mansões hoje corrompidas a “cabeças de porcos” e cortiços, ou apartamentos populares, unidades do Minha Casa Minha Vida, por força das circunstancias que os atingiram mortalmente na conta bancária, como a bruxa do cacau. E por isso lutam consigo mesmo uma guerra perdida sob os disfarces das aparências postiças, do status-quo falido, do burguês nas filas do pão, do buzu, humilhado entre plebeus, dos salões vazios, dos camarões empalhados, decorativos para jantares em black tie para mitômanas fotografias exibidas no facebook; do carro à prestação, vencidas e, das roupas cheirando a naftalina. Da imponência e da impedância do olhar arrogante, da subversão da vontade quando em repulsa, abraça e beija dissimulado à ralé votante malcheirosa e corre a lava-se apressado.

O forró dos chagásicos. Esse é um ritual dolorido onde o convencionalismo, o recalque, a vaidade, são como úlceras abertas ao mundo. Somente o ulcerado não se apercebe que todas as suas chagas estão expostas num emblemático estandarte… Um Reclame de porta-de-loja, diriam no interior do Sergipe. Traças vorazes e impassíveis àquele tempo de empáfia e nobreza burguesa, já devoraram os velhos títulos nobiliárquicos e notórias comendas dos sobrenomes que jazem hoje, esquecidos na poeira do tempo; dejetos fantasmagóricos, quinquilharias e inutilidades, fantasmas do esquecimento, que por imerecido, não se fez histórico nem vulto ante a atualidade. E Porque nada a mais fez, senão o cultivo do ócio e da vaidade; foram como acólitos de Epicuro, em profundo narcisismo existencial, os ébrios de si mesmos.

O Guantánamo virtual. Essa é verdadeiramente a pior das prisões que acorrenta o homem a um passado insuperado, que incapacita, tolhe a mente, obstrui o intelecto, aliena o pensamento enquanto o faz mergulhar profundamente num mundo utópico de fantasias e delírios megalomaníacos que beira a intratável esquizofrenia. Um fugitivo da realidade que teima viver e representar no presente, estereótipos do teatro burlesco do passado que a modernidade, indiferente, sepultou a sete palmos na vala comum.

Tem gente pedindo Champanhe aí? Aqui de fora, na liberdade onde me encontro, suponho ouvir o melancólico canto depressivo dum prisioneiro especial da ala dos nobres e empertigados, que repete maquinalmente monocórdio e reminiscente, a mesma estrofe do poema-canção de Chico Buarque: “Pai, afasta de mim esse cálice pai, afasta de mim esse cálice, pai…” que suponho ser de vinho tinto Chateau Mouton Rothschild.

Tenho Green Card! Incluo-me no privilegiado contingente daqueles que usufruem da liberdade auto assistida pela própria racionalidade lógica e seu pragmaticismo inato. Brindemos a isso com um forte café árabe. Temos todos, cela especial. Não nego; confesso haver escolhido a minha em meticulosa concordância com meu ego anarquista auto vandalizado: porque cago a portas abertas e saio nu do banheiro. Falo alto, não me preocupo com a gramática nem com o meu bafo de gergelim com zaatar libanês. Às vezes sorrio e falo impudências de boca cheia em público e, enquanto me revelo um indesejado e indiscreto, escaneio com olhar escancarado às formas rotundas que me atraem nas mulheres fartas de seios e glúteos. E enquanto “prisioneiro do nada”, orgulhoso, carrego no bolso a chave de minha própria cela onde invariavelmente, nunca compareço. E vou por aí, imoderado, sem CPF, com minha Carta de Doido plastificada e meu Habeas corpus preventivo no bolso. Brindemos a isso com café bem forte e umas boas baforadas de narguilé encorpado.

Mohammad Jamal é articulista do Blog do Gusmão.