EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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Marcelo Guerra
Fotografia:
Sandro Andrade

Daniel Thame

UMA PONTE QUE NAO É APENAS UMA PONTE

daniel2Por Daniel Thame.

Ainda está para ser devidamente mensurada a importância da ponte sobre o Rio de Contas, inaugurada pelo governador Jaques Wagner, que liga Camamu a Itacaré.

Não se trata, obviamente, de uma ponte que liga apenas duas cidades do litoral baiano, ainda que Itacaré seja atualmente um dos principais destinos turísticos do Nordeste.

Trata-se, isso sim, uma obra que interliga, via ferryboat, Salvador e região metropolitana ao Baixo Sul e ao Sul da Bahia, encurtando distâncias e evitando o tráfego pesado e perigoso da rodovia BR 101 e na quase sempre congestionada rodovia Salvador-Feira de Santana.

A ponte é o elo de ligação que une e integra uma faixa considerável do litoral baiano, numa estrada que é cenário de uma natureza exuberante, em meio a rios, cachoeiras, mata atlântica e uma biodiversidade espetacular. Não por acaso, a rodovia BA 001 recebeu o nome de “Estrada Ecológica”.

PICT6375A obra não terá impactos positivos apenas no turismo, que já se fazem sentir no aumento do fluxo de pessoas em Itacaré, Camamu e nas praias ilheenses, mas também na atração e consolidação de outros investimentos, que virão na esteira de projetos importantes como o Porto Sul, a Ferrovia Oeste-Leste, a Zona de Processamento de Exportações, o novo aeroporto de Ilhéus e ainda o Gasoduto da Petrobrás, este um pouco mais distante da faixa litorânea.

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DONA MARLENE, NOS BRAÇOS DE JESUS

daniel2Por Daniel Thame.

Nos tempos de antanho, Buererema, Itajuipe, Coaraci, Ibicaraí, Jussari, etc., sempre que eram citadas, recebiam a indicação de pacatas cidades.

A pacata Buararema, a pacata Itajuipe, a pacata Coaraci…

Era uma espécie de contraponto às agitadas cidades de Itabuna e Ilhéus, metrópoles regiões, com o ônus e o bônus que o crescimento oferece e impõe.

Era também a confirmação de que se tratava de cidades tranqüilas, onde os moradores se conheciam e se respeitavam e em que a violência era quase uma abstração, de tão insignificante, reduzida a ocorrências, do tipo brigas, furtos e pequenos assaltos.

Assassinato, quando havia, era um acontecimento a ser lembrado por meses a fio.

Assim como a palavra “antanho”, caída em desuso, vão longe esses tempos de paz e tranqüilidade.

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A SEGUNDA MORTE DO PROFESSOR ÁLVARO

daniel2Por Daniel Thame.

Mais de quarenta dias se passaram desde que o professor Álvaro Henrique Santos, dirigente da APLB-Sindicato em Porto Seguro foi barbaramente assassinado, num típico crime de mando. Na mesma emboscada, ficou ferido o também professor Elisnei Pereira.

Álvaro Henrique vinha liderando uma grande mobilização em defesa da categoria, numa campanha salarial acirrada, o que levanta suspeitas, não comprovadas, de que sua morte tenha ligação direta com a militância sindical.

Após sua morte, os colegas fizeram várias manifestações para exigir uma investigação rigorosa, no sentido de prender e punir os responsáveis.

Chegaram, inclusive, a encaminhar um documento ao Governo do Estado, na expectativa de que um crime tão brutal não fique impune.

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JESUS, JUDAS E LULA

judas beija jesus

Por Daniel Thame.

É de causar estranheza da reação de alguns setores, Igreja Católica à frente, a uma frase bobinha do presidente Lula, acerca de uma hipotética aliança de Jesus com Judas, caso o Redentor retornasse a Terra e, em vez de redimir os homens do pecado, separar os bons dos maus, levar os bons para o Reino dos Céus e encaminhar os maus para o fogo eterno dos infernos; resolvesse exercer algum cargo público de relevância, presidente da República, por exemplo.

Useiro e vezeiro em usar metáforas, geralmente com o futebol, Lula justificou alguns acordos que faz para manter a governabilidade dizendo mais ou menos o seguinte:

-Se Jesus fosse presidente, teria que fazer acordo até com Judas…

Judas Iscariotes, como todos sabem, foi o discípulo que, segundo os Evangelhos, traiu Jesus e, com um singelo beijo, entregou-o aos romanos.

