EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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Marcelo Guerra
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Sandro Andrade

Malu Fontes

PINHEIRINHO E O ALÇAPÃO DE POBRES

Por Malu Fontes

No mês em que a cidade de São Paulo comemorou 458 anos, as cenas vistas na TV associadas à mais rica metrópole brasileira não foram de festa. As imagens vinculadas a São Paulo em janeiro, nos telejornais, foram as dos rotos e esfarrapados em confronto com a Polícia na Cracolândia, região Central da cidade, e as cenas de guerrilha urbana de milhares de famílias na favela de Pinheirinho, na Grande São Paulo, embora já em São José dos Campos. Sim, também houve imagens da chuva de ovos atirados contra o prefeito, Gilberto Kassab, na ida à missa de aniversário da cidade.

Pinheirinho abrigava cerca de 6.000 pessoas em um terreno de 1,3 milhão de metros quadrados, pertencente à massa falida de Naji Najas e invadida em 2004. Independemente das questões de justiça e injustiça que podem ser invocadas em relação à decisão judicial de reintegrar a posse do terreno, expulsando os moradores e destruindo absolutamente todas as moradias, três aspectos chamaram àtenção na cobertura telejornalística durante a semana. Uma delas é repetida à exaustação sempre que uma calamidade atinge contingentes populacionais pobres no Brasil, o que equivale a dizer que é algo rotineiro nas manchetes jornalísticas: o que acontece com o exército de gente pobre 24h após as hecatombes que acontecem em suas vidas?

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A POLÍCIA NO PROJAC

Por Malu Fontes

Nem bem estreou e o Big Brother Brasil 12 já chegou dizendo a que veio: convocou todo o país para falar de um suposto estupro na tal casa e todo mundo atendeu à convocação, a imprensa junto, é claro. Há uma semana que não se fala em outra coisa no País. Daniel estuprou ou não estuprou Monique? Pouco importa saber quem é um ou outro. Basta saber que são BBBs para que aquilo que um fez com o outro, ou contra o outro, passe a ter relevância nacional. Quiçá, internacional, visto que o formato BBB é globalizado, vale lembrar.

Para se chegar a essa convocação  atendida majoritariamente por uma sociedade inteira, não se pode perder de vista, mais do que o assunto em si, a força desprogramada e incontrolável do fenômeno que já atende pelo nome de informação compulsória ou jornalismo compulsório. O fenômeno consiste no seguinte: mesmo que um determinado leitor não tenha absolutamente nenhum interesse num tipo específico de notícia, geralmente relacionada ao mundo das celebridades, ele saberá dessa notícia.

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DISPERSA, CRACOLÂNDIA, QUE AS ELEIÇÕES VÊM AÍ

Por Malu Fontes

Depois de cerca de duas décadas tolerando ou fingindo não ver a multiplicação de usuários de crack e de outras drogas em seu centro, a cidade de São Paulo resolveu enfrentar o exército de morimbundos da cracolândia de uma hora para a outra e de uma maneira pouco eficente. E pelo andar da carrugem e do tamanho do barulho que se viu nos telejornais nas últimas semanas sobre o assunto, o enfrentamento continua não dando muito certo. Ao invés de prender os traficantes que abastecem a região e de oferecer tratamento para os zumbis humanos que circulam por lá, o que se fez foi tão somente deflagrar uma operação de dispersão dos chapados.

Ninguém em sã consciência e sem hipocrisia pode discordar de que o Centro de São Paulo há muito tempo vem requerendo alguma ação política, sanitária, de segurança pública e preferencialmente várias ações dessa natureza coordenadas para impedir que um pedaço urbano do país continuasse a viver sob um sistema de exceção quanto ao tráfico e ao uso de drogas. Ou seja, embora o trafico de drogas seja crime e seja, inclusive, responsável por um percentual gigantesco da população carcerária brasileira, na Cracolândia o tráfico é, há anos, praticado 24 horas por dia, sob a vista omissa de todas as autoridades, de todas as esferas.

