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A CRIMINALIZAÇÃO DO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO
Por Leonardo Machado
Com a proposta feita por um grupo seleto de renomados juristas que pretendem criminalizar o enriquecimento ilícito de servidores públicos dentro do contexto do novo Código Penal, estamos vivendo um momento sem precedentes.
Caso essa proposta seja aceita, pessoas que antes pretendiam ocupar cargos públicos com segundas intenções passarão a ter que pensar duas vezes. Atualmente não é crime enriquecer “sem fundamento”, ou seja, sem que se tenha uma razão legal para tanto. Nos dias de hoje, pessoas mal intencionadas criam uma aparente razão para o seu estilo de vida incompatível com sua carreira profissional.
A carreira pública jamais deveria ser escolhida por aqueles que buscam riqueza. Deveriam se enveredar por esse caminho aqueles que o fazem por vocação, que buscam estabilidade profissional ou que não são afeitos às pressões e aos riscos da livre iniciativa.
O OVO OU A GALINHA?
Por Malu Fontes
Com a disseminação das chamadas mídias pós-massivas, ou seja, os tablets, as mensagens eletrônicas, as informações circulantes nos smartphones, as imagens capturadas por câmeras onipresentes de celulares ou por sistemas públicos e privados de vigilância, entre tantas outras modalidades de tráfego de informação, a cada dia redefine-se o conceito de privacidade, para se continuar sem saber mais o que é isso. A atriz Carolina Dieckmann e suas fotos nuas para consumo do casal que o diga. Ela é apenas o caso mais recente.
RETO – Durante a semana, uma outra discussão sobre privacidade e ética chamou muito menos atenção na TV do que o caso Dieckmann, por razões óbvias, mas teve um potencial, para quem estivesse disposto a isso, é claro, muito maior para se fazer pensar no direito à privacidade e no quanto ela vale quando se trata de um cidadão comum. Uma equipe médica do centro cirúrgico do Hospital Universitário de Londrina filmou com celulares e divulgou na rede a cirurgia em um homem para a retirada de um peixe que entrou em seu intestino pelo reto.
REFLEXOS DA ECONOMIA VERDE
Por Carlos Minc
Há contradição entre economia verde e desenvolvimento sustentável? Trata-se de iniciativa neoliberal para cooptar utopias planetárias? Há indícios para suspeição: empresas predatórias com matérias-primas, energia, água, emissões de carbono, mas que adotam medidas cosméticas, abatem emissões; pintam de verde a fachada do modelo predatório. Outra suspeição: a economia verde converteria em mercadoria água, saúde, a vida, as colocando no pregão da Bolsa, substituindo ação social, ciência, práticas ambientais por mecanismos de mercado
A economia verde constitui conjunto de medidas econômicas, financeiras, creditícias, tributárias, tecnológicas, sociais, regionais, que viabilizam o desenvolvimento sustentável, gerando empregos e inclusão com menos desperdício e emissões de carbono. Vejamos exemplos:
- A energia eólica no Brasil era 0,2% da matriz energética. A Carta dos Ventos, de 2009, elencou 12 medidas para viabilizá-la. Retiramos o IPI de turbinas, torres e hélices; garantimos leilões anuais. Desde então, quintuplicaram os investimentos, o preço caiu 60% viabilizando esta fonte renovável.
- A água era tida como infinita e gratuita, poluída e desperdiçada. Com a cobrança da Taxa de Recursos Hídricos e a destinação do recurso aos Comitês de Bacia, indústrias adotaram o reuso da água. Comitês aplicaram em saneamento e pagamento para agricultores plantarem matas ciliares, garantindo mais água.
- A lei do ICMS Verde-RJ não aumentou imposto; distribuiu mais recursos aos municípios que implantaram parques, fecharam lixões, ampliaram coleta seletiva, trataram esgoto. Em três anos dobrou a área protegida dos municípios e eliminamos 70% dos lixões.
- O Decreto de Compras e Construções Sustentáveis obriga órgãos públicos a adquirir equipamentos eficientes, materiais de construção recicláveis, captar água da chuva, usar asfalto-borracha, placas solares. Com escala, viabilizam-se alternativas.
- Parques com pesquisa científica, festivais culturais e gastronômicos protegem a biodiversidade criando empregos verdes em pousadas, restaurantes, ecoturismo.
- Há que estabelecer sistema de contabilidade verde que inclua a depreciação de florestas e solos, que mesure os tempos livres, a qualidade de vida, do ar. Destruição de espécies, engarrafamentos e internações hospitalares hoje aumentam o PIB.
