EMÍLIO GUSMÃO

Gosto da boa polêmica, ingrediente indispensável ao debate proveitoso. Depois que li Crime e Castigo (Dostoiévski) e A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói), muita coisa mudou em minha cabeça. Tenho 36 anos, sou comunicólogo e microempresário do audiovisual. Preferências contraditórias: Che e de Gaulle, Bin Laden e Ghandi. Considero Manuel Bandeira, o melhor de todos os tempos da minha humilde biblioteca.

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EXPEDIENTE:

Layout:
Jamile Ocké
Sistema:
Marcelo Guerra
Fotografia:
Sandro Andrade

Malu Fontes

TELEANÁLISE: O OVO DA SERPENTE

Por Malu Fontes.

O atentado terrorista mais devastador da história caminha para completar sua primeira década. Após o 11 de setembro de 2001, quando as emissoras de televisão de todo o mundo repetiram ininterruptamente as imagens surreais das torres gêmeas explodindo em chamas, fumaça e poeira no ar em Nova Iorque por aviões cheios de gente e combustível, arremessados por terroristas contra um dos símbolos mais caros do capitalismo, a geopolítica mundial nunca mais parou de experimentar estertores. A conseqüência política mais visível foi a invasão do Iraque. As conseqüências subliminares até hoje são esquadrinhadas e já são em quantidade suficiente para preencher desde as paranóias mais esdrúxulas ao medo mais concreto de todo o mundo, sobretudo entre os países mais poderosos do ocidente.

Depois do 11 de setembro, outros ataques de menores proporções, mas igualmente cruéis e violentos elegeram o metrô de Londres, o sistema ferroviário de Madri e hotéis no Egito e no Marrocos. Nesta semana as imagens mais importantes, em escala global, na TV mundial mostravam pessoas mortas, sangrando ou sendo socorridas em duas estações de metrô em Moscou, o segundo do mundo em movimentação diária de pessoas, ficando atrás apenas do metrô de Tóquio, no Japão.

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TELEANÁLISE: PRESENTEAR É CRIME?

Por Malu Fontes.

A semana televisiva começou sob o impacto do assassinato do cartunista Glauco juntamente com seu filho e todos os desdobramentos surreais que o sucederam. Das circunstâncias absurdas da motivação, ao modo como se deu e ao desfecho, com um rapaz de classe média atormentado pela mistura explosiva de drogas com disfunções psíquicas sabe-se lá de que ordem. Na segunda-feira, todas as emissoras de televisão exibiam o rosto alucinado e sorridente de um homem atrás das grades após atirar contra policiais federais ao tentar fugir em um carro roubado para o Paraguai.

Desde a divulgação do crime o que se viu na TV foram advogados e familiares argumentando em favor da inimputabilidade do assassino, sob a tese de desordem mental severa, e jornalistas costurando toda a sorte de argumentos associando ou desvinculando o crime duplo e as propriedades alucinógenas do chá usado nos rituais do Santo Daime. As relações entre o cartunista e seu assassino tiveram início pela freqüência de Carlos Eduardo Sundfeld ao Céu de Maria, templo criado por Glauco para rituais do Santo Daime. A família do moço, para além do seu envolvimento com drogas, já tratou de deixar bem claro quais serão seus argumentos: trata-se de um menino ótimo, mas (agora) com um ‘diagnóstico’ de esquizofrenia, herdado geneticamente da mãe, que somente teria se tornado sintomático e violento apenas após freqüentar o tempo e ingerir o chá.

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REALITY NA DELEGACIA: REPÓRTER E POLICIAL NA MESMA FUNÇÃO

Teleanálise por Malu Fontes.

A multiplicação recente dos programas de TV locais voltados para a abordagem da violência, do mundo cão e dos dramas da vida privada dos miseráveis gerou uma atividade nova nas delegacias de Polícia e incorporou uma tarefa nova à rotina dos policiais. Para quem não sabe, alguns delegados e policiais, interessados em colaborar como produtores de conteúdo desses programas, e claro, sempre muito mais interessados em ficar bem na fita com os apresentadores e em evidência sob os holofotes, sobretudo no caso de delegados em busca de um mandato de deputado estadual nas eleições de outubro, incorporaram a câmera filmadora a suas rotinas de trabalho.