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ÁGUA MINERAL PARA MALTÊS E LAMA PARA GENTE

Por Malu Fontes

Quem tem muito dinheiro, obviamente pode gastá-lo como quiser e, claro, comportar-se como bem quiser e ninguém tem, em tese, nada a ver com isso. Entretanto, quando esse quem decide que vai fazer essas duas coisas em relação ao seu próprio e rico dinheiro em público, ou seja, gastá-lo e comportar-se perante um país inteiro, que potencialmente poderá espiar cenas explícitas de exibicionismo econômico e de consumismo, então não poderá reclamar dos julgamentos que certamente espocarão na mesma velocidade da iluminação dos tubos catódicos da TV.

E é esse tipo de julgamento que vem acontecendo na imprensa, nas páginas de comentários de blogs e sites e nas redes sociais desde a estreia, na semana passada, do reality show da Band, Mulheres Ricas. O programa entrou na ar na última segunda-feira  para ocupar o horário durante a temporada de férias do CQC. A atração reúne cinco mulheres milionárias, seja por herança de família, fruto de trabalho ou por cama, traduzida, neste caso, como casamento, claro. A socialite carioca ‘ai que loucura’ Narcisa Tamborindeguy, a ex-sem terra, capa de Playbloy e atual piloto de Fórmula Truck e rica Débora Rodrigues, a joalheira Lydia Sayeg, a arquiteta Brunete Fraccarolli e a empresária e apresentadora de TV Val Marchiori estão no ar para mostrar ao país como é viver sem limite no cartão de crédito.

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OS ESTRESSADOS E AS VÍTIMAS

Por Malu Fontes

Pelos telejornais, chega todos os dias, para a maioria dos brasileiros, apenas um pequeno balanço dos desmandos que ocorrem nos bastidores do poder. Sabe-se que o que chega a se transformar em falas, imagens e documentação na televisão, e na imprensa de modo geral, é tão somente uma crosta superficial, fruto, quase sempre, da insatisfação de alguém envolvido em um esquema de desvio de recursos ou beneficiamento ilícito. Por alguma razão, um dos atores sociais do imbróglio sente-se prejudicado e resolve jogar no ventilador. Dificilmente há uma semana em que não seja veiculada nos telejornais uma denúncia de ‘mal feito’ envolvendo algum órgão público.

DESONESTO - Do mesmo modo, a cada ano sucedem-se na tela imagens apocalípticas de sucessivas tragédias brasileiras, todas elas, de algum modo, representando, sim, as consequências avessadas da corrupção, do desvio de dinheiro público, da omissão dos governantes. Se a TV noticia a cada final de ano ou em todos os pós-feriado uma montanha de corpos mortos e feridos no trânsito, se as retrospectivas noticiosas a cada ano dão conta de milhares de assassinatos, assaltos e latrocínios, se o número de crianças e jovens analfabetos é vergonhoso, o que está no fundo da explicação para isso tudo senão o fato de que, quem tem poder para começar a mudar as coisas, privilegiar a ascensão da vida financeira privada, sob os cofres públicos?

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DRAMA, MAU GOSTO E DITADORES

Por Malu Fontes

Entre as imagens que marcaram a semana televisiva uma destacou-se: o espetáculo de histeria coletiva jamais visto nos telejornais. O público está acostumado a funerais de papas, ídolos da música, astros da história do cinema e de lideranças políticas de todos os matizes ideológicos. Mas quem já havia visto cenas de multidões histéricas nas ruas, sem precisar sequer estar no espaço físico do funeral, como se viu nas imagens que correram o mundo anunciando a morte do ditador norte-coreano Kim Jong II? Como todas as imagens foram distribuídas no mundo pelo governo coreano, uma das ditaduras mais fechadas do mundo, os telejornais questionam até que ponto a emoção do povo era legítima ou uma espécie de performance coletiva diante das câmeras por medo de represálias por parte dos sucessores do regime.