Os desafios ambientais e climáticos estão longe de ser equacionados às vésperas da Rio+20. A crise europeia revela o caos financeiro e desvia recursos das tecnologias limpas nos países em desenvolvimento. A economia verde não substitui mudanças de padrão de produção e consumo, mas direciona a economia real à sustentabilidade, ao combate às desigualdades sociais e regionais, ao desperdício e às emissões de carbono que aumentam a febre da Terra. Elegê-la como grande vilã é um equívoco. Considerá-la a salvação do planeta, outro.
Carlos Minc é secretário de Ambiente do Estado do Rio e foi ministro do Meio Ambiente (2008-2010).
Este artigo foi publicado na seção Opinião (página 7) do jornal O Globo, de 07/05/2012.
GRUPO ESCOLAR GENERAL OSÓRIO: VAMOS TORCER PARA QUE AGORA ELE SEJA RECUPERADO
Por Carlos Mascarenhas
De acordo com notícia publicada no Blog do Gusmão com o título “Secretário promete reformar o General Osório”, tomamos conhecimento de que o Secretário Marcelo Barreto, agora ocupando a Secretaria de Infraestrutura, anunciou que seu maior objetivo é iniciar as obras de reforma da Biblioteca Pública do município, que funcionava no antigo General Osório.
Fico muito feliz ao tomar conhecimento desta declaração de Barreto, mas gostaria de lembrá-lo do teor da decisão da Dra. Carine Nassri da Silva, em 08.02.2012, sobre este assunto, que transcrevo a seguir:
QUANTO VALE UMA CONVICÇÃO?
Por Malu Fontes
Um fato ocorrido no último feriado do trabalho, em Portugal, sem nenhum destaque nos telejornais brasileiros, deu a medida do quanto, no circo do consumo, tudo está à venda e pode ser negociado, principalmente as mais sólidas convicções ideológicas. Os brasileiros talvez tenham dificuldade de entender o ponto zero de todo o barulho gerado no feriado do trabalhador nas principais cidades portuguesas. No Brasil, há muito tempo, não apenas os supermercados, mas todo o comércio abre as portas durante os feriados e os finais de semana e ninguém reclama.
Este ano, em Portugal, bastou uma rede de supermercados anunciar que abriria suas lojas no feriado de primeiro de maio para todo o país dar início a um intenso e apaixonado debate sobre os limites do capitalismo e do consumismo e seus impactos na vida das pessoas. Os sindicatos propuseram imediatamente uma greve nacional visando tão somente impedir que a rede de supermercados levasse essa heresia adiante, com o apoio de entidades da sociedade civil. Os argumentos eram de que o desejo de lucro dos empresários não poderia se sobrepor ao direito do lazer e descanso dos trabalhadores no 1º de maio.
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A INDÚSTRIA DO BEM E SUAS LAVANDERIAS DE IMAGEM
Por Malu Fontes
Apesar de a crise econômica que desde 2009 vem chacoalhando o mundo, inclusive o mundo dos muito ricos, ter abalado um tantinho o chão das grandes corporações de capital nacional e multinacional, ainda são elas que dão as cartas (e as caras) da economia globalizada. Não há Estado topetudo que tenha poder para enfrentar o poder e o capital das grandes empresas, exceto nas ditaduras, onde as duas coisas se misturam e viram uma só. Para traduzir o poderio inabalável das grandes corporações há dois documentários mais que ilustrativos: Inside Job e The Corporation, ambos lançados no Brasil, o primeiro de 2010 e o segundo de 2003.
Mas este não é um texto sobre as grandes corporações e suas formas tentaculares de agir nos mercados do mundo. É sobre a publicidade veiculada por grandes empresas para lavar suas imagens para lá de duvidosas diante do público consumidor. E nesse aspecto as grandes multinacionais e as medianas paroquiais rezam pelas mesmas cartilhas de comunicação institucional. Todas exibem em suas peças publicitárias televisivas recados primorosos para o público avisando o quanto são boazinhas magnânimas e o quanto investem para proteger os pobres e desvalidos de conta corrente.
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AO GUERREIRO DA CAPADÓCIA
Por Ana Virgínia Santiago
Senhor das armas defensoras, guerreiro de todas as crenças!
Sou temente aos pensamentos maléficos, às falsas interpretações humanas e aos desentendimentos…
Guerreiro da Capadócia, Príncipe de todas as formas de fé!
