EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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EXPEDIENTE:

Layout:
Jamile Ocké
Sistema:
Marcelo Guerra
Fotografia:
Sandro Andrade

Malu Fontes

JAQUELINE RORIZ E O LADRÃO ESTREBUCHANDO

Por Malu Fontes

Poucas expressões são tão mal entendidas e interpretadas quanto defesa dos direitos humanos. Quando a imprensa refere-se ao tema, o senso comum e boa parte dos próprios meios de comunicação fazem troça e a traduzem imediatamente como sinônimo de direito dos bandidos. Na última semana uma imagem que rodou o país, dos telejornais à internet e aos veículos impressos, trouxe mais uma vez à tona a posição ambivalente em que fica a imprensa quando se trata de abordar o assunto. Em cenas ocorridas já há algum tempo, mas só agora vindas a público, policiais tripudiam enquanto um assaltante agoniza. As imagens mostram um sujeito ferido, perdendo sangue e à beira da morte, caído no chão, enquanto os policiais, ao invés de socorrê-lo, optam pela atitude sádica de observá-lo, enquanto dizem coisas do tipo ‘vai, estrebucha’.

O contexto em que as imagens vieram à tona, era, inicialmente, o de abordar a atitude condenável de policiais de São Paulo que protagonizaram a cena, a quem, como representantes do Estado de Direito, cabe socorrer qualquer indivíduo sob condição de sofrimento. As imagens surgiram, portanto, a serviço da tese da defesa dos direitos humanos, como forma de ressaltar que as instituições policiais não podem repetir o comportamento dos criminosos, impingindo-lhes o mesmo tratamento que estes dão às suas vítimas, os cidadãos alvos da violência brasileira cotidiana. Mas uma parte considerável da sociedade que teve acesso ao episódio aprovou os policiais, criticou a imprensa pela denúncia e achou o sofrimento imposto ao ladrão algo do tipo pouco, bom e doce.

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BANG BANG, CINISMO E MORTES

Por Malu Fontes

Enquanto grupos políticos, em Brasília, cada vez mais se assemelham a quadrilhas brigando de foice por e para tirar cada moeda possível dos cofres públicos, ao ponto de um ministro de Estado, numa espécie de chantagem nada velada para bom entendedor, insinuar que se uns continuarem denunciando os outros vai haver derramamento de sangue entre irmãos e todos morrerão, no chão do país de verdade quem está morrendo mesmo é a população desprovida de saúde. Nos últimos dias, um exemplo nacional e outro local exibidos pela televisão estamparam o quanto o mar de corrupção e as intrigas políticas geradas em torno dele se traduz no dia a dia na ausência do estado na vida de quem precisa ou na prestação de serviços inclassificáveis de tão desumanos.

Em agosto, os telespectadores baianos foram assombrados por imagens de um exército de mais de 2.000 pessoas doentes derretendo de calor, cansaço e sofrimento físico em frente ao Hospital Ana Nery, indicado pelo poder público como o hospital de referência em cardiopatia. Embora nada justifique a presença de dois milhares de pessoas implorando por atendimento médico desde a madrugada até o meio da tarde para pegar esse perverso direito de voltar para casa com esperança de ser atendido um dia, ou seja, o direito à tal da senha para obter uma ficha, os responsáveis pela unidade vieram para a frente das câmeras explicar que havia ocorrido tão somente um erro no sistema de agendamento. Para quem via as imagens e o desespero das pessoas no local era impossível aceitar a tese de que tudo poderia ser reduzido a um erro de sistema.

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MÉTODO ABORTIVO DE NOVELA

Por Malu Fontes

Insensato Coração chegou ao fim na última sexta-feira e, como a teledramaturgia, sinônimo de telenovela no país, há décadas assume no cotidiano e no imaginário dos brasileiros um papel praticamente paradidático, insinuando o que é certo ou errado, bom ou ruim, feio ou bonito, dois aspectos da trama chamaram atenção, principalmente em sua reta final: as abordagens do preconceito contra os homossexuais e da gravidez indesejada.

Do lado de cá da tela, todo mundo sabe que casais formados por pessoas do mesmo sexo existem e que de suas rotinas faz parte tudo aquilo que faz parte de qualquer relação amorosa: afeto, demonstrações públicas e privadas de carinho, beijo na boca, sexo e todo o resto do pacote, conflitos inclusive. Do mesmo modo, todo mundo que tem mais de um neurônio sabe que muitas meninas bem ou mal nascidas, diante de uma gravidez indesejada, já recorreram, sim, ao aborto e continuarão recorrendo, seja seguro ou inseguro, mesmo com a prática sendo ilegal no país. São milhões de mulheres que recorrem à prática e quem diz isso são os serviços públicos de saúde, onde de um jeito ou de outro vão parar as estatísticas de mortes ou sequelas graves em decorrência de abortos, sobretudo os feitos de maneira tosca, com gente que vive disso e não precisa dar garantia de bom atendimento.  