NU - Se em termos de imagens as caras, caretas, lágrimas e arremedos de catarse dos coreanos dominaram a seara televisiva, quando se trata de fatos, e também em escala internacional, não tem pra ninguém: o tema da vez é Cristina Kirchner, a espevitada presidente da Argentina, a viúva de Nestor, recém reeleita. Enquanto Cristina dava um pulinho no vizinho Uruguai, para participar de uma reunião do Mercosul, 50 militares da Gendarmeria, polícia especial que atua nas fronteiras do país, invadiam a sede da Cablevisión, uma emissora de TV a cabo do grupo Clarín, que faz oposição ao governo Kirchner.

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SENTA LÁ, NEGALORA

Por Malu Fontes

As repercussões rasas e descartáveis que sucederam alguns episódios midiáticos recentes ocorridos na Bahia, como o caso mulher ketchup, o projeto de lei que propõe impedir o governo baiano de contratar, com recursos públicos, bandas de pagode cujo repertório seja ofensivo às mulheres, a suposta relação entre os shows promovidos na praia por programas populares de TV e os arrastões realizados em locais próximos à festa e, mais recentemente, o bafafá em torno da estética e da nomenclatura Negalora, adotada por Cláudia Leitte, sob a chancela de Carlinhos Brown, não passam de mais do mesmo, de fumaça sem fogo.

PIN UP - Cláudia Leitte em si já é um fenômeno midiático no mínimo difícil de ser enquadrado. É um produto do business fonográfico, construído passo a passo diante dos holofotes, desde os primeiros passos públicos, como a Lolita da banda Babado Novo. Uma década depois, muito investimento em marketing e um processo poderoso de agenciamento da aparência e da carreira a transformaram em um fenômeno polvo. Pouco se fala do seu talento musical. As informações que saltam aos olhos sobre seu estrelato centram-se nas referências celebratórias à sua beleza e ao seu vigor corporal de uma Barbie contorcionista de palco, à sua força atual de mascate publicitário que só anuncia menos coisas à venda que Ivete Sangalo, à sua imagem de pin up gostosa de calendário.

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NO AR, OS ARMENGUES DA COPA

Por Malu Fontes

Enquanto os prazos para as obras de infra-estrutura que o Brasil precisa fazer para não passar vergonha internacional durante a Copa do Mundo começam a ficar estreitinhos, pipocam aqui e ali nos telejornais os sinais de que o famoso jeitinho brasileiro e os acordões que darão vantagens financeiras a poucos e ricos vai fazer a festa. Durante a última semana, os parlamentares apresentaram algumas pérolas que devem tornar a Lei da Copa digerível para a insaciável FIFA, que apresentou ao governo brasileiro trocentas e algumas exigências, da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios à proibição de meia entrada para quem não pode pagar pelos ingressos caros geralmente cobrados nos mundiais de futebol.

Não deixa de ser engraçado que o mundo e os berros ecoantes e onipresentes da televisão trombeteiem cada dia com mais adjetivos medonhos o cigarro convencional ao mesmo tempo em que é tão tolerante, leniente e dócil com o consumo de bebidas alcoólicas, cujos males, na sociedade brasileira, não ficam nada longe daqueles causados pelo cigarro, embora sejam sim males de natureza diferente. Por que a propaganda de cigarro é tão demonizada se a do álcool passeia ostensiva, livre e faceira na programação televisiva e em todas as plataformas em que cabe uma campanha publicitária? Ah, tá: a bebida alcoólica nada tem a ver com o índice de homicídios cometidos no Brasil, com dependência química, com as estatísticas trágicas da violência doméstica e com determinados dados epidemiológicos da saúde pública nacional.

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A CLASSE C CHEGA AO PARAÍSO. FARDADA E COM A TELA DIVIDIDA

Por Malu Fontes

Durante a semana a Rede Globo de Televisão estreou a mensagem de Natal, desta vez estrelada por Roberto Carlos e por literalmente todas as estrelas da casa. E depois de passar um ano reiterando a informação de que a classe C finalmente aportou no paraíso, ou seja, que está experimentando como nunca a condição de consumidora, achou por bem homenageá-la na tradicional mensagem de Natal.