A traição de Judas talvez ficasse em segundo plano na História caso o povo, já naquele tempo com uma vocação inacreditável para votar errado, instado por Pôncio Pilatos a escolher entre Jesus e Barrabás (um ladrão, precursor de uma considerável parcela de políticos), não tivesse optado por Barrabás.

Escolheu o ladrão!

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OS SEM TERRA, OS SEM JUÍZO E OS SEM ESCRÚPULOS

Por Daniel Thame.

daniel2As avaliações sobre a depredação de uma fazenda que produzia laranjas no interior de São Paulo, comandada por irresponsáveis travestidos liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terras, o MST, estão meio fora de foco.

Tudo bem que algumas lideranças do MST, como João Pedro Stedile e José Rainha, mereciam estar bem trancados numa camisa de força em um hospício, mas jogar a culpa pelos recentes atos de vandalismo no presidente Lula, acusando-o de, no mínimo, ser conivente com os ataques a propriedades rurais, é de um primarismo tolo, uma tentativa nada sutil de provocar estragos na imagem do presidente e, por tabela, afetar a candidatura de Dilma Roussef em 2010.

A associação a que pertencem os lunáticos que destruíram máquinas, casas e laranjais em São Paulo, recebe recursos do Governo Federal assim como centenas de outras ONGs ligadas aos sem-terra recebem.. Não é por isso que todo mundo vai sair por aí destruindo o patrimônio público ou privado.

Os atos de vandalismo cometidos sob a vasta bandeira do MST devem ser condenados com veemência, incluindo punição para os responsáveis, mas não se pode, por conta da eleição que se avizinha, tentar transformar em regra o que é exceção.

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A BALA PERDIDA ENCONTROU MARIA EDUARDA

Por Daniel Thame.

daniel2Na mesma semana em que um infarto fulminante impediu Ferreirinha de chegar aos 100 anos, uma bala perdida impediu a pequena Maria Eduarda Ribeiro Dias de ultrapassar seu primeiro ano de vida.

O quase um século de Ferreirinha, morto no domingo; e o apenas um aninho de Maria Eduarda, assassinada com um tiro no peito na segunda-feira, formam o contraste de uma cidade capaz de garantir a longevidade de uns, mas incapaz de impedir a morte mais do que precoce de outros.

O fazendeiro Ferreirinha, morava na Zildolândia, um bairro classe média de Itabuna. Viveu o suficiente para, aos 85 anos, casar-se com a estudante Iolanda, então com 16 anos, uma paixão arrebatadora e ao mesmo tempo inusitada, que lhe rendeu fama internacional e o título de “Garanhão de Itabuna”, que ostentava com indisfarçável orgulho.

Ao morrer, após lutar bravamente contra uma seqüência de enfermidades, Ferreirinha já tinha seu nome inscrito na história de Itabuna. Seu sepultamento reuniu centenas de pessoas, entre familiares, amigos ou simples curiosos, que o conheciam apenas por conta da fama.

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“TIA, ME DÁ O LÁPIS AÍ”

Por Daniel Thame.

daniel2Lá pelos idos de 1995, durante uma viagem à Cuba, país que nas décadas de 60 e 70 do século passado alimentou a fantasia revolucionária e socialista de uma geração oprimida pela ditadura militar brasileira, deparei-me com vários estudantes que, em vez de pedir dinheiro, apontavam para o bolso da camisa e pediam lápis e canetas.

Isso mesmo, lápis e canetas!

À época, com a derrocada da União Soviética e do esfacelamento do bloco socialista na Europa, Cuba vivia o chamado “período especial”, com racionamento de alimentos, energia elétrica e de combustíveis. Produtos banais como sabonetes, absorventes, pasta de dentes, lápis, canetas e cadernos se transformaram em “artigos de luxo” para os cubanos.

Era de cortar o coração observar meninos e meninas que, graças ao eficiente e gratuito sistema educacional cubano, já falavam dois ou três idiomas e que seriam futuros médicos, engenheiros, arquitetos, físicos, etc., abordarem os turistas para pedir material escolar.

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AS MENINAS DO VIADUTO PAULO SOUTO

Primoroso artigo de Daniel Thame.

as meninas do viadutoUma foto, às vezes, “fala” mais do que mil, milhões de palavras.

Em sendo assim, o que acrescentar à foto do repórter Oziel Aragão, que mostra duas adolescentes, de 14 e 16 anos, se prostituindo no viaduto Paulo Souto, no trevo entre a BR 101 e a BA 415?