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ALGEMAS E SENZALA

Por Malu Fontes

A semana televisiva foi dividida em três temas dominantes, nas esferas local, nacional e internacional: a morte de nove operários num mesmo acidente, num edifício em construção, em Salvador, mais uma rodada de dezenas de prisões por desvio de dinheiro público federal, desta vez no Ministério do Turismo, e a onda de violência que durante a semana varreu Londres e cidades do entorno, sem que o mundo fosse informado das reais motivações que nutriam a onda de destruição. Em relação ao mais novo escândalo dos últimos dias em Brasília, desta vez com uma esticadinha até a longínqua Macapá, o que dizer? Sempre, na história deste país, cenas de tal natureza brotarão nas manchetes.

No dia seguinte à prisão, emergiram protestos incompreensíveis para o resto dos brasileiros que não frequentam as hostes do poder político e econômico. Bastou o segundo homem forte do Turismo ser preso para muita gente boa do Governo ir para a frente das câmeras dizer que houve abuso de poder por parte da Justiça e para classificar caricaturalmente a ação da Polícia Federal de espetaculosa. As críticas, não aos acusados, mas aos acusadores, não pararam aí: choveram queixas quanto ao uso de algemas. Se for para ser sem algemas, então que fique combinado o seguinte: em caso de prisão, os empoderados não serão ofendidos em sua dignidade pelo uso de algemas, desde que a prática também seja condenada pelos queixosos de agora quando magotes de acusados pobres e pretos forem enfiados algemados nos camburões policiais das grandes metrópoles brasileiras para a TV vespertina e seus urubus filmarem, como acontece todos os dias. E, nesses casos, a Polícia ainda contribui para a qualidade das imagens: segura a cabeça dos acusados pelos cabelos, para o close no rosto ser registrado pelo câmera amigo. O que não pode é só considerar a algema um abuso de poder quando é usada contra apadrinhado políticos. Ora, se desta vez até Sarney saiu de seus cuidados para dizer na TV que “este não se trata de um caso de Política, mas de Polícia”… 

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PODE, LUIZA?

Por Malu Fontes

Em Salvador, o teminha midiático dos últimos dias tem sido a subida nas tamancas por parte das bandas de pagode e seus seguidores – e seguidoras – diante do projeto de lei da deputada estadual Luiza Maia (PT). A deputada apresentou à Assembléia Legislativa um projeto de lei propondo que bandas e grupos musicais, desses que brotam todos os dias fazendo o gênero novíssima poesia baiana e cujos versos mais líricos dizem que mulher é igual a lata, algo que o homem chuta e outro cata e incorporam coisas prosaicas como ralar a checa e chamam ‘mãinha’ para quebrar, fiquem impedidos de ser contratados pelo governo do Estado, ou seja, que não tenham cachês pagos com dinheiro público do Estado para repetir tais hinos celebratórios à mulher.

Aparentemente não seria preciso explicar que a deputada não quer proibir grupo de pagode nenhum de dizer coisa nenhuma. A proposta é outra, para quem lê o projeto. Ou seja, qualquer ídolo das meninas que quebram, ralam a checa, dançam na boca da garrafa, adoram ser chamadas de cachorrinhas e acham o máximo dar a patinha, pode cantar o que quiser e nem a deputada nem ninguém quer proibir nada. O que Luiza Maia defende é que o poder público, o Governo do Estado da Bahia, fique proibido de contratar artistas para gritar no palco versos misóginos, embora os meninos que a cantem provavelmente nunca tenham sabido ou nunca venham a saber que incorreram em misoginia.

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AS BESTAS, SUAS CAUSAS E A IMPRENSA NA ENCRUZILHADA

Por Malu Fontes

Quando um homem psiquicamente perturbado entrou naturalmente em uma escola pública do Rio de Janeiro e, lá dentro, disparou durante minutos intermináveis, matando 12 crianças/adolescentes e suicidando-se em seguida, viu-se, ouviu-se e leu-se, nos e sobre os meios de comunicação, toda a sorte de avaliações sobre o fato e sua cobertura. Em relação à televisão, a crítica mais frequente feita por parte do senso comum era a de que, dando tanta publicização ao caso, veiculando sem parar tantos aspectos do caso, equivalia a estimular que outros desatinados transformassem suas fantasias de morte em ato, pois, no fundo, mais do que a crueldade insana que praticam, o que os move é o desejo de se tornarem personagem midiáticos pelo fato. E ninguém há de negar a publicidade ‘espontânea’ que a cobertura do 11 de setembro representou para a Al Qaeda e seu líder, Osama Bin Laden.

