Por Mohammad Jamal.

Longo parágrafo. 

Confessionalmente cabe-me reconhecer que descontando um ou dois problemas emocionais, cresci em circunstâncias seguras e moderadamente confortáveis. Meu irmão mais velho incutiu-me muito cedo o gosto pela leitura fazendo com que a literatura ocupasse boa parte do meu tempo; hoje, amadurecido pela sobreposição dos anos vividos, ela ocupa muito mais; a literatura faz parte da minha vida. As leituras de bons livros escolhidos por meu irmão influíram muito sobre a minha vida na infância e adolescência, tal como ainda influem hoje, quando o tempo tingiu de branco meus cabelos. Foi naquele tempo de garoto que gostava de livros que me reconheci um observador de pessoas, um tipologista autodidata traçador de perfis. Atraiam-me não só os dramas, alegrias e tristezas, mas as pequenas tragédias, os episódios cotidianos, o entendimento dos porquês e como reagia cada pessoa à minha volta às suas alegrias e pequenas tragédias. Algumas explicitamente emotivas oscilavam entre o riso nervoso e as lágrimas, outras, contidas, deglutiam silenciosamente seus problemas, dramas e angústias quase impassivelmente, mas nem assim escapavam da leitura das suas linguagens corporais; coisa que, precocemente, eu já dominara. Eu lia a escrita gestual dos semblantes e dos corpos que falavam idiomas distintos por mímicas singulares. Eu já os traduzira. Na ênfase das palavras e algumas onomatopeias; na audição dos soluços e gemidos, no olhar; eu lia sentimentos os mais diversos e, perfilava-as detalhadamente calçado no entendimento empírico acumulado nos densos conteúdos dos livros que li e me impregnaram a mente. São essas imagens passadas que me permitem devaneios reminiscentes que às vezes compartilho fazendo um contraponto àquele tempo e a modernidade globalizada que o varreu impassível essa percepção para o vazio do esquecimento comum.

Relembrar não é preciso, mas os ecos ainda ressoam: Não vou retroagir muito, isso é lugar comum, cansativamente exaurido em todos os artigos que tratam de reminiscências socioculturais através a história. Estamos carecas desse antagonismo evolutivo monótono e previsível que se arrastou lentamente, retardando a evolução dos costumes e das relações humanas em seu inexorável processo de renovação de velhos paradigmas sociais que obscureciam o concretismo autonômico iluminista, coisa que ainda acena à sociedade moderna em contínuo processo autonomista ainda que crivado por propensões alienistas e singularidades controversas.

Preciosidades Himenofiláceas – o velho cabaço: Naquele tempo as meninas-moças mais afoitas, as namoradeiras, eram chamadas de “espevitadas” ou assanhadas. O namoro se resumia ao escurinho na matinê de cinema no Domingo, invariavelmente com o irmão mais novo sentado ao lado ou pior, o irmão mais velho impávido na poltrona de trás. Naquele tempo a virgindade era o mérito da pureza, o galardão e dote moral imprescindíveis no casamento… E o casamento era a “realização” da mulher. As meninas que se arriscavam perigosamente cederem mais cedo suas a virgindades, geralmente casavam de véu e grinalda, com guardas de honra, festa decorada com flores brancas, padrinhos e convidados, mas com as presenças adicionais de um delegado de polícia e dois Oficiais de Justiça. Quer dizer, na tora. “Fizeram o mal à moça!” diziam as comadres sussurrando pecados da carne entre os dentes num sentimento misto de vingança e inveja lasciva. Será que foi o mal mesmo o que fizeram a ela? Isso hoje leva outro nome. Transaram legal talvez, apressadamente e de pé, no afogadilho, sonsos, quase imóveis, bem ali na varanda, à onipresença vigilante da mãe zelosa, mas sonolenta e de olhar cansado sobre dois sentidos: um no tricô e outro na agulha, o aguilhão do rapaz cheio de amor pra dar.

Duelos em franca obsolescência. Hoje já se faz o “mal” com tanta casualidade e frequência que, num simples cruzar de pernas, algumas moçoilas ate já exibem mínimas cicatrizes deixadas pelas “maldades” masculinas, a que repetidamente se submetem em “resignada” condescendência, nas baladas, no pancadão do funk, no hall do prédio… Coitadinhas. A sociologia dos costumes atenta à evolução e modernidade, descriminalizou por obsolescência, as agressões consensuais perpetradas contra o hímen adulto e aliviou o ônus dos rigores das leis que recaiam pesadas sobre contumazes defloradores do cabaço alheio, adolescente, quanto daqueles cabaços já quase emancipados por decurso de idade, no prelo da obsolescência, com cracas e a ferrugem do tempo, mas desde que cedidos em comum acordo e consensualidade mutua aos derradeiros prazeres da carne de vaca velha com sabores encorpados tardiamente degustados.