CAMERAMAN – Para integrantes da Polícia deslumbrados com a possibilidade de produzir imagens “exclusivas” para o programa A ou B, ter uma câmara de vídeo na delegacia ou carregar uma na viatura passou a ser tão comum quanto o uso da farda e da arma. Alguns delegados de subúrbio mais vanguardistas já se tornaram experts em captação de imagens e contam, em suas equipes, com o talento de dedicados servidores para registrar os casos mais grotescos e depois encaminhá-los à TV. Sempre que há uma diligência ou prisão, o agente treinado nas funções de cameraman é convocado para registrar o flagrante. O resultado, seja qual for, vai parar em um dos programas do meio dia da programação local.

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TELEANÁLISE: DETERMINISMO SOCIAL

Por Malu Fontes.

Durante a semana, uma série de fatos distintos entre si e transformados em notícias nos telejornais apontava, em seu conjunto, para um mesmo fenômeno assustador: o determinismo social que parece soar inexorável e inclemente sobre uma população de crianças e jovens cujo diagnóstico de futuro aparenta ser mais claro que as previsões dos cartomantes xexelentos que se auto-anunciam nos postes e muros da cidade. Um grupo de mais de 70 homens jovens foi preso em uma única batida policial durante a festa de aniversário de um traficante que comemorava 25 anos, numa casa de eventos, em Feira de Santana. Pertinho dali, em Santo Estêvão, autoridades do Judiciário anunciavam a criação de penalidades em dinheiro contra os pais cujos filhos não freqüentem assiduamente a escola. Um dono de Lan House na cidade lamentava o prejuízo que isso gerará em seu comércio.

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TELEANÁLISE: EM CADA DIFERENCIADO VIVE UM BORIS

Por Malu Fontes.

A crônica da vida pública brasileira ensina todos os dias aos cidadãos que se um fato não foi veiculado na TV, na verdade é como se não tivesse acontecido, exceto para as poucas pessoas a quem o mesmo se refere diretamente. Exemplos de episódios recentes no País provam o quanto aquilo que é e aquilo que deixa de ser capturado por uma câmera de TV adquire e perde, respectivamente, toda a dimensão. No final do ano, a sociedade brasileira lambeu os lábios de contentamento com a oportunidade que teve de julgar e condenar moralmente e no grau máximo o jornalista e apresentador Boris Casoy, por seus comentários elitistas, emitidos nacionalmente por descuido, após a apresentação de uma matéria em que garis, entrevistados durante sua jornada de trabalho, desejavam feliz ano novo aos telespectadores.

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TELEANÁLISE: VITÓRIA E FRACASSO EM DUAS CENAS

Por Malu Fontes.

Em 2007, o Fantástico, o show da vida, como foi batizado ao nascer, contou uma história de sucesso dessas que emocionam o telespectador que se recusa a capitular diante das tragédias do mundo e sempre acredita que, sim, o mundo tem jeito, e que a vida sempre traz uma surpresa boa, mesmo que seja uma vez na vida e outra na morte ou que seja sob a forma de milagre. Através do Fantástico, o Brasil ficou sabendo que Alcides do Nascimento Lins, pobre, negro, sem pai, filho de uma catadora de lixo da periferia de Recife, fora aprovado, em primeiro lugar entre os alunos egressos de escola pública, no vestibular de Biomedicina, na Universidade Federal de Pernambuco.

No último domingo, no mesmo programa, o otimismo ou a esperança do mesmo telespectador que certamente ainda lembrava da felicidade gritada da mãe do estudante com o ingresso do filho em uma universidade conceituada, foram abatidos com a sentença apresentada à família do rapaz pela realidade brasileira, desta vez sob a forma de uma tragédia. Um dia antes, no sábado, Alcides, cuja formatura seria no final deste ano, fora assassinado por marginais na periferia de Recife, dentro de casa, com dois tiros, por não ter a informação sobre o paradeiro de dois vizinhos seus, os reais alvos da perseguição dos assassinos.