ISLAMISTAS – Há uma semana, quando o norueguês Anders Behring Breivik explodiu prédios do governo no Centro de Oslo, e com toda a facilidade e tranquilidade do mundo seguiu imediatamente para uma ilha nas proximidades e fuzilou mais de 100 jovens, matando 76, um lettering da CNN na Europa anunciava repetidamente, como num cartaz luminoso na Times Square, as duas palavras malditas preferidas hoje pelo mundo dito civilizado, associando-as a um possível suspeito: terrorista islâmico. O ocidente parece ter corticalizado a equação de que, se hay terror e morte, hay um islâmico envolvido. O assassino não era o outro islâmico, mas um cidadão norueguês, um cidadão típico do país, um terrorista cristão que não está sozinho no que pensa em sua ideologia de extrema direita.

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A TURMA DE BOLSONARO CONTRA O QUIOSQUE DE SUELI

Por Malu Fontes

Acabou a festa e a alegria no quiosque de praia de Sueli, em Insensato Coração. Lá, todos os gays do Rio de Janeiro são lindos, jovens, malhados, bem sucedidos, felizes e tanto moram quanto trabalham a poucos metros da praia, com expedientes de trabalho que parecem começar só após as 10 e terminar antes das 16, pois só assim para todos eles encontrarem-se todas as manhãs e fins de tarde para tomar sol, bater uma bolinha e paquerar no quiosque, todo decorado com bandeirinhas do arco-íris gay. Tudo ia muito bem, tanto com a clientela segmentada de Sueli quanto com o merchandising social da causa anti-homofóbica adotada pelos autores da novela, capitaneados por Gilberto Braga, ele mesmo homossexual do tipo que nunca viveu em armários e que mantém há décadas um casamento sólido com o fotógrafo Edgar Moura Brasil.

Há muito tempo que todo novelão das oito que se preza tem que ter um merchandising social, uma bandeira ativista em favor de algum tipo de vítima, pois a indústria do bem está cada vez mais na moda, apesar de as criacinhas pobres da África continuarem com fome mesmo com tanta gente boníssima querendo ser igual ou santificar  Angelina Jolie e Bono Vox. No campo das causas sociais adotadas pelas novelas, a própria Globo já passeou por dependência de drogas, alcoolismo, racismo, violência contra a mulher, imigração clandestina, pedofilia, violência contra idosos e inúmeros outros temas. Em Insensato Coração, era a vez da bandeira anti-homofóbica, o que vinha mais do que em boa hora, pois o povo parece se informar mais com telenovela do que com livros e revistas, já que não os lê, e o Brasil continua com índices alarmantes de assassinatos e agressões físicas e morais contra homossexuais. E bastou a um pai do interior de São Paulo abraçar um filho de 18 anos para ter a orelha decepada por talibãs locais que viram na cena um diagnóstico de homossexualidade.

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A QUEDA DA VEZ

Por Malu Fontes

Nem bem o humor da presidente da República tivera tempo para restabelecer-se da queda de Antônio Palocci de seu ministério no primeiro semestre de governo, eis que outra comédia de erros tem lugar no Planalto, e com cores ainda mais fortes e poluídas. Com uma cabeleira literalmente mais negra que a asa da graúna, emerge na tela nossa de cada dia a figura soturna do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, um tipo de aparência semelhante à dos vilões de meia idade das novelas mexicanas no SBT. Perto do lamaçal em que Nascimento e seus comparsas de partido submergiram em menos de uma semana, as águas turvas de Palocci parecem agora equivaler a um lago de cisnes.

Se o país se assustou com a geometria do aumento patrimonial de Palocci, de 20 vezes em quatro anos, o que dizer da matemática miraculosa que se operou sobre o patrimônio de Gustavo de Morais Pereira, que aumentou 86.500% em dois anos, conforme repetiam em coro todos os jornais e telejornais da semana? Comparado ao de Gustavo, o ritmo da multiplicação do patrimônio de Palocci parece um punhado de moedas guardáveis em um cofrinho de barro em forma de porco.