Embora as estrelas da peça institucional ilustrada pela legenda “a gente se liga em você” sejam o elenco da Globo e Roberto, os homenageados, segundo matérias publicadas nos sistemas de crossmídia das organizações Globo, são os brasileiros que desempenham “funções que fazem parte do dia a dia dos brasileiros, reforçando o conceito do novo slogan da emissora”. Tem garçom, taxista, sorveteiro, arrumadeira, babá, empregada, cozinheira, operário, carteiro… Cada um devidamente interpretado por uma estrela global.

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A BACIADA DAS ALMAS INADIMPLENTES

Por Maulo Fontes

Em contraste com todo o discurso celebratório do jornalismo em torno do crescimento econômico brasileiro e da migração de boa parte da população para degraus mais superiores da pirâmide sócio-econômica, o noticiário econômico vem, também, anunciando um fenômeno dissonante dessa celebração: o alto índice de inadimplência da população brasileira. No Brasil, a inadimplência dos consumidores cresceu 20% em 2010. Trazendo o assunto para a Bahia, segundo dados do comércio, algo em torno de 600 mil pessoas com o nome inserido nos sistemas de proteção ao crédito.

Quem acredita no jogo do contente pode fazer de conta que foi pensando no bem estar de boa parte desse meio milhão de pessoas que a Câmara de Diretores Lojistas de Salvador (CDL) lançou na última semana o I Feirão do Nome Limpo. O evento tem sido, tanto ou mais que um sucesso de público, um sucesso de mídia. Não houve um telejornal que não tenha veiculado matérias sobre o assunto e mais de uma vez. Jornais impressos, emissoras de rádio, blogs, sites, todos agendaram o evento como o mais importante da semana em Salvador, coisa não tão difícil assim, pois, fora os efeitos colaterais da violência urbana, as dores e as delícias do Ba-Vi e os salamaleques de alcova do ex-casal do Executivo Municipal, a cidade anda mesmo, e há tempos, com alguma preguiça de produzir fatos ou discussões relevantes.

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O BOM SELVAGEM E OS MAUS CIVILIZADOS

Por Malu Fontes

Durante a semana, a televisão mal falou de outra coisa que não fosse a prisão de Nem, o chefe do tráfico na favela carioca da Rocinha. Sim, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, continuou no pau de arara das denúncias, mas como se trata do sétimo ministro com esse roteiro, o telespectador já sabe mais ou menos como esse tipo de novela deve acabar e preferiu migrar com toda a sua atenção para Nem e a Rocinha. Todo o roteiro da prisão de Nem e a seguida operação de invasão dos órgãos de segurança pública do Rio à Rocinha foram Ibope certo, pois desde Tropa de Elite, os filmes, cenas dessa natureza parecem se tratar do episódio 3 do blockbuster de José Padilha.

Para além de toda a cobertura da TV sobre a prisão de Nem, que começou com um episódio mais que novelesco envolvendo um carrão preto ocupado por homens que se diziam do Consulado da República do Congo, descendo às duas da madrugada um morro no Rio de Janeiro, dois detalhes chamaram atenção: o brilho dos cachos encaracolados e negros como a asa da graúna da cabeleira de Nem (que até horas atrás a TV apresentava ao país num retrato de um malandro de cabelo aloirado de tinta), e a reação da imprensa ao telefonema afetuoso que o traficante deu para a mãe assim que chegou à Delegacia da Polícia Federal. Sim, a cabeleira negra e brilhante ao ponto que nenhum umidificador de cachos é capaz de garantir é coisa que só mulheres devem notar, mas, o que dizer do espanto com que Deus e o mundo reagiram ao pedido que o preso fez à mãe para que os filhos (sete, dois deles adotados) não faltassem às aulas apesar do ocorrido?