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TELEANÁLISE: O HAITI TAMBÉM É AQUI

Por Malu Fontes.

“Os haitianos que rezem para que as câmeras do mundo demorem muito por lá, pois depois que elas partirem, os humanitários de última hora não vão achar a menor graça em ajudá-los. Se ninguém vai ver, que graça tem?”

Há dias as emissoras de TV de todo o mundo, especialmente as brasileiras, em função da presença das tropas do Exército Brasileiro no Haiti, veiculam diariamente imagens e notícias do terremoto, uma das maiores tragédias naturais ocorridas nos últimos tempos. À medida que o tempo passa, as informações sobre o terremoto em si vão se tornando corriqueiras, gerando a necessidade de incorporar diariamente à cobertura midiática novas formas de abordagem e ilustração do caos no país, tido e havido como o mais pobre das Américas.

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TELEANÁLISE: AS VASSOURAS DA MORALIDADE E A VACA

Por Malu Fontes.

Quaisquer programas na linha reality show, como A Casa dos Artistas, A Fazenda e o clássico do gênero, o Big Brother Brasil, não se caracterizam exatamente por ter em seus elencos e repertórios pessoas que se destacam por suas performances intelectuais e temas elevados e enriquecedores para os telespectadores. O formato é um fenômeno cuja idéia central é ancorada na certeza de que um contingente populacional imenso do país vai passar meses assistindo a um bando de anônimos dizendo coisa com coisa e fazendo absolutamente nada produtivo.

Há quem diga, inclusive, que os telespectadores se identificam tanto com o formato do programa porque nele podem ver um bando de ninguéns, os BBBs, iguais a eles próprios (telespectadores), fazendo exatamente o que ambos mais sabem e querem fazer na vida: nada! Passam o dia fazendo e falando besteiras e bobagens e esmo. Portanto, a questão é: do lado de cá da tela, a rapaziada, como dizem os sambistas, com o mesmo perfil e pertencente aos mesmos grupos sociais da amostragem daqueles que vão para os BBBs da vida, é diferente em quê, em termos de conteúdo e comportamento, desses que são os novos ídolos nacionais da última semana?

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TELEANÁLISE: O ZOOLÓGICO HUMANO E OS JEGUES

Por Malu Fontes.

Os movimentos sociais organizados, os grupos de estudos acadêmicos e a militância política de determinados segmentos e ONGs sentem os estertores da morte de raiva. Passam anos estudando, publicando, fazendo assembléias, tudo para agendar nos meios de comunicação as chamadas temáticas das minorias, dos vulneráveis. Aí, vem a televisão, justamente com os formatos tidos como os mais rasos, fúteis e dita o assunto sobre o qual o país inteiro vai falar nos próximos meses. É assim com as novelas, quando usam temas espinhosos ou polêmicos como pretexto para alimentar suas tramas, a exemplo de racismo, homossexualidade, drogas na classe média e violência doméstica. E é assim também no Big Brother (no ar, em sua décima edição, desde a última terça-feira), quando escolhe seus personagens da temporada.

Há quem torça o nariz para o modo como a televisão aborda ou enquadra determinados temas, grupo sociais ou causas, uma vez que quase sempre ela o faz sobrecarregando nas tintas da caricaturização. Mas também, se há um debate inócuo, é esse de ficar esperneando enquanto cobra-se da indústria cultural do entretenimento que ela, de fato, imprima um tom de seriedade e consistência aos temas que elege em busca de audiência. Televisão é feita para o senso mais que comum e este se dá muito mais que satisfeito com seus respectivos modos de representação.

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TELEANÁLISE: SEUS PROBLEMAS COM A VIOLÊNCIA ACABARAM

Por Malu Fontes.

