No mês em que a cidade de São Paulo comemorou 458 anos, as cenas vistas na TV associadas à mais rica metrópole brasileira não foram de festa. As imagens vinculadas a São Paulo em janeiro, nos telejornais, foram as dos rotos e esfarrapados em confronto com a Polícia na Cracolândia, região Central da cidade, e as cenas de guerrilha urbana de milhares de famílias na favela de Pinheirinho, na Grande São Paulo, embora já em São José dos Campos. Sim, também houve imagens da chuva de ovos atirados contra o prefeito, Gilberto Kassab, na ida à missa de aniversário da cidade.
Nem bem estreou e o Big Brother Brasil 12 já chegou dizendo a que veio: convocou todo o país para falar de um suposto estupro na tal casa e todo mundo atendeu à convocação, a imprensa junto, é claro. Há uma semana que não se fala em outra coisa no País. Daniel estuprou ou não estuprou Monique? Pouco importa saber quem é um ou outro. Basta saber que são BBBs para que aquilo que um fez com o outro, ou contra o outro, passe a ter relevância nacional. Quiçá, internacional, visto que o formato BBB é globalizado, vale lembrar.
Depois de cerca de duas décadas tolerando ou fingindo não ver a multiplicação de usuários de crack e de outras drogas em seu centro, a cidade de São Paulo resolveu enfrentar o exército de morimbundos da cracolândia de uma hora para a outra e de uma maneira pouco eficente. E pelo andar da carrugem e do tamanho do barulho que se viu nos telejornais nas últimas semanas sobre o assunto, o enfrentamento continua não dando muito certo. Ao invés de prender os traficantes que abastecem a região e de oferecer tratamento para os zumbis humanos que circulam por lá, o que se fez foi tão somente deflagrar uma operação de dispersão dos chapados.
Quem tem muito dinheiro, obviamente pode gastá-lo como quiser e, claro, comportar-se como bem quiser e ninguém tem, em tese, nada a ver com isso. Entretanto, quando esse quem decide que vai fazer essas duas coisas em relação ao seu próprio e rico dinheiro em público, ou seja, gastá-lo e comportar-se perante um país inteiro, que potencialmente poderá espiar cenas explícitas de exibicionismo econômico e de consumismo, então não poderá reclamar dos julgamentos que certamente espocarão na mesma velocidade da iluminação dos tubos catódicos da TV.
Pelos telejornais, chega todos os dias, para a maioria dos brasileiros, apenas um pequeno balanço dos desmandos que ocorrem nos bastidores do poder. Sabe-se que o que chega a se transformar em falas, imagens e documentação na televisão, e na imprensa de modo geral, é tão somente uma crosta superficial, fruto, quase sempre, da insatisfação de alguém envolvido em um esquema de desvio de recursos ou beneficiamento ilícito. Por alguma razão, um dos atores sociais do imbróglio sente-se prejudicado e resolve jogar no ventilador. Dificilmente há uma semana em que não seja veiculada nos telejornais uma denúncia de ‘mal feito’ envolvendo algum órgão público.
Entre as imagens que marcaram a semana televisiva uma destacou-se: o espetáculo de histeria coletiva jamais visto nos telejornais. O público está acostumado a funerais de papas, ídolos da música, astros da história do cinema e de lideranças políticas de todos os matizes ideológicos. Mas quem já havia visto cenas de multidões histéricas nas ruas, sem precisar sequer estar no espaço físico do funeral, como se viu nas imagens que correram o mundo anunciando a morte do ditador norte-coreano Kim Jong II? Como todas as imagens foram distribuídas no mundo pelo governo coreano, uma das ditaduras mais fechadas do mundo, os telejornais questionam até que ponto a emoção do povo era legítima ou uma espécie de performance coletiva diante das câmeras por medo de represálias por parte dos sucessores do regime.
As repercussões rasas e descartáveis que sucederam alguns episódios midiáticos recentes ocorridos na Bahia, como o caso mulher ketchup, o projeto de lei que propõe impedir o governo baiano de contratar, com recursos públicos, bandas de pagode cujo repertório seja ofensivo às mulheres, a suposta relação entre os shows promovidos na praia por programas populares de TV e os arrastões realizados em locais próximos à festa e, mais recentemente, o bafafá em torno da estética e da nomenclatura Negalora, adotada por Cláudia Leitte, sob a chancela de Carlinhos Brown, não passam de mais do mesmo, de fumaça sem fogo.