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CORRAM COM A MARCHA QUE A POLÍCIA VEM AÍ

Por Malu Fontes

Enquanto mais um ministro passava a semana pendurado no pau de arara das denúncias de corrupção, desta vez no Ministério do Trabalho, o Brasil acompanhava take a take pela TV os movimentos de uma espécie de Malhação real, em versão para adultos e com ares de suspense policial: a peleja travada entre a Polícia Militar de São Paulo e o grupo de estudantes que invadiu a Reitoria da USP após três alunos terem sido levados para uma delegacia por terem sido flagrados fumando maconha no campus. Esse “era” o embate inicial, um conflito interno travado entre uma penca de alunos e a PM.

No entanto, assim que o conflito se estabeleceu e chegou à opinião pública, o caldo entornou. O roteiro foi ficando cada vez mais complexo e non sense, o número de personagens envolvidos foi aumentando literalmente aos milhares a cada dia e papéis de mocinhos, vítimas, heróis, vilões, bárbaros e bandidos foram sendo atribuídos, seguidos de pedido de clemência ou de invocação a um massacre moral ou físico sumário, por tudo o quanto é gente que hoje pode dar sua opinião, seja diante de uma câmera de TV, numa entrevista a um repórter de veículo impresso ou on line, numa rede social ou nos comentários postados sobre a cobertura do assunto nos sites jornalísticos.

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COR DE ROSA PARA QUEM?

Por Malu Fontes

Se até bem pouco tempo o câncer era uma doença cujo nome jamais se ousava pronunciar, a verdade é que hoje se perdeu o medo, se não da doença, pelo menos da palavra. Recentemente, todos os telejornais têm falado e muito da doença. Casos de personalidades e autoridades têm contribuído incessantemente para que o assunto tenha passado a ser abordado sem o tom de estigma que até bem pouco tempo marcava a patologia. No campo da política brasileira, os casos emblemáticos do ex-vice presidente José de Alencar e da presidente Dilma Roussef serviram como última fronteira para a abordagem sem tabus pela imprensa, mesmo porque o câncer que Dilma enfrentou tornou-se, de forma direta e indireta, assunto até mesmo de campanha eleitoral.  

Nos últimos meses, os casos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, do ator Reinaldo Gianecchini e a morte de Steve Jobs ocuparam páginas e páginas, telas e telas na imprensa. Boa parte do mundo, aliás, só descobriu que tinha um pâncreas quando o mago da Apple morreu com um câncer no órgão. Entretanto, foi com o diagnóstico do câncer de laringe do ex-presidente Lula que o assunto foi parar nos assuntos mais citados na imprensa e mais comentado nas redes sociais. Como todo bom assunto que hoje se preza, o diagnóstico do presidente ganhou fertilidade e amplitude máxima de comentários foi mesmo nas redes sociais, onde a censura é frouxa ou inexistente e onde ninguém se sente constrangido de mostrar o pior de si quando se trata de manifestar as paixões e os ódios pessoais.

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AGONIZANDO NA PRAÇA ELETRÔNICA

Por Malu Fontes

No final da década de 80, a revista Veja conseguiu uma unanimidade em rejeição do público ao estampar em sua capa uma fotografia do cantor Cazuza, extremamente magro, tendo como legenda a seguinte frase: uma vítima da Aids agoniza em praça pública. Eram os tempos em que o diagnóstico de Aids equivalia praticamente a uma sentença de morte e um dos maiores artistas da música pop brasileira experimentava todas as conseqüências clínicas que o HIV então representava para o organismo, já que as pesquisas que levariam aos medicamentos que hoje garantem uma vida de qualidade aos HIV positivos estavam engatinhando. 