Algum gênio, expert ou autoridade em sociologia, antropologia, semiótica, ou, melhor ainda, em comunicação, é capaz de explicar o objetivo, a função, o sentido, a eficácia e o efeito público da campanha institucional, produzida e veiculada pela Prefeitura de Salvador, para anunciar o site <www.salvadordapaz.com.br>, em defesa da paz? Muita coisa abaixo de qualquer classificação de ridícula se tem feito e refeito em nome da promoção da paz. E talvez seja justamente por isso, ou seja, por assustar-se com tamanho mau gosto e tamanha breguice e ineficácia das campanhas e manifestações em seu nome, que a coitada da paz cada vez mais dá as costas a esse país e, mais recentemente, especialmente a Salvador.

Quem quiser saber como a banda toca na relação paz versus violência na cidade, preferencialmente antes de entrar no site anunciado em horário nobre, com o dinheiro dos contribuintes encurralados pela violência, que pergunte a alguma voz privilegiada que vê literalmente o número abissal de cadáveres objetos de violência que chegam todos os dias ao Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. Se não quiser chocar-se um tanto mais, que pergunte tão somente sobre o número de corpos vitimados pela violência e que lá chegam como não identificados. Mas transparência no que se refere a estes ou outros números da violência não é o forte dos órgãos oficiais que usam o gasto nome da democracia em vão.

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TELEANÁLISE: CUIDADO COM O BALANÇO DO DIA

Por Malu Fontes.

Sobre a fragilidade da existência humana, o arquiteto Oscar Niemeyer, aos 102 anos, disse, de forma singular: a vida é um sopro. De modo tão poético quanto o do papa da arquitetura brasileira, mas de forma ainda mais desconcertante, como se espera daqueles que experimentam hoje um outro tipo de desencantamento do mundo, a banda baiana Cascadura adverte em uma de suas canções: ‘muito cuidado com o balanço do dia/qualquer coisinha, já não estamos aqui’. Essas duas perspectivas sobre o quanto a vida é efêmera, transitória e fugaz, não apenas pela sua própria natureza, mas por conta das contingências do mundo contemporâneo e dos surtos ininterruptos de violência, como ocorre no Brasil, são ilustradas, diariamente, em todas as emissoras de TV, em quaisquer telejornais.

A paisagem urbana e também televisiva, sobretudo nessa época do ano, é predominantemente publicitária e festiva. Uma profusão de gente (in)feliz e de mercadorias sedutoras buscando-se ávidas entre si, por conta do espírito de natal, do décimo-terceiro, do clima de Ano Novo, da chegada do verão, da proximidade do Carnaval. Todos fazem de conta que a normalidade dá o tom das rotinas de cada dia, mas qualquer cidadão brasileiro de bom senso sabe, mesmo sem querer saber, que qualquer nesguinha de alegria depende mesmo e tão somente é da sorte de o balanço do dia permitir.

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TELEANÁLISE: VINDE A MIM OS DESVENTURADOS

Por Malu Fontes.

A televisão adora uma tragédia e mais ainda transformá-la em melodrama. Nesta época do ano, juntando-se os fatos estarrecedores que nunca param de acontecer aqui e no mundo ao espírito de porco daqueles que mal podem esperar o Natal para levar a alma a uma lavanderia de consciências sujinhas, tem-se a receita ideal para os corvos existentes tanto do lado de cá da tela da TV quanto dentro dela. Pródiga em tragédias, a realidade brasileira deu neste Natal um combustível e tanto para os corvos televisivos: o drama do menino cujo padrasto, o tipo mais lombrosiano visto na TV nos últimos tempos, enfiou-lhe dezenas de agulhas. Apelidado dramaticamente por segmentos da imprensa baiana de ‘o soldado Márcio’, pode-se dizer que o menino e seu drama não foram objeto de cobertura por parte do telejornalismo, mas de uma transmissão quase ininterrupta.

Transmite-se tudo. Repórteres gravam na brinquedoteca do hospital com informações imprescindíveis: ali é o lugar onde a mãe do menino vai várias vezes por dia pegar um carrinho. Narra-se que dezenas de pessoas já fizeram romaria ao hospital para deixar presentes. Mostra-se um berço hospitalar vazio e ao lado uma poltrona e explica-se para o telespectador demente que o garotinho, todo o tempo assim, no diminutivo, está numa UTI pediátrica num berço exatamente igual àquele mostrado pela repórter. E que a mãe fica o tempo inteiro numa poltrona amarela também igual àquela.