Enquanto os prazos para as obras de infra-estrutura que o Brasil precisa fazer para não passar vergonha internacional durante a Copa do Mundo começam a ficar estreitinhos, pipocam aqui e ali nos telejornais os sinais de que o famoso jeitinho brasileiro e os acordões que darão vantagens financeiras a poucos e ricos vai fazer a festa. Durante a última semana, os parlamentares apresentaram algumas pérolas que devem tornar a Lei da Copa digerível para a insaciável FIFA, que apresentou ao governo brasileiro trocentas e algumas exigências, da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios à proibição de meia entrada para quem não pode pagar pelos ingressos caros geralmente cobrados nos mundiais de futebol.
Durante a semana a Rede Globo de Televisão estreou a mensagem de Natal, desta vez estrelada por Roberto Carlos e por literalmente todas as estrelas da casa. E depois de passar um ano reiterando a informação de que a classe C finalmente aportou no paraíso, ou seja, que está experimentando como nunca a condição de consumidora, achou por bem homenageá-la na tradicional mensagem de Natal.
Em contraste com todo o discurso celebratório do jornalismo em torno do crescimento econômico brasileiro e da migração de boa parte da população para degraus mais superiores da pirâmide sócio-econômica, o noticiário econômico vem, também, anunciando um fenômeno dissonante dessa celebração: o alto índice de inadimplência da população brasileira. No Brasil, a inadimplência dos consumidores cresceu 20% em 2010. Trazendo o assunto para a Bahia, segundo dados do comércio, algo em torno de 600 mil pessoas com o nome inserido nos sistemas de proteção ao crédito.
Durante a semana, a televisão mal falou de outra coisa que não fosse a prisão de Nem, o chefe do tráfico na favela carioca da Rocinha. Sim, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, continuou no pau de arara das denúncias, mas como se trata do sétimo ministro com esse roteiro, o telespectador já sabe mais ou menos como esse tipo de novela deve acabar e preferiu migrar com toda a sua atenção para Nem e a Rocinha. Todo o roteiro da prisão de Nem e a seguida operação de invasão dos órgãos de segurança pública do Rio à Rocinha foram Ibope certo, pois desde Tropa de Elite, os filmes, cenas dessa natureza parecem se tratar do episódio 3 do blockbuster de José Padilha.
Enquanto mais um ministro passava a semana pendurado no pau de arara das denúncias de corrupção, desta vez no Ministério do Trabalho, o Brasil acompanhava take a take pela TV os movimentos de uma espécie de Malhação real, em versão para adultos e com ares de suspense policial: a peleja travada entre a Polícia Militar de São Paulo e o grupo de estudantes que invadiu a Reitoria da USP após três alunos terem sido levados para uma delegacia por terem sido flagrados fumando maconha no campus. Esse “era” o embate inicial, um conflito interno travado entre uma penca de alunos e a PM.
Se até bem pouco tempo o câncer era uma doença cujo nome jamais se ousava pronunciar, a verdade é que hoje se perdeu o medo, se não da doença, pelo menos da palavra. Recentemente, todos os telejornais têm falado e muito da doença. Casos de personalidades e autoridades têm contribuído incessantemente para que o assunto tenha passado a ser abordado sem o tom de estigma que até bem pouco tempo marcava a patologia. No campo da política brasileira, os casos emblemáticos do ex-vice presidente José de Alencar e da presidente Dilma Roussef serviram como última fronteira para a abordagem sem tabus pela imprensa, mesmo porque o câncer que Dilma enfrentou tornou-se, de forma direta e indireta, assunto até mesmo de campanha eleitoral.
No final da década de 80, a revista Veja conseguiu uma unanimidade em rejeição do público ao estampar em sua capa uma fotografia do cantor Cazuza, extremamente magro, tendo como legenda a seguinte frase: uma vítima da Aids agoniza em praça pública. Eram os tempos em que o diagnóstico de Aids equivalia praticamente a uma sentença de morte e um dos maiores artistas da música pop brasileira experimentava todas as conseqüências clínicas que o HIV então representava para o organismo, já que as pesquisas que levariam aos medicamentos que hoje garantem uma vida de qualidade aos HIV positivos estavam engatinhando.