Embora a comparação pareça grosseira, e sobretudo injusta quando se leva em conta o tipo de tratamento então dado pela Veja a Cazuza, não deve ser pecado pegar a frase emprestada para aplicá-la aos pedaços ao que aconteceu nas duas últimas semanas ao agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva. Durante 12 dias, o telespectador brasileiro, seja ele de qual matriz ou matiz ideológico for, assistiu diuturnamente, como diria a presidente, até a noite da última quarta-feira (26 de outubro), e pela sexta vez consecutiva em 10 meses, mais uma via crucis, de mais um ministro do Governo Dilma, agonizando não na praça pública material, de pedra e cal, mas na praça pública eletrônica, a televisão, e nos conjuntos dos outros meios de comunicação que lhe fazem companhia no entorno.

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GLOBO, RECORD E O COMÉRCIO DE FLUIDOS E SECREÇÕES

Por Malu Fontes

Recentemente, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse em público aquilo que muitas autoridades e poderosos vivem dizendo longe das câmeras e microfones. Referindo-se a matérias feitas pela Rede Record sobre acusações contra ele, Teixeira disse à entrevistadora, na revista Piauí, algo do tipo: “só vou ficar preocupado, ‘meu amor’, quando sair no Jornal Nacional”. No início da última semana, a Folha de S. Paulo, referindo-se à forma como a emissora dos irmãos Marinho está se comportando em relação aos jogos Pan-Americanos, fez uma pergunta que tem tudo a ver com a resposta de Teixeira: se uma árvore cai na floresta e a Globo não mostra, será que ela caiu? E se a principal rede de televisão do país dá mais espaço para a Stock Car e o showbol é porque esses “esportes” são mais importantes que o Pan?

O fato de a Rede Record deter os direitos de transmissão dos jogos e o modo como a Globo vem se referindo ao evento diz muito sobre o que leva o jornalismo e o telejornalismo a dar um maior, menor ou nenhum destaque à cobertura de um determinado assunto. Não, não é o interesse público e nem mesmo o interesse ‘do’ público que leva uma emissora a centrar fogo na cobertura de um assunto. É, e sempre será, é bom acostumar-se, o interesse comercial da emissora. Como não tem os direitos de transmissão do Pan, a Globo praticamente o ignora.

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REDES E RUAS

Por Malu Fontes

As marchas e os protestos estão na ordem do dia em diversos países do mundo, do Oriente Médio aos quintais brasileiros, mesmo que, entre si, guardem diferenças motivacionais e de escala e etmologia abissais. Antes, muito antes, que o telejornalismo internacional corresse com suas câmeras para mostrar ao mundo o povo revolvendo-se nas ruas contra as décadas de ditadura no Egito e na Tunísia, por exemplo, no início deste ano, outra esfera midiática, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e dispositivos móveis como os smartphones e os tablets, já haviam se tornado os protagonistas da chamada Primavera Árabe.

Protestos de pessoas nas ruas, longe de serem tímidos ou tranquilos, também foram registrados nas redes sociais na Espanha, um dos primeiros países da Europa cuja população esperneou contra a crise econômica e o consequente desemprego. Como aconteceu no mundo Árabe, na Grécia e viria a acontecer depois nos tumultos nas ruas de Londres, os manifestantes espanhóis utilizaram toda a potencialidade das redes sociais para amplificar os ecos das queixas contra o poder instituído ou o estado de coisas que contestavam. As estratégias de repercussão nas redes não se equivalem aos métodos correntes de uso dos meios de comunicação convencionais, como se dá, por exemplo, com os movimentos sociais que lançam mão de assessorias de imprensa e envios de releases para as redações da imprensa tradicional para divulgar suas causas e reivindicações.