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A MORTE INVENTADA

Por Malu Fontes

Nesse cenário e nessa escala jamais experimentados de multiplicação de produtores de informação, somente os ingênuos correm o risco de acreditar que, em boa parte do que se publica haja qualquer coisa parecida com comprometimento, ética, apuração e checagem, seja sobre fatos, pessoas ou coisas. Se até bem pouco tempo tinha-se um aspecto que pode ser considerado negativo, em que poucos polos produtores de informação diziam poucas coisas para muita gente, hoje a lógica invertida não gera apenas louros a serem comemorados.

Ao mesmo tempo em que é verdade que os velhos polos de emissão e recepção da informação se desmancharam e que isso não é ruim, é também fato que, hoje, todo e qualquer um diz o que quer e como quer. Qualquer um reivindica para si o status de produtor de conteúdo e informação e, se, do outro lado se tem uma recepção e um leitorado pouco crítico e advertido diante do que vê e lê, tudo, ou quase tudo, corre o risco de virar um circo de invencionices e espetáculos perecíveis, quase um lixo informativo.

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DA TRAGÉDIA AO ESCÂNDALO

Por Malu Fontes

O que era apenas uma tragédia (o que já não seria pouco) na noite da sexta-feira 17 no mar de Porto Seguro, foi se transformando, ao longo da semana, em um escândalo político com direito à multiplicação de especulações, versões e pautas nas grades dos telejornais e nas páginas jornais do país. No início da noite da fatídica sexta, um helicóptero transportando seis pessoas e pilotado pelo empresário Marcelo Mattoso de Almeida, dono de um hotel resort em Trancoso, caiu no mar, matando todos. Provavelmente a tragédia permaneceria enquadrada tão somente como tal se, entre os mortos, não estivessem um piloto com habilitação vencida há seis anos, usando o nome de outro para voar, a mulher de um dos maiores empreiteiros de obras públicas do país e a namorada de um dos filhos do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

O diabo, como se sabe, mora nos detalhes e adora brechas para urdir tramas. Imediatamente após o anúncio de que a namorada do filho do governador estava no vôo, telejornais anunciaram que Cabral viajara a Porto Seguro para acompanhar as buscas. Ah, tá. A mentira e suas pernas curtas deveriam ter respeitado a circunstância fúnebre. Só essa informação falsa da viagem posterior à tragédia já seria capaz de causar uma calça justa. Mas, descobriu-se em seguida, que ele não apenas já estava em Porto Seguro como seria um dos próximos a embarcar na aeronave nas próximas viagens que a aeronave ainda faria naquela noite entre Porto Seguro e Trancoso, onde a família do governador ficaria hospedada no resort do piloto-empresário morto.

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A (IN)JUSTIÇA NOSSA E A DOS OUTROS

Por Malu Fontes

Menos de um mês após a TV mostrar o desfecho pífio do caso Pimenta Neves, um assassino, réu confesso, julgado, condenado e mesmo assim conseguindo viver mais de 12 anos confortavelmente em seu apartamento, graças a todas as benesses possibilitadas por incontáveis recursos jurídicos solicitados e aceitos por seus advogados em todas as instâncias do Poder Judiciário, a leniência veio à tona outra vez, agora tendo como protagonista o ex-jogador Edmundo, o animal. Uma vez animal, sempre animal. Embriagado até o último neurônio em 1995, Edmundo causou um acidente de trânsito no qual três pessoas morreram e três ficaram feridas.

Acusado de homicídio culposo e condenado por isso, Edmundo foi então preso e punido pelo crime por apenas 24 horas. Desde então, Edmundo vive solto e serelepe, com o processo dando mil voltas, graças à habilidade dos seus advogados. E é bom dizer que estes fazem tão somente aquilo que a lei permite que seja feito, ou seja, estão mais do que no direito de proteger até o último instante seus clientes da punição.

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DOS TRÊS PORQUINHOS PARA AS REINAÇÕES DE NARIZINHO

Por Malu Fontes

Cinco meses após o início de um governo que, contrariando o tom da campanha eleitoral, vivia em lua de mel com a imprensa que antes lhe torcia o pescoço, e 23 dias após a Folha de S. Paulo estampar em uma manchete de domingo a multiplicação do seu patrimônio em mais de 20 vezes durante quatro anos de mandato parlamentar, o todo poderoso ministro da Casa Civil de Dilma Roussef pediu para sair. Pediu, como se sabe, é modo de dizer, eufemismo do mundo da política, pois de coração partido ou não, o fato é que foi a presidente Dilma que o demitiu. De nada adiantou o apadrinhamento do ex-presidente Lula, que daria até mais um dedo para a permanência de Palocci. Assim que as primeiras pesquisas de popularidade apontaram que o gato subira no telhado, ou seja, que o enriquecimento fenomenal de Palocci em dois tempos começara a arranhar sua imagem perante a população, Dilma sabia que era ele ou ela.