Recentemente, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse em público aquilo que muitas autoridades e poderosos vivem dizendo longe das câmeras e microfones. Referindo-se a matérias feitas pela Rede Record sobre acusações contra ele, Teixeira disse à entrevistadora, na revista Piauí, algo do tipo: “só vou ficar preocupado, ‘meu amor’, quando sair no Jornal Nacional”. No início da última semana, a Folha de S. Paulo, referindo-se à forma como a emissora dos irmãos Marinho está se comportando em relação aos jogos Pan-Americanos, fez uma pergunta que tem tudo a ver com a resposta de Teixeira: se uma árvore cai na floresta e a Globo não mostra, será que ela caiu? E se a principal rede de televisão do país dá mais espaço para a Stock Car e o showbol é porque esses “esportes” são mais importantes que o Pan?
As marchas e os protestos estão na ordem do dia em diversos países do mundo, do Oriente Médio aos quintais brasileiros, mesmo que, entre si, guardem diferenças motivacionais e de escala e etmologia abissais. Antes, muito antes, que o telejornalismo internacional corresse com suas câmeras para mostrar ao mundo o povo revolvendo-se nas ruas contra as décadas de ditadura no Egito e na Tunísia, por exemplo, no início deste ano, outra esfera midiática, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e dispositivos móveis como os smartphones e os tablets, já haviam se tornado os protagonistas da chamada Primavera Árabe.
Começo de tarde em Salvador. Na tela da TV, ágil como um urubu eletrônico programado, um helicóptero da TV Record ronda, aproxima-se, sobrevoa, plaina, durante minutos que parecem eternos, sobre um corpo masculino morto, esfacelado sob o sol no asfalto de uma rodovia, após um acidente de trânsito recém-ocorrido. No estúdio, o apresentador Zé Eduardo, o Bocão, narra a tragédia ao mesmo tempo em que faz as vezes de diretor de imagem, pedindo para a câmera ir para lá, para cá, pedindo para granular a imagem aqui ou acolá. Estendido no solo, visto de cima, sob a perspectiva do olhar de gavião eletronicamente potencializado das câmeras de TV atrepadas no helicóptero, um motociclista morto, mutilado, num nível tal de desconfiguração corporal, decorrente do porte do acidente, que equivalia a cenas de filmes B de terror. Manchas vermelhas e brancas espalhadas em raios que o apresentador dizia equivaler a 30 metros. Não era ketchup.
Com a popularização da Internet e, sobretudo, com o sucesso das redes sociais, hoje os telejornais têm muito mais possibilidades de mensurar o quanto determinados temas abordados sob a forma de notícia caem ou não no gosto do telespectador. Se antes da febre das redes sociais já se falava em notícias de interesse público (aquelas que se relacionam a fatos que dizem respeito à vida de todos os cidadãos) e notícias do interesse ‘do’ público (aquelas que dizem respeito à vida das celebridades e a fait divers e que só são veiculadas para inflar a audiência), hoje pode-se dizer que há um terceiro fenômeno em curso: as notícias de interesse público ou interesse ‘do’ público que passam a fazer parte de uma terceira agenda: a agenda da audiência do público específico das redes sociais.
Na história recente da teledramaturgia brasileira, conquistar e manter cada ponto nos índices de audiência exige das emissoras de televisão encantar continuadamente milhões de telespectadores que hoje têm trocentas opções ao alcance do controle remoto. Neste cenário, o horário das seis, mesmo na emissora líder de audiência, costuma ser mais do que ingrato para qualquer autor de telenovela. O horário, já tido e havido, desde sempre, como o menos nobre da grade que ensanduicha telejornais entre uma e outra novela, herda um público meso púbere da soap opera à brasileira que atende pelo nome de Malhação e pega um público novo meio indefinido, formado pelas pessoas que conseguem chegar da escola ou do trabalho a tempo de ver algumas cenas.
Não, isso não é o título de capítulo do livro nem da novela “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. É apenas um bom título para contemplar o corolário de espertezas toscas protagonizadas pelo recém-desabado e apeado ministro dos Transportes, Pedro Novais. Antes mesmo de assumir o Ministério do Turismo, o senhorzinho maranhense, amigo de longa data do todo poderoso José Sarney, já dava demonstrações públicas de que sua gestão seria um prato cheio para quem se dispusesse a procurar lixo na Esplanada dos Ministérios.
Se há um aspecto com o qual o telespectador assíduo e atento dos telejornais está acostumado é com a repetição de cenas nas quais as câmeras de TV, ocultas ou não, denunciam uma prática criminosa ou desumana e no dia seguinte o Estado está no mesmo local, como se convocado e pautado pela imprensa. Em um país onde as coisas funcionam, a ordem mais natural é aquela em que o Estado e suas ações pautam a imprensa, no sentido de transformar tais ações em notícias ou cobrar dos gestores públicos o cumprimento destas em grau satisfatório.
Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.