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TV E MONOPÓLIO DA MORBIDEZ

Por Malu Fontes

Começo de tarde em Salvador. Na tela da TV, ágil como um urubu eletrônico programado, um helicóptero da TV Record ronda, aproxima-se, sobrevoa, plaina, durante minutos que parecem eternos, sobre um corpo masculino morto, esfacelado sob o sol no asfalto de uma rodovia, após um acidente de trânsito recém-ocorrido. No estúdio, o apresentador Zé Eduardo, o Bocão, narra a tragédia ao mesmo tempo em que faz as vezes de diretor de imagem, pedindo para a câmera ir para lá, para cá, pedindo para granular a imagem aqui ou acolá. Estendido no solo, visto de cima, sob a perspectiva do olhar de gavião eletronicamente potencializado das câmeras de TV atrepadas no helicóptero, um motociclista morto, mutilado, num nível tal de desconfiguração corporal, decorrente do porte do acidente, que equivalia a cenas de filmes B de terror. Manchas vermelhas e brancas espalhadas em raios que o apresentador dizia equivaler a 30 metros. Não era ketchup.

LONA - O fato: um motociclista desequilibrara-se, caíra do veículo e, em seguida, fora atropelado, segundo a emissora, por um, dois ou mais caminhões, que seguiram viagem sem parar, sem prestar socorro. A vítima, a imprensa identificaria depois como sendo um jovem de apenas 19 anos que, no instante do acidente, dirigia-se no sentido Simões Filho-Salvador para encontrar a mulher, que lhe telefonara convidando-o para uma surpresa: acabara de descobrir que estava grávida. Enfim, uma história com todos os contornos de um drama capaz de mobilizar os telejornais populares à exaustão. No entanto, embora em meio a esse cenário macabro, dois elementos chamavam atenção para além do corpo: a insistência com que o repórter e apresentador reclamavam da presença de curiosos e o fato de praticamente todos esses ‘curiosos’ não se contentarem em ver a cena a olho nu, pois empunhavam também um telefone celular gravando a cena.

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É DISSO QUE O POVO GOSTA?

Por Malu Fontes

Com a popularização da Internet e, sobretudo, com o sucesso das redes sociais, hoje os telejornais têm muito mais possibilidades de mensurar o quanto determinados temas abordados sob a forma de notícia caem ou não no gosto do telespectador. Se antes da febre das redes sociais já se falava em notícias de interesse público (aquelas que se relacionam a fatos que dizem respeito à vida de todos os cidadãos) e notícias do interesse ‘do’ público (aquelas que dizem respeito à vida das celebridades e a fait divers e que só são veiculadas para inflar a audiência), hoje pode-se dizer que há um terceiro fenômeno em curso: as notícias de interesse público ou interesse ‘do’ público que passam a fazer parte de uma terceira agenda: a agenda da audiência do público específico das redes sociais.

O fato de um tema abordado nos fóruns noticiosos tradicionais ter bombado no Twitter ou no Facebook, por exemplo, não significa necessariamente que as notícias relacionadas a ele tenham tido o mesmo nível de repercussão pública na vida social off line. A audiência das redes sociais talvez venha a adquirir uma equivalência à da televisão, mas ainda não são a mesma coisa. Há, portanto, uma agenda pública e uma agenda do público das redes sociais. Entretanto, mesmo que o conceito de audiência da televisão ainda não sirva para traduzir nos mesmos termos a audiência e repercussão nas redes sociais, é fato que as redes são, sim, um poderoso instrumento de aferição do que ganha repercussão.

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PRINCESA, CANGAÇO E UNANIMIDADE

Por Malu Fontes

Na história recente da teledramaturgia brasileira, conquistar e manter cada ponto nos índices de audiência exige das emissoras de televisão encantar continuadamente milhões de telespectadores que hoje têm trocentas opções ao alcance do controle remoto. Neste cenário, o horário das seis, mesmo na emissora líder de audiência, costuma ser mais do que ingrato para qualquer autor de telenovela. O horário, já tido e havido, desde sempre, como o menos nobre da grade que ensanduicha telejornais entre uma e outra novela, herda um público meso púbere da soap opera à brasileira que atende pelo nome de Malhação e pega um público novo meio indefinido, formado pelas pessoas que conseguem chegar da escola ou do trabalho a tempo de ver algumas cenas.