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TELEANÁLISE: NA BAHIA DA TV, AS TROMBETAS DO PARAÍSO

Por Malu Fontes.

Quem é minimamente crítico condena os anúncios publicitários ancorados na família feliz de margarina, nos quais tudo é lindo, colorido, iluminado, nunca chove e não só a família é branca e loura como os cachorros quase sempre são labradores amarelos de olhos azuis e não apenas sorriem, mas também argumentam, embora com o rabo. Ou seja, é praticamente consenso entre as pessoas normais que as famílias de propaganda de margarina só existem no intervalo comercial da TV. Coitadas das famílias de margarina. Além de condenadas à não existência, são caricaturizadas por gato e cachorro só porque seus integrantes são lindos, ricos, e nórdicos, têm cachorros que gargalham e moram na Casa Cor.

É consenso que, tratando-se de televisão, tudo parece e aparece exagerado. Há quem ache que tudo o que é veiculado na TV é mentira, até mesmo as verdades, de tão exageradas que aparecem no mundo das imagens. Outro dia, numa edição do Profissão Repórter, uma velhinha do sertão nordestino, disse que não queria dar entrevista nenhuma a Caco Barcelos, pois, segundo ela, na televisão tudo é mentira. Argumentou: mora naquele torrão há décadas e nunca viu ali um carro pegando fogo com todo mundo saindo vivo de dentro, muito menos um carro que passasse com as rodas fora do chão. Já na TV, o carro explode e não mata ninguém e alguns ainda avoam (sic).

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TELEANÁLISE: OS FILHOS DO AXÉ

Por Malu Fontes.

malu fontesNasceu o filho da brasileira mais famosa em todo o mundo e em todos os tempos, afinal, nunca na história deste país houve mulher tão globalizada. Na última quarta-feira, notinhas curtas em sites anunciavam de forma lacônica que Gisele Bündchen havia parido um bebê do sexo masculino. E ponto. E pronto. Nada sobre detalhes, nenhuma imagem, nenhum texto meloso de parentes, nenhuma carta aberta de puxa saco, nenhuma imagem de visita famosa acenando da janela do hospital, em Boston (EUA). E olha que no departamento paparazzi os americanos estão anos luz à frente dos brasileiros. O diagnóstico é óbvio: perto da trajetória midiática dos filhos do axé (leia-se o filho de Cláudia Leite, o filho de Ivete Sangalo e a neta de Daniela Mercury), o nascimento do filho de Gisele, que antes de nascer nem o sexo ninguém sabia (nem mesmo a mãe), que no dia em que nasceu nem nome tinha, passou em brancas nuvens.

Certamente não se pode dizer que nesse filete de discrição da mãe de primeira viagem mais cobiçada do mundo por tablóides, sites e paparazzi não haja um dedinho da própria Gisele. Fale-se tudo da modelo gaúcha, mas ninguém nunca a viu escornada numa banheira na capa da revista Caras ou enfiada num ofurô de leite de cabra numa ilha tropical ou num castelo alugado numa roça européia. Já na província, mesmo que os paparazzi inexistam para fotografar as celebrities tomando sorvete na Ribeira, o babado midiático em torno de suas crias é fortíssimo. Como exemplo textual, visual e pontual do quanto as referências aos filhos do axé são onipresentes na mídia, basta adotar como amostra o último domingo televisivo.