Em um país em que se perde o respeito pelas pessoas do poder e pelas instituições todos os dias, mas não se perde nunca a piada, houve quem tenha achado uma sacanagem imperdoável o fato de que, na mesma noite em que todos os telejornais deveriam se deter em anunciar a despedida de Ronaldo Fenômeno dos gramados, Palocci tenha roubado parte da cena anunciando, também, a própria despedida. O mundo da política é mesmo indecifrável para o telespectador comum. Se era para ser demitido na terça-feira, fingindo demitir-se, por que e para que, então, tanto salamaleque e postergação para dar a primeira entrevista para a televisão na sexta-feira anterior, quando supostamente explicaria seu enriquecimento? Esperou a crise explodir, a presidente ficar com pecha de que Lula será uma sombra eterna em seu mandato, falou e não disse nada para no fim sair do mesmo jeito.

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A AMNÉSIA DE SARNEY E OS ARRANCADORES DE UNHAS

Por Malu Fontes

Todas as pessoas envolvidas em estudos e pesquisas sobre as relações entre a sociedade e os meios de comunicação de massa conhecem a máxima segundo a qual um fato, para de fato acontecer, precisa ser veiculado na mídia, esse termo genérico em que cabe tudo: jornal, televisão, revista, site, blog, etc. Não há constrangimento nem pruridos para admitir que, na prática, essa máxima é mais verdadeira do que se desejaria admitir. Se algo não foi noticiado nos jornais nem veiculado na televisão, é como se nunca tivesse acontecido, exceto para os indivíduos diretamente envolvidos no fato.

EX-TUDO – No Brasil, talvez venha daí, dessa atribuição às mídias o papel de guardiã da memória, e não sem uma colaboração imensa dos níveis de escolaridade e letramento baixíssimos da população, a consequência mais danosa: a memória da sociedade brasileira parece ter a duração e a permanência de uma chamada na TV, de uma notícia no jornal. Como os escândalos, as tragédias e naturalmente todos os fatos se sucedem por novos e outros a cada instante e dia, nada parece sobreviver no imaginário social quando deixa de ser do interesse para as manchetes dos veículos de comunicação. E nesse aspecto é bom reiterar a natureza dos meios de informação: não lhes cabe repetir a cada dia o mesmo e já noticiado fato, pois o conceito de notícia equivale justamente a dar publicização ao que ainda não foi dito, visto, narrado, etc. Ou seja, se a memória da sociedade exige a tutela permanente da mídia para que só assim um fato político, trágico, social, econômico se mantenha vivo, há algo de muitíssimo esquisito ocorrendo com a percepção social e não apenas com os meios de comunicação.

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PALOCCI, A CHANTAGEM ANTI-GAY E O DIABO

Por Malu Fontes

Embora a semana tenha começado com todos os indicadores telejornalísticos apontando para Pimenta Neves como o personagem da semana, no máximo dividindo a cena, entre os mais politizados e os defensores da causa ambiental, com a aprovação do novo Código Florestal na Câmara Federal, na primeira derrota política de Dilma Roussef, eis que as estripulias financeiras do ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, deram uma rasteira na pauta noticiosa para além dos significados da multiplicação miraculosa do patrimônio e foi parar na causa dos gays, lésbicas e simpatizantes, assumindo o protagonismo no disse-me-disse da opinião pública durante a semana. Gente de boa índole e folha corrida exótica, para dizer o mínimo, como Antony Garotinho e Jair Bolsonaro, por exemplo, foram dormir na última quarta-feira serelepes de felicidade moral e jurando amor eterno e elogios sem fim à presidente Dilma.

Em termos diretos, houve uma chantagem à qual a presidente Dilma cedeu já na primeira rodada. A bancada evangélica da Câmara dos Deputados e os conservadores que têm arrepios só em ouvir falar em homossexualidade viram na fragilidade de Palocci uma oportunidade de enxadrista para dar um xeque-mate na presidente: ou ela recuaria na distribuição do kit anti-homofobia nas escolas brasileiras, aprovado e recomendado pela Unesco, ou a tropa de choque evangélica iria para cima de Palocci, ameaçando-a com CPI, fritura, desmoralização e tudo o mais que fosse estratégia política de ataque necessária para derrubá-lo, empurrado que já está (por si mesmo).