Tirando essa maldita mania bajulatória de se dar nome de políticos vivos pontes, viadutos, prédios públicos e quetais, verdadeira praga nacional, a foto revela justamente a ausência do poder público, a histórica inoperância dos nossos governantes para combater essa outra praga: a exclusão social.

Pode parecer ingênuo ou piegas, mas se houvesse menos investimentos em viadutos, pontes e prédios faraônicos que alimentam a vaidade de quem lhes empresta o nome e, não raro, engorda dos bolsos de quem patrocina a obra; e fossem injetados mais recursos em educação, saúde, esporte e geração de empregos, muito provavelmente essas duas jovenzinhas não estariam ali, sob o viaduto, comercializando o corpo e a alma.

As duas meninas captadas pelas lentes de Oziel Aragão, se prostituindo em troco de 5 ou 10 reais, submetidas a humilhações, constrangimentos e muitas vezes agressões físicas; se multiplicam em viadutos, postos de gasolina e restaurantes ao longo da BR 101 e em outras rodovias brasileiras.

São centenas, milhares delas, num desfile de corpos desde cedo marcados pela brutalidade. Meninas-moças precocemente transformadas em mulheres sofridas, sem presente e sem perspectiva de futuro.

Jovenzinhas que deveriam estar na escola ou em atividades de esporte e lazer, lançadas à incerteza das estradas da vida.

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A ÚLTIMA VÍTIMA

manuel leal

Artigo de Daniel Thame.

A Bahia viverá na próxima segunda-feira, dia 21 de setembro, um momento único por aquilo que traz de simbolismo.

Neste dia, que já pode ser qualificado como histórico, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Governo da Bahia realiza um ato de reparação, reconhecendo a responsabilidade do estado no assassinato do jornalista Manuel Leal, por não garantir sua segurança e liberdade de expressão.

Trata-se da primeira vez que um estado brasileiro acata uma recomendação do Comitê Interamericano de Direitos Humanos, entidade que solicitou a reparação.

Manuel Leal, diretor do semanário A Região, foi assassinado em janeiro de 1998, numa emboscada em frente à sua residência no Jardim Primavera, bairro da periferia de Itabuna, a poucos metros das sedes da Polícia Civil e do Batalhão da Polícia Militar.

Na época, o jornal vinha fazendo denuncias fartamente comprovadas contra autoridades municipais e estaduais.

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NOVELA DA VIDA IR(REAL)

daniel2

Artigo de Daniel Thame.

São 20;45 minutos numa sala de aula de uma faculdade em Itabuna. Os alunos estão impacientes. Nada a ver com a complexidade do assunto abordado ou com a prova difícil na próxima aula.

A impaciência é em função do início da novela, que está nos capítulos finais. Na impossibilidade de se chegar em casa, a televisão da cantina será proverbial.

O mocinho da novela, que morreu mas não morreu na explosão de um trem, após descobrir que seu filho não era seu filho, vai continuar com a mocinha sofredora, que começou a novela amando um intocável e depois se tocou que o melhor era amar alguém que poderia tocá-la todos os dias?

A vilã da novela, tão má quanto bonitinha, vai pagar pelos seus incontáveis crimes ou dará um jeitinho de se safar da cadeia para aplicar novos golpes?

O empresário que também morreu mas não morreu para poder fugir para Dubai e ficar com a grana que desviou da empresa da família e depois se arrependeu, receberá o perdão dos que lesou?

São 13;30 minutos num restaurante de Cruz das Almas. Um grupo de cinco pessoas, todos servidores do estado, almoça e conversa animadamente. O assunto não é a greve dos professores nem a explosão de violência em Salvador.

É o final da novela.

Leia mais.

OS EXCLUÍDOS TEM O PODER DE EXCLUIR

Artigo de Daniel Thame.

daniel2Nos últimos anos, o Grito dos Excluídos fez parte das comemorações do 7 de Setembro, uma espécie de contraponto ao ufanismo da celebração da Independência do Brasil.

O Grito dos Excluídos, apropriadamente realizado após o desfile oficial, como a delimitar a barreira que separa o Brazil dos ricos do Brasil dos pobres, sempre abordou temáticas que alertavam para a necessidade de romper o enorme fosso das desigualdades sociais, além de denunciar as mazelas da classe política, que quase sempre se preocupa mais com a própria independência.

Independência financeira, per supuesto!

Este ano, a exemplo do que ocorreu no ano passado, não irá desfilar no 7 de Setembro, mas isso não quer dizer que deixará de ir às ruas.

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