Choro as lágrimas dos desamores, dos mal quereres, das injustiças e das omissões.
Precisamos de sua arma que nos protege e nos orienta pelos caminhos a percorrer, muitos, caminhos tão íngremes.
Imploro por sua intercessão nas mentes e corações de quem vive no meu querido chão, minha cidade ,pedaço presenteado por Deus que um dia foi batizada pela Menina Princesa do Sul.
Clareia as vontades de muitos, muitos e muitos chamados “filhos”(?) da terra e também os que chegaram por amor e construíram de forma digna, tornando-se filhos abraçados e coloca em cada um que abraça a omissão, a luz forte do amor verdadeiro, da certeza de lutas inteligentes e da justiça, banindo a indiferença e a tradicional descrença.
SOBRE A GREVE DOS PROFESSORES
Por Israel Nunes
Um meio muito comum ultimamente de tentar esgotar politicamente as lutas dos trabalhadores em prol de melhores condições de vida é a judicialização do conflito. Isso tem ocorrido com bancários, policiais militares, operários da construção civil e, recentemente, com os professores.
Trabalhadores da iniciativa privada ou do setor público têm as suas reivindicações ocultadas por uma disputa judicial que desloca o centro do conflito das reivindicações objetivas para uma discussão sobre a legalidade ou não da greve, ou para ações em que se discute a posse, como no caso dos interditos proibitórios ajuizados na Justiça do Trabalho ou comum.
Esta tática, de judicializar o conflito, além de tentar deslocar o cerne da questão, passa a ideia para a opinião pública de que as reivindicações serão apreciadas por um órgão “imparcial”: o Poder Judiciário.
Ledo engano. O pronunciamento judicial nada diz em relação à legitimidade dos interesses defendidos pelos trabalhadores, mas sim, e de maneira duvidosa às vezes, sobre aspectos relativos à legitimidade das formas de luta. Ou seja: do ponto de vista do conteúdo, a discussão não será sepultada, embora do ponto de vista da forma a greve ou o piquete possam ser sepultados.
UMA PROPOSTA INDECENTE (E VINGATIVA)
Por Leão Serva
A proposta de novo Código Florestal não deve ser levada ao plenário da Câmara Federal.
Se votada, deve ser recusada pelos deputados; se aprovada, terá de ser vetada pela presidente Dilma Rousseff, em nome do interesse público e dos compromissos que assumiu por escrito na campanha eleitoral, como não permitir a redução dos níveis de proteção às florestas e não anistiar desmatamentos ilegais (o texto propõe diversos perdões a ilegalidades cometidas até junho de 2008).
Se aprovado, o projeto do relator Paulo Piau vai fazer as duas coisas e dará à sociedade um sinal claro de que crime ambiental compensa, além de expor o país ao mico de ser o vilão da Rio+20, sob críticas da comunidade internacional por ter aprovado uma legislação imoral.
O texto que tramita na Câmara é fruto da distorção na representatividade eleitoral que faz com que os Estados mais populosos e urbanizados estejam sub-representados no Legislativo, enquanto os menos populosos e de maior peso rural sejam sobredimensionados.
NINGUÉM É INOCENTE EM BRASÍLIA
Por Malu Fontes
A afirmação deste título não é literal. Em princípio é um arremedo tomado emprestado do título quase homônimo do livro de contos do escritor paulistano Ferréz: ninguém é inocente em São Paulo, sobre a guerra social e a violência vividas nos arredores do Capão Redondo, na periferia da capital paulista. Depois, a Brasília deste título não é a Brasília literal, não envolve os brasilienses que tocam suas vidas como todo e qualquer cidadão brasileiro. Refere-se, portanto, ao núcleo duro que dá as cartas do poder político do país, a aqueles que decidem como a máquina administrativa brasileira faz tocar a banda no resto do país.
Há sucessivas semanas, a imprensa brasileira não fala em outra coisa senão no escândalo envolvendo a quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Desde o mensalão não se via tanto cachorro grande envolvido num escândalo político e sendo citado todos os dias em tudo o que é telejornal, em gravações para lá de constrangedoras. Mas não deixa de ser curioso que, diante de acordos criminosos dessa natureza, os detentores de cargos políticos (deputados, senadores, governadores) ainda continuem sendo apontados pela população brasileira como os protagonistas exclusivos desse tipo de estripulia com o dinheiro público.