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O CASEIRO, O MINISTRO E SEUS DINHEIROS

Por Malu Fontes

Dois pesos e duas medidas. Assim é, e ainda será por muito tempo, a assimetria das consequências públicas a serem enfrentadas, de um lado, por aqueles cujo estatuto na vida os situa em condições privilegiadas e, de outro, por aqueles que habitam os andares de baixo da pirâmide social. O caso do enriquecimento brusco e vertiginoso do ministro da Casa Civil de Dilma Roussef, Antônio Palocci, é um caso típico de que, perante a hipocrisia social e política, os poderosos não apenas são poupados de explicar suas trajetórias suspeitas como ainda podem arriscar uns passos numa coreografia retórica permeada de arrogância do tipo ‘enriqueci em quatro anos porque fui ministro da Fazenda e ex-ministro vale muito no mercado’. E quem há de duvidar? Já caseiros e ex-caseiros não valem nada e a história do piauiense Francenildo Costa, todinha encontrável em qualquer busca no Google, está inscrita na crônica dos escândalos políticos brasileiros para sustentar essa tese.

GAROTAS – Durante os quatro últimos anos, quando exercia o mandato de deputado federal pelo PT de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda do Governo Lula, saído praticamente pelos fundos da pasta em 2006, após o então caseiro de uma mansão de Brasília (Francenildo) afirmar que por mais de dez vezes o vira freqüentar a casa junto com lobistas, políticos, empresários e garotas de programa, em torno de malas de dinheiro, negociações político-econômicas e uísque a go go, ganhou uma dinheirama e tanto. O assunto chegou, primeiro, na manchete da Folha de S. Paulo de domingo passado e, ao longo da semana, espalhou-se por todos os telejornais. As evidências dão conta da multiplicação do patrimônio do ministro Palocci, em apenas quatro anos, em 20 vezes, em relação ao que declarara ao candidatar-se a deputado. Praticamente em cash, já que efetuou o pagamento em apenas duas vezes, Palocci adquiriu durante o mandato um apartamento de R$ 6,6 milhões e um escritório por cerca de R$ 850 mil.

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BARBA, BIGODE E ABISMOS

Por Malu Fontes

Na esfera local, o fato de o governador Jaques Wagner ter vendido a uma marca de lâminas de barbear os pelos da barba e do bigode que cultivava há 30 anos obteve muito mais destaque no noticiário não apenas televisivo, mas de todas as outras mídias, do que a greve e o impasse em torno dela envolvendo os professores das universidades estaduais e o mesmo governo do barbeado em questão. E é preciso admitir que se vive em um tempo em que é assim que as coisas se movem. Ou seja, quem quer saber de milhares de alunos sem aula, de professores parados e de suas pautas de reivindicação, e, menos ainda, de que o mesmo petismo que sempre amou uma assembléia e paralisação de qualquer ‘catiguria’ agora corta o salário dos professores em greve se o governante é tão bem intencionado que sacrifica os cabelos da cara por R$ 500 mil em nome da nobreza da causa da educação? Sim, para quem não sabe, o cachê pago pelas barbas do governador irá, centavo a centavo, para o campo da educação na Bahia.

COISAS FEIAS – Na mesma semana desse feito publicitário e de marketing pessoal e político sem precedentes na história desse estado, o telespectador acordou na segunda-feira ainda sob o efeito (e por que será que repórteres de rádio e TV, aqui e alhures nunca sabem que sob não pode nunca ser sobre?) do estômago embrulhado com as imagens de mais uma das matérias denúncias do Fantástico, desta vez sobre coisas inacreditáveis que ocorrem quando o assunto é merenda escolar Brasil afora.

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A DANÇA DA MORTE

Por Malu Fontes

Na semana em que as festas globalizadas em torno da Beatificação do Papa João Paulo II e do casamento real britânico ainda estavam com suas imagens frescas na retina dos telespectadores, eis que uma bomba sacode o mundo, extrapolando o impacto do ocidente rumo ao oriente e aos seus pedaços mais temidos pelas potências do mundo. O governo Barack Obama, finalmente, por volta da meia noite de domingo, deu cabo a uma caçada do seu país que já durava quase 10 anos: matou Osama Bin Laden, desarmado, segundo se anunciou, enfiando-lhe um tiro à queima-roupana cabeça,, e em um lugar improvável em se tratando do terrorista mais procurado do mundo. O satã contemporâneo do ocidente estava onde menos se esperava. No sacrossanto espaço do lar, ao lado de filho e mulher e a pouquíssimos metros de uma base militar no Paquistão, a quem os Estados Unidos vêm dando generosos nacos de dólares para combater o terrorismo.