A senhora polca dança? A “ex senhora” esposa de senhor fulano de tal, agora separada por desquite, já não é companhia decente para outras moças e senhoras castiças que permanecem casadas. Abandonada, foi demonizada pelo preconceito à exclusão social. Falava-se veladamente: é largada do marido! E a coitadinha, “largada”, estava degredada à solidão presencial das outrora amigas e ao regime de abstinência sexual por votos impositivos, involuntários, inquebrantáveis de abstinência e castidade, para não ser cognominada de “mulher da vida”, injustamente imputada de puta; diria melhor com o neologismo “emputecida”, contra a própria vontade e instinto pelo autoritário senso comum que se lhe impunha aquele arcaísmo cafona que imperava àquela época. O destino das mulheres “largadas”, mesmo aquelas legalmente desquitadas, era se tornar “mulher dama”, quenga! E se enviuvasse sem fonte de renda ou pensão previdenciária deixada pelo marido, não era incomum dizerem-na “dona de castelo” – casa que “recepcionava” casais não casados para uma fortuita transadinha, sem maiores compromissos – ou seja, os atuais motéis temáticos.

Ufa! Passou! Ainda bem que o tempo é pretérito! Tempos bicudos aqueles, onde as práticas obscuras da lascívia e da luxúria não podiam ser degustadas na romântica penumbra. Tinha que ser no breu, no escuro do purgatório dos pecaminosos, para onde se dizia irem todos os aqueles que sucumbiam aos pecados da carne, mesmo àquelas carnes mais leves, magras e de baixos teores calóricos! Ou seriam caloríficos?

De Orfeu, Ártemis, Dionísio, Dédalo, Ícaro… E tinha também aqueles rapazes tristes, de olhos melancólicos, gestos delicados, muito gentis, reservadamente discretos; que tinham muitas amigas moças, não jogava futebol; não brigava na escola com colegas; sonhavam com as vocações sacerdotais, o recolhimento ao mosteiro, à prelazia divina e reclusos, quase não saíam de casa. Naquele tempo, chamavam-nos os “rapazes doentes” embora plenamente saudáveis. Que horror! Sim, aqueles rapazes pálidos da reclusão à penumbra doméstica, melancólicos rapazes de traços finos, solitários de olhares tristes e românticos, que adoravam os livros da Edição das Moças; as revistas O Figurino, A Radiolandia e colecionavam recortes de jornais com fotos de Clarck Gable, Rodolfo Valentino, Carlos Gardel. Naquele tempo, a homofobia já os caracterizava como uma excrescente aberração afeminada, a antítese do homem modelo masculino: hirsuto, mujique, grosso, impregnado de testosterona. Recolhiam-se por auto sobrevivência, ocultando-se no recato do armário do silêncio a que os segregava a discriminação e o preconceito social machista da época. Ate porque, expondo-se, degradavam a honra e dignidade de toda a família. Imprecar a alguém como “viado” àquele tempo, era morte certa. Uma ofensa gravíssima somente lavável e devidamente ressarcida pelo derramamento do sangue do ofensor. Que merda hem? O rapaz nasceu gay, aliás, já era gay inato tanto na fecundação quanto na concepção, quando se mesclaram os gametas X e Y com mais um xis adicional, ficando assim, suponho: X. Y. X, à revelia da opção que lhe foi negada, caso pudesse escolher. Porque então a discriminação e o preconceito machista sexista? Tem culpa ele?

Fez-se paz no Olimpo? A fisiológica e evolucionista abolição cultural da abjeta homofobia; a aceitação e o reconhecimento das diversidades, seu livre arbítrio e salvaguardas constitucionais, o acatamento dos seus direitos e cidadania, ao contrario do que se pensava antigamente, reforçou a consciência plena da masculinidade porquanto a assunção da própria sexualidade definiu sem eufemismos quem é homem ou mulher no gênero e na heterogenia da sua sexualidade incluindo quem é LGBTs de forma democrática e mutuamente respeitosa, até mesmo sob os princípios legais do Código Processual e suas implicações na jurisprudência brasileira. Quanto a bi e à homossexualidade feminina, ao que vemos, perseveram alguns percalços homofóbicos velados caracterizados pela interpretação equivocada e a negação do direito de opção por considera-lo invasão aos territórios e propriedade estritamente heterossexual masculina exemplificado pelo sentimento e correlação marxista/tribalista da “perda” de uma mulher para união com outra mulher. Mas muita calma, quem sobreviver mais um tempinho quiçá ainda poderão conhecer de perto a abolição total dos gêneros! Claro, não estarei aqui pra ver essas mudanças, mas espero manter incólume o meu rótulo machista/sexista/heterossexual/não homofóbico, por princípios corânicos. Estou velho, sou islamita xiita, uso barba votiva de muslime e reconheço-me homem do sexo masculino inveterado e ainda muito chegado ao deguste dos encantos femininos da mulher/mulher, a minha. Portanto, quem se encheria de coragem para me cognominar uma titia velha e assexuada porque defendo a diversidade? Sou muçulmano, mas tenho alguma cultura e senso bem definido sobre os direitos humanos, cidadania, etc. independente da sua diversidade homoafetiva. Quem fere com a língua da maledicência, corre o risco iminente de ser ferido por grosso ferro quente com enormes bagos roxos dependurados. Digo NÃO à homofobia e todas as formas de preconceitos. Allahuakbar.

Mohammad Jamal é colunista do Blog do Gusmão.