O ESPANTO DA FAXINEIRA DE ILUSÕES
Por Ana Virginia Santiago
(para a Ilhéus de tempos atrás…)
Há muito tempo que Ela não andava pelas ruas de sua aldeia.
A vida a levou ao descanso (não ócio!) para que pudesse fortalecer os olhares, os pensamentos e sua essência de cidadã.
Deu-se um tempo e criou um espaço para que a formação de idéias que lhe explicam o existir, descansasse.
Precisava de um tempo para digerir o que foi finalizado pelo chamado fim de ciclos vitais e resistir ao angustiante sentimento de perdas.
Descansou. Fortaleceu o coração.Viu o tempo de andar, andar e observar,novamente.
E a saudade chegou forte e aconchegou a ansiedade de ver, olhar, sentir e vivenciar a sua aldeia, o seu povoado, poeticamente, uma forma de apelidar a sua terra amada.
E resolveu, sair, andar, parar e olhar!
Então, cedinho, com a manhã já acordada, Ela, a Faxineira de Ilusões, visitou as ruas e praças de seu chão amado e sentiu tristeza pelos antepassados, construtores de um canto que um dia até recebeu título de nobreza e sentou numa praça, antes tão limpa e iluminada…
A GRAÇA DO LIXO EM ITABUNA…
Por Gustavo Felicíssimo
Que falta nesta cidade?… Verdade.
Que mais por sua desonra?… Honra.
Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.
Gregório de Mattos
Muito ouvi falar sobre a reportagem da Rede Globo acerca do problema do lixo em Itabuna, mas como cultivo o saudável hábito de quase não assistir a programas de TV, excetuando os de futebol, não vi a reportagem, muito embora esteja percebendo a repercussão avassaladora que a mesma vem tendo.
De tudo que li nada sintetiza tão bem o problema como o poema “A graça do lixo em Itabuna”, escrito pelo Piligra e disseminado pelo mesmo via Facebook. Trata-se de um soneto tecido sob o signo da ironia, em que o autor mostra-nos a “Farsa reinando em tribuna…” e vai além, diz-nos que “No lixo repousa a graça / Da cidade de Itabuna!”.
É fácil compreender a dialética do autor, pois os lixões são depósitos sem nenhum tratamento, com a diferença de que são institucionalizados, isto é, autorizados pela prefeitura. Esses depósitos causam a poluição do solo, das águas que bebemos e do ar, pois as queimas espontâneas são constantes. Muita gente pensa que se o lixão está longe de sua casa, ele não está lhe causando problemas. Isso é um grave engano.
A GENTE NÃO QUER SÓ PAGODE
Por Malu Fontes
Quando se trata de falar criticamente de qualquer produto cultural, hoje, no Brasil, todo cuidado é pouco. Este é o país do elogio, das relações de comadre e de aplaudir sempre o famoso do bairro, mesmo que a sua música seja um lixo auditivo, seu filme seja uma sequência filmada de clichês e sua obra escrita provoque vergonha alheia. Quando se vive em Salvador e o assunto da conversa é música, o todo cuidado deve ser multiplicado à enésima potência.
Na verdade, se você é baiano, tem nível superior, tem uma rendinha razoável para não precisar recorrer aos empréstimos financeiros da moça do balcão da propaganda da TV e não é muito chegado aos ritmos onipresentes do axé e do pagode, uma advertência: se em qualquer espaço público onde estiverem mais de duas pessoas lhe pedirem sua opinião sobre os ritmos baianos, não pense duas vezes: diga que não tem opinião, que gosta de tudo e saia da conversa como entrou, como um peixe ensaboado. Somente assim você poderá livrar-se da pecha de arrogante, intelectualóide e, principalmente, de ser uma pessoa com forte pensamento de classe.
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AUGUSTO JR ESCREVE DO PRESÍDIO – REFLEXÕES DO CÁRCERE
Carta escrita pelo soldado Augusto Júnior, que liderou a greve da polícia militar, em Ilhéus, no mês de fevereiro.
Na contramão do que faria a maioria das pessoas jogadas na prisão, me vi obrigado a refletir sobre esse lugar que aqui estou. Os efeitos que esperam e os efetivamente causados com a minha condução a esse lugar nefasto, onde não desejo que os meus piores inimigos passem, se é que os tenho. Nessas reflexões, cheguei a algumas conclusões, que por questões óbvias não esgotarei nessa carta. Qual o escopo genérico da prisão? Uns afirmam que essa serve para arrancar o “mal” do seio da sociedade, outros que é o meio para penalizar os que andam a margem da lei, haverá ainda os que dirão que essa serve para ressocializar o apenado.