Para quem se acostumou, na ultima década, a ouvir relatos associando Osama Bin Laden a montanhas longínquas e inabitáveis do Paquistão e a cavernas do Afeganistão, o desfecho da caçada foi meio anticlímax. Para além da execução em si do homem apontado como o arquiteto dos atentados de 11 de setembro (2011), um marco histórico que redefiniu os modos de se estar no mundo, o aspecto da cobertura telejornalística que mais chamou atenção, pelo inusitado do fato, foram as imagens da população dos Estados Unidos, de norte a sul do país, e sobretudo em Nova York e em Washington, dançando nas ruas, cantando, comemorando vestida e pintada com as cores da bandeira, a morte de Bin Laden. Há de se convir que não é coisa muito normal assistir na TV, e não sob a forma de ficção, mas de realidade, uma festa cívica no país mais poderoso do mundo para celebrar o assassinato de um único homem. Parecia a comemoração de uma vitória bélica sobre uma outra nação e não sobre um único indivíduo.

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O SENADOR E O BÚLINGUE

Por Malu Fontes

Demorou, mas finalmente apareceu um senador com óleo de peroba o suficiente para dizer diante das câmeras de TV que os nobres parlamentares não suportam mais os sofrimentos que lhes são impingidos pela imprensa brasileira. Textualmente, e com pronúncia adaptada ao accent da boa Língua Portuguesa, não se sabe se por inabilidade verbal ou para agradar os puristas da Língua que vivem esperneando com o uso de termos em inglês na linguagem cotidiana e lhes surrupiar uns votinhos, o senador Roberto Requião, do Paraná, queixou-se na TV de que não aguenta mais o ‘búlingue’ (sic) que ele e seus colegas de vida política sofrem por parte da imprensa.

No início da semana, o senador, ao ser questionado por um repórter sobre as razões pelas quais, em nome da necessidade de redução dos gastos públicos no país, não abre mão da pensão vitalícia de R$ 24 mil que recebe por ter sido governador do Paraná, teve um ataque de fúria: perguntou ao jornalista se este estava pensando em apanhar, arrancou o gravador de suas mãos e levou para seu gabinete. Só o devolveu após apagar a gravação do chip. Numa estratégia meio enviesada de se fazer um novo jornalismo à moda do Senado, Requião postou todo o conteúdo da entrevista em seu site, fato que usou como argumento a seu favor. Disse que só tomou o gravador e apagou o conteúdo antes de devolver porque não confia nas versões da imprensa sobre suas falas e não queria que suas declarações fossem editadas e adulteradas. Contumaz em indelicadezas, Requião argumentou no dia seguinte que agiu assim porque perdeu a paciência com o bullying que sofre de uma imprensa que faz perguntas encomendadas: “Temos que acabar com o abuso, o búllingue (sic) que sofremos, não só eu, mas meus colegas e a sociedade brasileira, nas mãos de uma imprensa provocadora e irresponsável”. Isso não foi dito por um ator em um programa de humor, mas por um senador da República, com veiculação na edição de terça-feira do Jornal Nacional.

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A PRINCESA, OS TABLÓIDES E OS CAVALOS

Por Malu Fontes

Em tempos de velhas e novas guerras, catástrofes naturais no mundo e avalanches diárias de violência na TV doméstica, nada mais recomendável para o olhar saturado do telespectador do que voltar aos arquétipos imemoriais dos contos de fadas e consumir doses diárias de emoção alheia, de um tipo ao mesmo tempo novelesco e real: um casamento de princesa que, no mundo inteiro, anuncia-se em contagem regressiva. Quando, no próximo sábado, o príncipe inglês William e a plebeia Catherine Elizabeth Middleton trocarem alianças e pactos de amor eterno na Abadia de Westminster, em Londres, no mesmo lugar onde há 30 anos casaram-se Diana e Charles (pais do noivo), nada menos que 2,5 bilhões de telespectadores em todo o mundo estarão de olhos vidrados na tela. E, estranhamente, cada telespectador saberá mais detalhes da vida privada do casal do que sabe sobre sua própria família.

Sedenta de novos personagens para encher os olhos da audiência, a TV do mundo rendeu-se aos encantos de Kate Middleton desde que o noivado com o príncipe inglês foi anunciado oficialmente ao mundo e ela foi entronizada como o mais novo ícone fashion, embalada em um wrap dress azul (vestido envelope) e ostentando um anel de diamantes e safira do acervo da falecida sogra. Desde então, e num crescendo à proporção que o casamento aproximava-se, o casal principesco foi ocupando com a força de um tsunami todos os espaços midiáticos, dos jornais impressos regionais do interior do Brasil aos sites de moda mais antenados de Tóquio, passando por generosos espaços no francês Le Figaro, que na última quarta-feira inseria um caderno especial dedicado ao casal real. Blasè como exige o comportamento francês, o jornal falava da moça a pretexto de abordar curiosidades dos ingleses, e não dos franceses, claro, sobre a moça. Ah, tá.