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TELEANÁLISE: O DINHEIRO GRITA

Por Malu Fontes.

malu fontesImagens não falam por si. Estas foram as primeiras palavras do presidente Lula diante das cenas de raposas no galinheiro exibidas reiteradamente em todas as emissoras de televisão do país mostrando bastidores de um poleiro no Palácio do Buriti, a sede do governo do Distrito Federal (Brasília). Se imagens não falam por si, nos domínios infindáveis da corrupção nacional o dinheiro não fala: grita. As imagens predominantes na TV foram as do governador José Roberto Arruda, o único eleito pelo DEM nas últimas eleições, e seu séquito de comparsas governamentais enfiando dinheiro em sacos, bolsas, cuecas e meias. Nunca na história desse país se viu um escândalo político tão bem documentado, com imagens, áudio e trocas, ao vivo, de acusações entre políticos, delatores premiados e empresários corruptores achacados pelo Executivo e Legislativo.

As imagens das pilhas de dinheiro clandestino confiscadas pela Polícia Federal no comitê de pré-campanha de Roseana Sarney, que então era a cinderela do extinto PFL para disputar o Governo Federal; a deflagração do escândalo do mensalão nacional, com um funcionário do quinto escalão dos Correios recebendo um pacote de notas corrompendo-se; os dos dólares na cueca do irmão do deputado federal José Genoíno (PT-CE), que, desde então, virou uma esfinge do mau humor com a imprensa; malas de dinheiro localizadas em um hotel em São Paulo, anunciadas como sendo do PT para comprar um dossiê contra José Serra (PSDB) durante a campanha para o governo de São Paulo. Haja na história brasileira recente cenas e imagens envolvendo dinheiro circulando ilicitamente, sempre no contexto político.

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TELEANÁLISE: A MORTE DE VOLTA À VIDA

Por Malu Fontes

malu fontesA morte está de volta, e no pior sentido. As gerações urbanas que adolesceram nas últimas três décadas foram desacostumadas com a morte, no que se refere ao contato visual com a presença de um corpo morto. Os percursos e os rituais da morte há muito se afastaram dos espaços privados, da casa onde se mora. Migraram para os hospitais e destes para velórios nos cemitérios. O que alguns historiadores chamam de morte burguesa se caracteriza justamente por ocorrer e ser embalada, durante e depois, num processo de medicalização, institucionalização, assepsia e distanciamento físico em que o corpo morto praticamente desaparece do raio de visão até mesmo dos familiares mais próximos.

Quem viveu a infância nos idos dos anos 60, 70, ou longe dos grandes centros urbanos, certamente traz na memória imagens e cenas de um conhecido ou ente querido morto, geralmente em casa, onde eram realizados os velórios. Os ritos fúnebres em espaços privados eram tão comuns como os batizados e os casamentos. Com a institucionalização da morte e sua transferência para os domínios da medicina, as crianças, os adolescentes e os adultos jovens contemporâneos sempre, com raras exceções, foram mantidos à distância do fenômeno pontual da morte e mais ainda das imagens reais de um corpo morto.

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TELEANÁLISE: DENTÕES, COLARES E RISCOS LÚDICOS

Por Malu Fontes.

malu fontesEsperta que só ela, Ana Maria Braga resolveu inaugurar seus dentões novos num período em que os olhos da mídia inteira estavam voltados ora para a fumaça ainda em torno do vestido da aluna da Uniban, ora para a politização, a arrogância e as trapalhadas das autoridades em torno do blecaute que deixou metade do país no escuro. Inspirada, não se sabe, se nos mordedores estreados um dia desses pelo ator Stênio Garcia, ou, quem sabe, acompanhando o que pode ser uma tendência dentária eqüina, pela proporção da verticalidade dos dentes, o fato é que o rosto da apresentadora ficou estranhíssimo.

Como bem já disseram os meninos do quadro “Exagerados’, do Fantástico, esse negócio de ficar bonito já está começando a ficar feio. Mas, diante das tantas estranhezas outras que se sobrepõem ininterruptamente neste país, que mente sã iria atentar justo para a nova coleção de dentões de uma apresentadora? Mesmo porque, como deter os olhos nos dentes se o que a mesma apresentadora mostra em sua tela é mais tão dantesco? Na segunda-feira, por exemplo, ela mostrava centenas de desabrigados das chuvas na baixada fluminense, muitos sem dentes, chafurdando como porcos na lama disputando donativos entre si.

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