Todas as assertivas acima podem até está correta, depende de quem as avalia, mas quero chamar atenção para a gravidade da prisão, ela é muito mais nociva quando deixa de ser gênero e passa a ser espécie, e sobre esse prisma quero refletir. A prisão militar do ponto de vista pragmático, ela difere muito da prisão genérica, é certo que a prisão militar não extirpa “o mal” da PM, pois muitos estão presos, tantos outros estiveram presos como os diretores da Aspra e os índices de violência policial só aumentam.
A SEMIÓTICA PEIRCEANA DA POLÍTICA ILHEENSE – ANÁLISE DA NOMEAÇÃO DO NOVO SECRETÁRIO DE SAÚDE
Por Israel Nunes
A semiótica, como ciência que se preocupa com os signos, tem muito a oferecer quando se trata de procurar compreender a política.
Em Ilhéus, as coisas não são diferentes. Na semiótica de Charles Sanders Peirce, o signo é formado basicamente por uma tríade: ícone, símbolo e índice.
Ícone é, por assim dizer, é a representação material da coisa. Por exemplo, uma fotografia, um desenho, um boneco de alguém, uma maquete.
Símbolo é algo que, embora não se pareça com a coisa, convencionalmente e arbitrariamente é associado à coisa. Por exemplo, a bandeira de um país, a grafia escrita de uma palavra.
Índice, por sua vez, é semelhante a um indício da coisa e está para a coisa assim como a fumaça para o fogo, o estampido para um tiro e a febre para uma infecção.
A FILHA DE FLORA
Por Malu Fontes
Há duas semanas da estreia, o novo novelão global das nove, Avenida Brasil, já tem uma vilã para chamar inteiramente de sua e, diga-se de passagem, muito mais crível que a tal rainha do Nilo inverossímil que até pouco tempo batia ponto no mesmo bat-canal e atendia pelo nome de Tereza Cristina (Christiane Torloni). Agora é a hora e a vez da Carminha de Adriana Esteves, a vilã de João Emanuel Carneiro. De tão imoral e amoral, Carminha tinha tudo para não ser tolerada pelo público de novelas, assim de um gole só, já nas primeiras cenas da novela. Embora o gosto por telenovelas no Brasil e o realismo do gênero no país leve a crer que o telespectador é permeável a algumas tolerâncias, a verdade é que o público situa-se numa posição moral muito pouco ou quase nada disposta a concessões quando alguns autores lhe apresentam personagens que adentram determinadas fronteiras morais e familiares sem oferecer compensações.
VÍSCERAS – Sim, a vilania nas novelas tem limites e quase sempre esse limite é construído usando como válvula de escape a loucura ou o humor da personagem. Além disso, recomenda-se deixar de fora perversidades explícitas contra crianças. Nazaré Tedesco, Tereza Cristina, Laura Prudente e Odete Roitman tinham, cada uma ao seu jeito, algo de histriônico, traços de humor e eram carregadas de bordões. Assim, só para citar estas, iam contornando aos olhos dos telespectadores seus excessos pouco críveis cometidos. Já Carminha, criada pelo “pai” de Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008), o mesmo João Emanuel Carneiro, não traz concessões: é a perversão em estado bruto, in natura, uma vilã absurdamente imoral e amoral, a um ponto tal que, apostar em um personagem com sua constituição moral no início de uma trama televisiva e lhe dar tamanho destaque nos primeiros capítulos, é um risco que só autores, roteiristas e diretores de mão cheia se permitem correr, pois a chance de o público abandonar a poltrona com as vísceras revolvidas existe e não é pequena.
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ÍNDIOS, VÍTIMAS DA IMPRENSA
Por Dalmo de Abreu Dallari
Os índios brasileiros nunca aparecem na grande imprensa com imagem positiva. Quando se publica algo fazendo referência aos índios e às comunidades indígenas o que se tem, num misto de ignorância e má fé, são afirmações e insinuações sobre os inconvenientes e mesmo o risco de serem assegurados aos índios os direitos relacionados com a terra. Essa tem sido a tônica.