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UNS POUCOS OPORTUNOS E MUITOS OPORTUNISTAS

Por Malu Fontes

A culpa é do Congresso Nacional. É dos filmes violentos. É dos jogos de vídeo game que fazem crianças e adolescentes divertirem-se com a morte. É do computador. É da Internet. É da impunidade no Brasil. É da indústria bélica. É da omissão dos poderes públicos. É da corrupção. É da falta de segurança nas escolas. É da falta de valores. É da família que não dá limites. É do bullying. É da religião. É da falta de religião, é do ateísmo, do fundamentalismo, da fé, da falta de fé, da novela das nove, da sociedade de consumo e da Rede Globo. Todas essas explicações oportunistas foram durante esta semana, lidas, ouvidas em algum programa de televisão, algum veículo de imprensa, uma conversa social ou postadas em timelines de redes sociais e tinham o mesmo objeto: o massacre de Realengo, no Rio de Janeiro.

Auto-convencidas de sua certeza diagnóstica, as pessoas usaram as redes sociais durante a semana como um megafone do senso comum, onde atribuíam a (ir)responsabilidade desse tipo de evento até mesmo à imprensa, pois, se esta fosse censurada, argumentavam, os violentos não cometeriam crimes, pela certeza prévia de que seus atos não teriam repercussão. E eis o diagnóstico mais enviesado de todos, entre os ouvidos: “a Rede Globo realizou o sonho de Wellington, pois ele conseguiu o que queria: ficar famoso”. Ah, tá. A Globo deve ter inventado o rapaz e ensaiado seu desatino no Projac. E o resto da imprensa, inclusive a internacional, foi atrás?

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BOLSONARO E A COVA RASA

Por Malu Fontes

O deputado federal Jair Bolsonaro é um personagem recorrente da direita galhofeira nacional. Desde que ingressou na vida parlamentar, Bolsonaro nunca atravessou um mandato, ou um ano sequer, sem aparecer nos jornais e telejornais defendendo algo de muito grosso calibre ou de muito baixo calão. A defesa da pena de morte e da tortura como método são alguns dos temas mais delicados do repertório parlamentar e corriqueiro de Bolsonaro.

A sorte de quem até hoje sabia que ele não passava de um surtado com mandato era o alívio de saber, também, que quase ninguém Brasil afora sabia da existência do deputado. O diabo é que, desta vez, por ter pegado carona na fama de Preta Gil e do CQC de Marcelo Tas, Bolsonaro ficou famoso nacionalmente. E fazendo exatamente o que lhe faz experimentar orgasmos múltiplos: ofendendo e discriminando. Desta vez os alvos foram os negros e os homossexuais.

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A TESE DA VIZINHANÇA

Por Malu Fontes

Pouco acostumado a grandes operações policiais, como as empreendidas há mais de uma semana, em Salvador, na região do Nordeste de Amaralina e depois no Calabar e Alto das Pombas, o telejornalismo local deu sinais de que poderia, ou poderá, incorrer em erros capazes de gerar consequências e riscos para os moradores. Se em um primeiro momento as operações coordenadas pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia podem dar aos moradores desses bairros e à opinião pública uma idéia de alívio a ser celebrado contra o até então domínio do poder do tráfico, a exemplo do que vem ocorrendo no Rio de Janeiro com a implantação, em vários morros, das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), em Salvador a banda ainda está tocando muito diferente de lá e não é exagero afirmar que nada há de concreto a se comemorar.

CATIVEIRO – Embora, desde o início, a operação policial realizada no complexo de bairros localizados na região do Nordeste de Amaralina (compreendendo as áreas de Santa Cruz, Chapada do Rio Vermelho, Vale das Pedrinhas e o próprio Nordeste) tenha sido anunciada como pontual, com duração de apenas um fim de semana, o fato é que, diante dos moradores, as emissoras de televisão comportaram-se no primeiro dia como se todas as forças de apoio institucional do Estado tivessem desembarcado de mala e cuia nesses bairros. Na primeira manhã de uma operação com data para acabar, as câmeras, microfones e repórteres esquadrinhavam moradores como se todos já pudessem ser abertamente tratados como membros de um cativeiro libertados para sempre pelas forças de bem e de paz do Estado.

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