O público herdado de Malhação, em tese, tende, nesse horário, a migrar para a frente do computador ou de qualquer outra tela onde possa conversar on line com amigos da mesma idade. Nesse panorama, Cordel Encantado (cujo último capítulo foi exibido na última sexta-feira), a novela global das seis que revolucionou a estética do gênero no horário e conquistou de braçadas a fidelidade de um público intergeracional e de todas as classes sociais, foi uma prova e tanto do quanto criatividade era algo raro de se ver no gênero nos últimos tempos. O telespectador adorou de fazer brilhar o olho como luxo estético e dramatúrgico de um folhetim que parecia reunir coisas improváveis, elementos que em mãos erradas poderiam virar um panelada sem estilo, coerência e identidade.

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ADÃO, DORALICE E AS ARMAÇÕES DE PEDRINHO

Por Malu Fontes

Não, isso não é o título de capítulo do livro nem da novela “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. É apenas um bom título para contemplar o corolário de espertezas toscas protagonizadas pelo recém-desabado e apeado ministro dos Transportes, Pedro Novais. Antes mesmo de assumir o Ministério do Turismo, o senhorzinho maranhense, amigo de longa data do todo poderoso José Sarney, já dava demonstrações públicas de que sua gestão seria um prato cheio para quem se dispusesse a procurar lixo na Esplanada dos Ministérios.

Assim que teve o nome indicado pelo seu padrinho político, estourou, na imprensa escrita e nos telejornais, um escândalo de alcova: o ministro, baixíssimo em estatura, com seus 1,55m, estreava no coração do poder trazendo a reboque uma festa que teria dado em um motel do Maranhão. Paga com dinheiro público, claro. Até então, achava-se que nada de mais constrangedor poderia acontecer a um homem que ultrapassara os 80 anos ostentando um daqueles casamentos solidíssimos que a alta sociedade adora citar e no alto de seu sexto mandato conquistado nas urnas do Maranhão como deputado federal.

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AONDE O TELEJORNAL VAI, O ESTADO VAI ATRÁS

Por Malu Fontes

Se há um aspecto com o qual o telespectador assíduo e atento dos telejornais está acostumado é com a repetição de cenas nas quais as câmeras de TV, ocultas ou não, denunciam uma prática criminosa ou desumana e no dia seguinte o Estado está no mesmo local, como se convocado e pautado pela imprensa. Em um país onde as coisas funcionam, a ordem mais natural é aquela em que o Estado e suas ações pautam a imprensa, no sentido de transformar tais ações em notícias ou cobrar dos gestores públicos o cumprimento destas em grau satisfatório.

No contexto brasileiro, no entanto, há omissões crônicas do Estado, práticas sociais criminosas que se repetem há anos e para que o poder público venha à sociedade prestar contas ou oferecer possibilidades de solução é preciso que a imprensa, sobretudo a televisão, chegue antes e mostre a barbárie da vez. Um exemplo clássico desta prática se deu na primeira sexta-feira de setembro, quando o Jornal Nacional exibiu uma reportagem na qual denunciava a prática sistemática e ostensiva do tráfico e consumo de drogas, aliada ao roubo e à agressão física dos consumidores pelos traficantes, no centro histórico de Recife.

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JAQUELINE RORIZ E O LADRÃO ESTREBUCHANDO

Por Malu Fontes

Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.

O contexto em que as imagens vieram à tona, era, inicialmente, o de abordar a atitude condenável de policiais de São Paulo que protagonizaram a cena, a quem, como representantes do Estado de Direito, cabe socorrer qualquer indivíduo sob condição de sofrimento. As imagens surgiram, portanto, a serviço da tese da defesa dos direitos humanos, como forma de ressaltar que as instituições policiais não podem repetir o comportamento dos criminosos, impingindo-lhes o mesmo tratamento que estes dão às suas vítimas, os cidadãos alvos da violência brasileira cotidiana. Mas uma parte considerável da sociedade que teve acesso ao episódio aprovou os policiais, criticou a imprensa pela denúncia e achou o sofrimento imposto ao ladrão algo do tipo pouco, bom e doce.

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