Muitas vezes se tem afirmado que a manutenção de grandes àreas em poder dos índios é inconveniente para a economia brasileira, pois eles não produzem para exportação. E com essa afirmação vem a proposta de redução da extensão da ocupação indígena, como aconteceu com a pretensão de reduzir substancialmente a área dos Yanomami, propondo-se que só fosse assegurada aos índios o direito sobre o pequeno espaço das aldeias. E como existem várias aldeias dentro do território Yanomami, o que se propunha era o estabelecimento de uma espécie de “ilhas Yanomami”, isolando cada aldeia e entregando a especuladores de terras, grileiros de luxo ou investidores do agronegócio a quase totalidade da reserva indígena.
HUMOR: “AI SE EU TE PEGO”, ANALISE LITERÁRIA
Por: Mehmed Ibnfaisal
Já que somos amantes da língua portuguesa e da literatura, dediquemos alguns minutos do nosso precioso tempo para nos debruçarmos sobre a letra desse “fenômeno” de crítica e público que assola as rádios e Tv’s, não só do Brasil, mas também do mundo: “Ai, se eu te pego”, desse grande artista chamado Michel Teló. Uma letra de música tão profunda, filosófica e poética como essa merece, sem sombra de dúvida, uma análise literária mais esmiuçada… Refinada e criteriosa Então vamos lá!
“Delícia, delícia. Assim você me mata”
Nos versos acima, nota-se de imediato que o eu lírico expressa metaforicamente seu deleite sexual, chegando mesmo – pode-se dizer – a um estado de clímax sexual, um orgasmo. Entretanto, à medida que avançamos na leitura da letra da música, percebemos logo no verso seguinte uma ideia paradoxal que nos leva a constatar que talvez o eu lírico, através de um eufemismo muito bem elaborado, aponte para uma das práticas difundidas na tradição literária ocidental, principalmente a partir do Romantismo.
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ENTREVISTA COM O DIABO
Por Malu Fontes
A semana televisiva em Salvador foi marcada pela presença ostensiva dos gêmeos Diego e Diogo Leão, 27 anos, nos programas populares. Com direito a exibição e repetição exaustiva de vídeos com performances estranhas dos dois, nas emissoras e no YouTube, contendo cenas que iam de beijos na linha desentupidores de pia homoeróticos e incestuosos a frases desconexas e comportamentos para lá de nonsense na delegacia, os gêmeos bombaram como sensação da imprensa ‘facinha’. Os rapazes, de uma família de classe média da cidade de Mossoró (RN), chegaram a Salvador num carro da família, usado sem permissão, e com 9 mil reais, retirados de um cofre dos pais também sem consentimento.
OUTRO MUNDO – Aparentemente sob o efeito de drogas ou sob um surto psiquiátrico, Diego e Diogo foram presos em pleno rush na Avenida Paralela, o corredor de tráfego mais intenso de Salvador, acusados de causar riscos de acidente e de morte, própria e dos demais motoristas que trafegavam pelo local. Pararam o carro numa das pistas, atravessaram o canteiro central e foram para o outro sentido, deitando-se no asfalto quente para fazer flexões, correndo o risco de serem atropelados e causando perplexidade aos motoristas. Sim, todo mundo que leu sobre os gêmeos de Mossoró nos jornais, nos sites ou os viu na TV considerou-se diante de cenas do outro mundo.
NOVO JORNALISMO EM TEMPOS DE CORRUPÇÃO
Por Malu Fontes
Há uma semana o Fantástico levou ao ar uma grande reportagem, classificada pelo próprio programa como do gênero jornalismo investigativo, na qual a Rede Globo inaugurava em seus protocolos jornalísticos um método novo de apurar informação para a construção de uma reportagem em profundidade. À frente da reportagem, Eduardo Faustini, o repórter de rosto desconhecido mais famoso do telejornalismo brasileiro, pois todas as suas matérias são feitas com a estratégia da câmera escondida e todas provocam repercussão nacional. Não raro as reportagens de Faustini levam gente para a cadeia e para os tribunais.
Desta vez, Faustini e o Fantástico deram um passo além na estratégia da câmera escondida. Com o propósito de denunciar como funciona a máfia de empresários especializados em fraudar concorrências públicas em hospitais universitários, o jornalista lançou mão de um recurso inédito na emissora: ‘tornou-se funcionário’ de um hospital do Rio durante meses e, combinado com a direção real da unidade e certamente muito bem assessorado pelo departamento jurídico da emissora, lançou editais de concorrências falsas para atrair empresários de má fé, habituados a embolsar dinheiro público nesse tipo de expediente.














